LEONA, VOVÓ E WHISKY
A última noite da mostra competitiva iniciou com atraso outra vez. Prometia ser longa pois, além dos filmes, haveria a entrega dos prêmios em curta-metragens 16mm e gaúchos.
DESEQUILÍBRIO abriu a noite, curta de Francisco Garcia com Leona Cavalli (que na hora da apresentação do filme, no palco, cantou uma musiquinha). É um trabalho difícil, de extrema poesia e belíssima fotografia. Narra a história de uma prostituta que se encanta por um equilibrista. Não há diálogos, apenas poemas de Augusto de Campos que permeiam esse estranho amor.
O segundo curta da noite foi mais pop. VOVÓ FOI AO SUPERMERCADO é um trabalho do paranaense Valdemir Milani. Apoiado na carismática atriz Lala Schneider, o filme fala sobre uma velhinha que decide sair pelas ruas de Curitiba com um revólver na mão, a bordo de um fusca vermelho. Foi muito aplaudido, apesar do péssimo elenco coadjuvante que quase põe tudo a perder.
Último longa latino em exibição, WHISKY, da dupla Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, premiados em Gramado por 25 WATTS, arrebatou os espectadores. O filme é um dos mais credenciados da mostra, por ter participado do Festival de Cannes e ter levado o importante prêmio Um Certain Regard. O filme lembra o poético ENCONTROS E DESENCONTROS, ao mostrar a solidão na vida de três personagens: um irmão que vive no Uruguai e que resolve fingir um casamento com sua funcionária de maior confiança, e o outro irmão, que vem do Brasil. É um filme de silêncios, de perdas e ressentimentos nunca ditos, sempre engolidos, que atinge uma espécie de redenção quando os três partem de Montevidéo em direção à bela praia de Piriápolis. Destaque ainda para a excelente atuação do elenco. WHISKY foi muito aplaudido pelo público e deve levar alguns kikitos.
ZECA E A MENINA
A segunda parte da noite iniciou com a premiação dos curtas gaúchos. O melhor em 16 mm foi JESUS, O VERDADEIRO (que concorria quase sozinho, pois os outros dois de Luiz Rangel são incrivelmente ruins). O destaque em 35mm foi INTIMIDADE, de Camila Gonzatto, que recebeu três prêmios: direção, fotografia e direção de arte. A melhor atriz foi Janaína Kremer, por CINCO NAIPES, e o melhor ator foi Artur José Pinto, por A FEIJOADA. CINCO NAIPES (que, por justiça, deveria ser mais premiado) levou ainda o prêmio de melhor roteiro. A MESSALINA ganhou melhor montagem, SINTOMAS melhor trilha e NAVE MÃE, de Otto Guerra, melhor filme gaúcho, em resultado contestado por muitos.
Na 16mm nacional, destaque absoluto para NOITE DE SOL, de Marcela Arantes, que ganhou todos os prêmios (Filme, direção, roteiro, atriz), menos o de ator, que foi para Luciano Chirolli, de ATO II CENA 5.
Já eram 23h20 quando o último curta foi exibido. O JAQUEIRÃO DO ZECA, mostra os encontros do músico Zeca Pagodinho no seu sítio com compositores variados, garimpando repertório para seus discos. Um trabalho comum, e desnecessário.
Para terminar a noite, VIDA DE MENINA, de Helena Solberg. Os diários de Helena Morley, menina que vive em Diamantina no final do século XIX. Debochada, espirituosa, Helena ganha vida com Ludmila Dayer, que tem interpretação notável. Aliás, é ela quem carrega o filme, que é bom, mas tem um roteiro um pouco circular, situações repetitivas que acabam cansando. No elenco, ainda, Daniela Escobar, Ligia Cortez, Dalton Vigh, Camilo Bevilacqua. Destaque também para a reconstituição de época: direção de arte, figurinos e boa fotografia.
Era quase uma e meia da manhã quando o Festival terminou, oficialmente. Todos estavam cansados, lembrando que assistir aos filmes, à noite, é quase com levar uma surra: ficar entre 5, 6, 7 horas sentado numa cadeira desconfortável é a prova máxima de quem ama o cinema, e o Festival de Gramado, apesar dos pesares.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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