EUFORIA! É este o sentimento que se apossa de mim ao ouvir o resultado do Festival de Brasília. O antológico FILME DE AMOR, de Júlio Bressane, foi o grande vencedor da noite. Maravilha!!! Não há como esconder, e vocês que me acompanharam no ARGUMENTO.net devem ter notado: desde o início, minha torcida era para este “pequeno filme sobre um grande tema”, conforme costuma dizer o modesto Bressane.
Na verdade, confesso, já saí de Fortaleza com o filme na cabeça. Ou melhor, estava ansiosa para conferir na tela o que havia lido, em críticas sobre o filme, quando de sua exibição em Cannes e Veneza. Aliás, desde que vi O MANDARIM, encantei-me com o olhar sensível e completamente singular de Bressane. Que sabe como ninguém escolher as músicas para emoldurar sua Sétima Arte. Que sabiamente insiste em ver sua obra interpretada por um ator do quilate de Fernando Eiras. Que há décadas faz filmes impactantes porque é sempre novo em sua forma de olhar e sentir o belo. E olha e sente sem arestas, sem preconceitos com a mesma vontade de encontrar novas visões, seja através das grandes coisas, seja pelas coisas mais banais. É ele mesmo quem diz: ”Sobretudo na minha vida, vi gente tola surpreendente”.
E Bressane, um dos últimos gênios da raça, surpreende sempre. FILME DE AMOR é uma grande pérola encravada na história da cinematografia mundial. É um grande filme sobre um apaixonante tema.
Além de “Melhor Filme” do Festival de Brasília, FILME DE AMOR venceu também como Melhor Fotografia – a cargo do mestre Walter Carvalho – e Melhor Trilha Sonora – de Guilherme Vaz. Candangos super merecidos!!!
Se estou eu tão feliz, imaginem ele, sua companheira, os produtores Lúcia Fares e Tarcísio Vidigal, as assessoras de imprensa Susana Schild e Paula Guatimosim (um doce !). E minha alegria maior vem talvez do fato de ter me encantado tão completamente pelo filme que o resultado do Festival veio confirmar minha torcida. Outros concorrentes mereceram aplausos mais calorosos do público. Mas eu fiz força para acreditar que aquilo era reação da média de pensamento nacional, infelizmente ainda não encaminhada devidamente na seara cultural. Enfim, venceu o mais belo, o mais apaixonadamente feito, aquele filme sobre o qual o diretor fala com tanta eloqüência e emoção que nos convida a gostar de FILME DE AMOR antes mesmo de vê-lo. Ou gostar mais ainda após conversar com ele. Que generosamente concedia entrevista a todos quando o procuravam no hall do Hotel Nacional ou mesmo no Cine Brasília.
Bem, e depois de destrinchar minha euforia bressaniana pra vocês, vou falar dos outros vencedores: GLAUBER, O FILME – LABIRINTO DO BRASIL, de Sílvio Tendler, ganhou Melhor Filme para o Júri Popular – como também já previra – e o prêmio da Crítica. O filme é muito bom e tem um importante sentido histórico. Rogério Sganzerla, que fez um “anti-filme” com O SIGNO DO CAOS, levou o Candango como Melhor Diretor (durante o festival, Sganzerla esteve muito bem representado por sua mulher, a atriz Helena Ignez, e pelas belas filhas Djin e Sinai).
Paulo César Peréio é o Melhor Ator por sua atuação em HARMADA, de Maurice Capovilla, enquanto Ruth Rieser ganhou o prêmio de Melhor Atriz por sua participação em LOST ZWEIG, de Sylvio Back. Ênio Gonçalves e Vera Mancini, ambos de GAROTAS DO ABC, de Carlos Reichenbach, ganharam os prêmios de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante. Sylvio Back e Nichollas Oneir ganharam Melhor Roteiro com LOST ZWEIG, filme também vencedor de Melhor Direção de Arte – Candango para Bárbara Quadros. Silvio Renoldi e Sganzerla levam a estatueta de Melhor Montagem por O SIGNO DO CAOS, enquanto o prêmio especial do júri foi para o argumento de GAROTAS DO ABC, de Reichenbach, estrelado pela bela Michelle Valle.
Já a premiação de curtas deixou a desejar. O Melhor Filme em 35mm foi RUA DA AMARGURA, do mineiro Rafael Conde. E o filme só tem de destaque mesmo a atuação de Yara de Novaes. O melhor curta em 16mm foi SUICÍDIO CIDADÃO, de Iberê Carvalho. O júri popular considerou o melhor curta em 35mm MOMENTO TRÁGICO, da atriz Cibele Amaral. Uma pena: os curtas CARTAS DA MÃE, tocante homenagem a Henfil, assinada por Fernando Kinas e Marina Willer, e o poético O OVO, de Nicole Algranti, com caprichado roteiro de Luís Carlos Lacerda (Bigode) e Clarice Lispector, um ousado P&B e bela fotografia de Antônio Dourado, além da cativante narração de Maria Bethânia, não tenham levado seus merecidos Candangos. Ficou de fora da lista também o interessante ONDE QUER QUE VOCÊ ESTEJA, de Bel Bechara e Sandro Serpa, com ótimas atuações de Débora Duboc e Leonardo Medeiros.
Enfim, festival tem dessas coisas e nem tudo pode sair perfeito. Valeu pelo destaque ao Cinema Nacional, pela organização, pelo critério do júri de longas, pela realização dos debates, oficinas, seminários. Tudo serviu para enriquecer o dia-a-dia de quem adora a Sétima Arte, especialmente a que tem jeito, cor, cheiro e assinatura de Brasileiro.
Até o próximo Festival! A nós, jornalistas, fica o agradável dever de contribuir para levar mais gente às salas de cinema para prestigiar as produções nacionais.
Aurora Miranda Leão - Cosmopolita por vocação, nascida em Fortaleza e carioca por opção, é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde faz atualmente Pós-Graduação em Audiovisual em Meios Eletrônicos. É também atriz, documentarista, produtora cultural e radialista. Filha do crítico de cinema, LG de Miranda Leão, cultora de Vinícius de Moraes, adora Paralamas do Sucesso, torce para o Boca Juniors, é encantada por Paris e Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro, é adepta das festas populares do Maranhão e apaixonada por dança.
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