CHEGANDO NA SERRA
Depois de arrumar as malas para subir a serra, e de ser brindado por um motorista barbeiro da Carris, de Porto Alegre, que bateu no meu carro (detalhe: estava parado) – o que atrasou em duas horas a minha vinda a Gramado: polícia, perícia e outros detalhes –, mas que, por sorte, não ocasionou nada de muito grave, cheguei a Gramado no segundo dia.
Calor, movimento mediano, credenciamento… A segunda noite era reservada para a estréia da competição de curtas, e para homenagear Lima Duarte.
O CAPITAL, A MOÇA E HAVANA
Ponto a favor. O Festival está mais ágil. As sessões começam um pouco mais cedo e os intervalos não são mais tão longos como em outros anos. Ponto contra: espera-se, às vezes, quase uma hora para o uso de um computador aqui na sala de imprensa. Reclamações à vista, já que a fila de credenciados não pega bem, muito menos os comentários que se escutam. O Festival precisa, urgente, aumentar o número de computadores. 15 é muito pouco. Mas enfim, após conseguir um, vamos à segunda noite.
Poucos sentados na platéia para assistir aos curtas. Caio Blat era uma presença quase solitária nos melhores lugares do cinema, aqueles reservados à imprensa mais de peso, convidados e artistas.
CAPITAL CIRCULANTE foi o primeiro curta exibido. Produzido de forma independente, tem uma qualidade técnica notável. No elenco, figuras conhecidas como Leona Cavali, Marcos Caruso e Ricardo Blat. A história de um carro importado que é roubado, várias vezes na mesma noite, tem roteiro e direção de Ricardo Mehedff. Um filme divertido, ligeiro, mas que tem um final previsível.
Em seguida, A MOÇA QUE DANÇOU DEPOIS DE MORTA. É uma animação adaptada de uma história de cordel de J. Borges, que segundo o próprio curta, foi comparado a Picasso pelo New York Times. O filme, de temático muito brasileira, tem ritmo peculiar, momentos divertidos, mas é um pouco cansativo e repetitivo.
O primeiro longa da noite foi o cubano SUITE HABANA, de Fernando Pérez, uma ousada produção que aposta nas imagens de Havana e em uma dezena de personagens cubanos, que não sabemos ao certo se são reais ou inventados. Para acompanhar as cenas que mostram uma Cuba devastada pela pobreza, mas ao mesmo tempo esperançosa, apenas a trilha e o som ambiente. Mas paradoxalmente, são os silêncios a maior força do filme: o silêncio de um olhar perdido, de um sorriso para alguém que se ama, de um gesto, de um toque. Mesmo que por vezes seja um pouco monótono, SUITE HABANA conquistou a platéia, e foi muito, mas muito aplaudido.
LIMA E A GUERRILHA
A segunda parte da noite teve uma invasão de público e fotógrafos. Tudo para Lima Duarte, que recebeu o Troféu Oscarito e, de brinde, uma aclamação da platéia. Fez um discurso simples e bonito, referindo-se a suas humildes origens, à figura do pai e até de Brizola.
Em seguida, mais curtas. CARREGAR UMA CRIANÇA, de Bruno Carneiro – que teve uma boa estréia, aqui em Gramado, anos atrás, com o belo O TEMPO DOS OBJETOS – conta três histórias paralelas, todas passadas à noite, numa estrada: um casal jovem que discute após a gravidez da menina, um caminhoneiro que fala sozinho sobre os presentes para uma menina (filha?) e uma família pobre que caminha pela estrada, cheia de filhos pequenos. É previsível mesmo dentro da sua imprevisibilidade. De uma certa maneira, lembra o ESTRADA, de Jorge Furtado (um dos curtas de FELICIDADE É…), porque sabemos ser óbvio que ali não haverá lugar para uma tragédia, mesmo que o roteiro insista em anunciá-la. Desta forma, o final acaba sendo frustrante.
O quarto curta em competição da noite foi FELICIDADE, uma engraçada e inconseqüente brincadeira com um casal nu, em cima daquelas pedras famosas em Floripa, berrando aos céus, de forma agressiva, como eles são felizes. No elenco, Austregésilo Carrano, do livro Bicho de sete cabeças, personagem real que foi vivido por Rodrigo Santoro no cinema.
O segundo longa exibido na noite foi o brasileiro ARAGUAYA – A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, que retrata os conflitos entre um pequeno grupo de guerrilheiros acampado na Amazônia e o exército, nos anos 70. Apesar de seu elenco com bons nomes como Northon Nascimento, Françoise Forton, Danton Mello, Fernando Alves Pinto e até do francês Stephane Brodt, o filme dirigido por Ronaldo Duque revela-se uma decepção. O roteiro é ingênuo e transforma os guerrilheiros em tipos esquemáticos, com diálogos constrangedores e datados ao estilo: vamos mudar o mundo, lutando por uma sociedade mais justa e igualitária. Em contrapartida, os militares são malvados, muito malvados, esterotipados. O maniqueísmo talvez pudesse ser justificado porque a fonte, alegada pela produção, vem apenas do PC do B, já que os militares recusam-se a tratar do tema. De qualquer forma, era possível escapar de passagens tão mal construídas. Os personagens ficam soltos na história, por vezes somem, depois reaparecem. Há pulos no roteiro que tiram toda a emoção, e de uma cena para outra já vemos um personagem preso, sem nem termos visto ele ser capturado. Muita gente foi embora, e quem ficou, retribuiu com aplausos burocráticos. De qualquer forma, vale a aposta de um kikito de ator coadjuvante para Northon Nascimento, que tem uma boa atuação no filme mas, muito mais que isso, vem de uma vitória pessoal notável, após um transplante de coração. Northon, nos créditos, foi mais aplaudido que o próprio filme.
Sessão acabando um pouco mais cedo, nem meia-noite, mas ainda restam algumas tietes nervosas pelas estrelas, que estão escassas esse ano em Gramado.
Amanhã tem mais.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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