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categoria: 2004

QUARTO DIA: A NOITE COMPETITIVA

OS BICÕES E A CIDADE

A cidade de Gramado já está diferente. Como de costume, os ônibus de excursão, atrolhados de crianças e adolescentes com câmeras digitais, bloquinho na mão e muita disposição para berrar, chegaram por aqui e juntaram-se aos nativos.
Gramado começa a ficar quase intransitável, com muita gente pensando nas festas e nas caçadas. Parágrafo à parte. É impressionante o profissionalismo de certos bicões. Há uma turma por aqui de estudantes universitários conhecida por sua facilidade em adentrar todos os ambientes. Mas isso não seria nada de mais, não fosse a voracidade com quem eles festejam suas pequenas vitórias. A Marta Terra organizou um coquetel para o filme DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO e lá estavam eles. Depois, na sessão oficial de cinema, comentavam muito alto para os outros amigos: cara, muito sushi de graça e champagne, comi até ficar enjoado!. Mas eles não são os únicos, há senhoras respeitadas na comunidade que podem ser vistas em muitos coquetéis, sentadinhas, bem vestidas, com pose de gente do cinema, bebericando e comendo sem a menor cerimônia. Coisas que habitam o folclore gramadense.
Mas vamos aos filmes. Depois de um início de semana com filmes entre o mediano e o ruim (exceção para a boa produção cubana), o Festival de Gramado precisava se redimir para não deixar uma impressão tão ruim. Pois finalmente isso aconteceu.

QUADRILHA, A MÃO E PUIG

A programação oficial começou com inexplicáveis trinta minutos de atraso. O primeiro curta da noite foi o gaúcho CINCO NAIPES, de Fabiano de Souza, que deixou excelente impressão. A la Drumond, conta a sutil história de quatro personagens que se envolvem entre eles após a morte do catalisador da ciranda, um bissexual. Cada um deles envia uma carta, que nem sempre chega às mãos do destinatário e acaba criando pequenas e involuntárias confusões, quase todas acabando na cama. É uma obra ousada e muito bem dirigida, com um elenco coeso no qual apenas Janaína Kremer está um pouco destoada. O filme foi muito aplaudido e deve levar alguns kikitos.
O segundo curta da noite foi do pessoal da USP: O LENÇOL BRANCO. Uma jovem mãe acorda com seu bebê morto em seu colo. A partir daí, ela não consegue se separar do corpo do filho, enquanto aguarda a chegada do IML. O filme paquera com o bizarro, em especial no seu final, mas tem um interessante clima psicológico.
O longa latino da noite foi o argentino VEREDA TROPICAL, de Javier Torre, vencedor em Gramado anos atrás por UM AMOR DE BORGES. VEREDA conta a passagem do escritor Manuel Puig pelo Rio de Janeiro.
É uma obra que aposta no carisma de seu ator principal, Fabio Aste, de excelente atuação, e que não faz muitas concessões. O diretor não se exime das aventuras homossexuais do protagonista, e mostra várias relações de Puig com os meninos do Rio. No elenco ainda a atriz brasileira Silvia Buarque. VEREDA TROPICAL tem pitadas de Almodóvar por seu visual kitsch anos 80, e teve uma ótima recepção da platéia de Gramado, apesar de ser um pouco irregular e estar muito aquém das obras-primas que o cinema argentino tem nos brindado.

HELIO, A TERAPIA E AS DUAS IRMÃS

Na segunda parte da noite, HELIORAMA, de Ivan Cardoso, foi a atração cabeça. Divido em quadros que mostram as loucuras de Hélio Oiticica, o filme, sem uma estrutura clássica, foi bastante aplaudido pelo inusitado.
O último curta de quinta-feira foi o mais divertido até agora, MOMENTO TRÁGICO, de Cibele Amaral, também no elenco e roteirista. É sobre um casal que se separa. Desesperado, o marido pede a um amigo que faça terapia em grupo com a ex-mulher para ver se consegue informações para tê-la de volta. Isto acaba ocasionando divertidas situações, muitas regadas à Maria Bethânia e com destaque para o engraçado ator Chico Santana. Foi ovacionado; Gramado também gosta de se divertir.
Para terminar a noite, veio FILHAS DO VENTO, obra com o maior elenco negro já reunido. Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Taís Araújo, Lea Garcia, Maria Ceiça, Rocco Pitanga, Thalma de Freitas, Kadu Carneiro contam a história familiar de duas irmãs que nascem numa pequena vila do interior do Brasil e tomam rumos diferentes na vida. O diretor Joel Zito Araújo avisou que era uma obra de baixo orçamento e, por isso, a dedicação da equipe tinha sido imensa. Verdade. Apoiada em uma estrutura televisiva, é quase um novelão, mas muito competente, com belíssimas cenas, em especial por causa do excelente elenco, com destaques para Gonçalves, desde já favorito absoluto para o kikito de ator, e das irmãs Lea Garcia e Ruth de Souza. Mesmo que não fuja das lamentações sobre o racismo na televisão e na sociedade brasileiras, FILHAS DO VENTO evita o tom meramente panfletário, e constrói um excelente painel no qual o rural e o urbano entram em conflito. Os longos e calorosos aplausos do final da sessão mostram que Gramado já tem um favorito do público e da imprensa.
Enfim, uma noite que recuperou um pouco a imagem quase perdida nos primeiros e fracos dias de competição.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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