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	<title>Argumento.net</title>
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	<description>CADA ARGUMENTO NO SEU GALHO</description>
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		<title>TRILOGIA SUJA DE HAVANA</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 16:27:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ulisses Borges</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[LITERATURA]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Juan Gutiérrez]]></category>
		<category><![CDATA[Trilogia suja de Havana]]></category>

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		<description><![CDATA[Como eu não sou crítico literário e não tenho a intenção de escrever sobre lançamentos da literatura, permito-me pinçar do fundo dos baús algumas coisas que eu realmente considero pérolas que jamais serão esquecidas (ao menos por mim). Mas, na verdade, o livro em questão nem é tão antigo! Foi lançado aqui no Brasil pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como eu não sou crítico literário e não tenho a intenção de escrever sobre lançamentos da literatura, permito-me pinçar do fundo dos baús algumas coisas que eu realmente considero pérolas que jamais serão esquecidas (ao menos por mim). Mas, na verdade, o livro em questão nem é tão antigo! Foi lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras em 1999 e, quase uma década depois, pela Alfaguara, em 2008. A primeira vez que eu o li foi em 2009, quando eu ainda trabalhava na galeria-livraria, e era a edição da Alfaguara. Prefiro a capa da Companhia. Embora isso possa parecer irrelevante, considero essa capa mais condizente com a crueza de dentro do livro. Não sei se já escrevi isso alguma vez por aqui, mas algumas capas (e títulos) têm poderes tão hipnotizadores sobre mim, que já comprei vários livros e discos apenas por causa delas.</p>
<p>Com o &#8220;Trilogia Suja de Havana&#8221;, do escritor cubano <strong>Pedro Juan Gutiérrez</strong>, acabou acontecendo mais ou menos isso, com a diferença de que eu simplesmente não o comprei. Só fui ler esse livro porque o título, principalmente, deixou-me bem curioso. Mas não precisei comprá-lo, afinal, trabalhando em uma livraria eu tinha essa vantagem de poder ler o que quisesse sem ter que gastar. E, melhor ainda, podia escolher através dos catálogos das editoras aqueles livros menos populares que só eu queria ler, mesmo sabendo que, na maioria das vezes, eles não sairiam das estantes a não ser para estarem nas minhas próprias mãos. Meio malandro eu, não? Mas eu tinha a esperança de achar que alguém um dia poderia comprá-los, como se assim fosse possível acrescentar algo na vida de alguém através dos meus gostos mais particulares. Não foi o caso da &#8220;Trilogia&#8221;, pois não foi um livro que eu encomendei, e sim um dos meus colegas de trabalho na época. Além disso, esse livro já estava dando sopa nas livrarias fazia um tempo e eu é que ainda não o conhecia.</p>
<p>O que mais me impressionou nesse livro foi, sobretudo, a crueza da linguagem. Um leitor mais desavisado pode, inclusive, sentir-se incomodado e até repugnado por ele.</p>
<p>Há pessoas que dizem que o autor do livro é o &#8220;Bukowski cubano&#8221;. Eu, particularmente, acredito que se existe mesmo uma semelhança forte a ponto de ter que citarem sempre o <strong>Bukowski</strong> ao falarem de P.J.Gutiérrez,  isso acontece pelo fato de ambos os escritores nunca terem escondido suas necessidades alcoólicas (a &#8220;Trilogia&#8221; é encharcada de rum!), e talvez algumas mesmas grandes pinceladas de sujeiras autobiográficas em seus livros, mas para por aí. Na minha opinião, Bukowski acaba parecendo até meio leve perto de Pedro Juan Gutiérrez, e basta ler a &#8220;Trilogia&#8221; para identificar isso&#8230;</p>
<p>O livro é uma mistura de contos e crônicas que abordam descaradamente vários assuntos relacionados à crise que ocorria em Cuba nos anos 90. E por conta de uma realidade extremamente dura que a população vivia naquela época, os personagens do livro vivem sem comida, sem dinheiro e sem nenhum amparo do governo. Em contrapartida, há sexo de sobra, sujeiras, drogas, tráficos, enfim, em qualquer uma das páginas do livro, além de ficar evidente a mistura de ficção com a realidade, o que mais desperta a vontade de continuar lendo é a maneira completamente despudorada e sincera do autor ao escrever.</p>
<p>&#8220;Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver.&#8221;</p>
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		<title>A TORMENTA</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 16:20:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Mastigava as imagens do frio russo, perdida em suas próprias fantasias. Fechou o livro com aquela pena do início de um distanciamento entre os dois. O intervalo entre um mundo possível e o seu mundo. Pensava a que horas voltaria a mergulhar naquele ambiente de neve e gelo. Olhou através da vidraça e o dia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mastigava as imagens do frio russo, perdida em suas próprias fantasias. Fechou o livro com aquela pena do início de um distanciamento entre os dois. O intervalo entre um mundo possível e o seu mundo. Pensava a que horas voltaria a mergulhar naquele ambiente de neve e gelo. Olhou através da vidraça e o dia terminava movimentando as árvores com força. Também fazia frio, mas o frio dentro dela era maior.</p>
<p>Preparava-se para a tormenta. Não sabia se o marido chegaria a tempo. Fechou as cortinas e correu para o quarto, compondo com trejeitos o personagem que mais lhe era útil. Atirada na cama, tapou-se com medo. Envolta pelas cobertas, sentiu o corpo todo arrepiar-se com o calor que por ali nascia. E sentiu-se caindo. Planando. </p>
<p>A tormenta. </p>
<p>Há dias esperava pela tormenta, e tudo de repente começou a parecer limítrofe a um penhasco. Era como se caminhasse por entre os rochedos, rente ao abismo, esfolando as mãos num esforço vão de evitar a queda.</p>
<p>Suada, saiu debaixo das cobertas. Já anoitecera. A casa, ainda em silêncio.</p>
<p>Não havia sinal da tormenta. Olhou para as tantas fotografias enfeitadas pelos porta-retratos, momentos de um casamento sem filhos, sem flores. </p>
<p>Foi assim que entendeu. </p>
<p>Quando apagou a luz, jogou a pesada mala para o lado de fora da casa. Deu duas voltas com a chave na fechadura. O ar gelado fez seu pescoço encolher-se entre os ombros.</p>
<p>Deu os passos, decidida, não sem antes verificar com a mão fria o livro dentro de sua bolsa.</p>
<p>O céu de estrelas dava-lhe a cobertura. </p>
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		<title>SOUS LA PLUIE</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 01:04:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Liz Christine</dc:creator>
				<category><![CDATA[ROSAS AZUIS]]></category>

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		<description><![CDATA[A tristeza sibilante e o devaneio lúcido – tão despreparados para enfrentar as temperaturas escaldantes de uma vasta plantação rasteira de sombrias perplexidades. E a sombra angustiada da insônia em vão acorda o despreparo do devaneio lúcido. A escuridão assombra pensamentos tolos vagando pelo corredor que leva ao banheiro mal iluminado por um ponto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A tristeza sibilante e o devaneio lúcido – tão despreparados para enfrentar as temperaturas escaldantes de uma vasta plantação rasteira de sombrias perplexidades. E a sombra angustiada da insônia em vão acorda o despreparo do devaneio lúcido. A escuridão assombra pensamentos tolos vagando pelo corredor que leva ao banheiro mal iluminado por um ponto de luz colorido. Todas as tolices desgastadas pela razão turva que mal enxerga a inutilidade dos pensamentos circulares. As frases giram em círculos que se expandem e se fecham em torno de verdades dúbias. Tudo se transforma aos poucos em clareza passageira que se apropria de justificativas fúteis. Gostaria tanto que essa madrugada fosse tão bela quanto o perfil de uma gata lavando as patas na janela com tela – mas não. A escuridão sombria se apropria de cada busca por um sentido que jamais existirá. Nada mais faz mesmo sentido desde que perdi as chaves do paraíso artificial que abrigava um parque de diversões para jovens quase adultos de idades variadas e personalidades misturadas entre si. As essências se misturam e são adulteradas por diversos fatores sociais ou químicos mas as verdades turvas transparecem em cada clareza passageira. Gostaria tanto de nadar em águas claras e límpidas que de tão profundas parecem suaves devaneios. Mas a escuridão em que vivemos é rasa e poluída e as chaves do paraíso artificial se perderam depois de uma festa de aniversário que acabou em fatias parceladas de torta alemã com chá de morango. A última garrafa de champagne foi aberta às onze horas da manhã do dia seguinte à festa de aniversário e o último pedaço do paraíso artificial se desfez na minha língua às três horas da tarde de um dia nublado com temperaturas escaldantes. Busquei um sentido e encontrei apenas teu sorriso dúbio congelado ao lado de bolsas térmicas para tratar fraturas e dores musculares ou simplesmente refrescar idéias já desgastadas pelo calor de um verão em Paris.</p>
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		<title>O QUE IMPORTA O QUE AS PESSOAS PENSAM &#8211; PARTE 4</title>
		<link>http://www.argumento.net/colunas/queda/o-que-importa-o-que-as-pessoas-pensam-parte-4/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 01:00:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Margarete Hülsendeger</dc:creator>
				<category><![CDATA[QUEDA LIVRE]]></category>

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		<description><![CDATA[O FÍSICO - Eu não o conhecia, mas as referências eram as melhores possíveis. Wheeler e Wilson me informaram que ele tinha a competência necessária para participar do projeto. Por isso, fiquei bastante surpreso quando inicialmente ele recusou o convite. Sua alegação era a de que tinha perdido muito tempo trabalhando com os militares no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O FÍSICO</strong></p>
<p>- Eu não o conhecia, mas as referências eram as melhores possíveis. Wheeler e Wilson me informaram que ele tinha a competência necessária para participar do projeto. Por isso, fiquei bastante surpreso quando inicialmente ele recusou o convite. Sua alegação era a de que tinha perdido muito tempo trabalhando com os militares no arsenal de Frankford, na Filadélfia, e que precisava se concentrar na sua tese – explicou o físico Robert Wilson.<br />
- O senhor sabe qual era o trabalho do Dr. Feynman no arsenal de Frankford?<br />
- Não tenho muito certeza, pois na ocasião eu já estava envolvido com o projeto. Mas parece que ele trabalhou na construção de um computador que tinha por objetivo dirigir os disparos da artilharia antiaérea. Pelo que fiquei sabendo, ele se engajou ao esforço de guerra já em meados de 1941.<br />
- O que o senhor fez para que ele mudasse de ideia e viesse a participar do Projeto Manhattan?<br />
- Na verdade, nada. Apenas disse que teríamos uma reunião preliminar no meu escritório e que era ali que ele poderia nos encontrar. Para minha satisfação, Richard acabou se apresentando, dizendo que a possibilidade dos alemães desenvolverem primeiro a bomba era assustadora demais para que ele pudesse ignorá-la. Assim, antes que mudasse de ideia, eu o instalei em uma sala e ele imediatamente já começou a trabalhar com seus outros colegas. Com certeza, foi uma excelente aquisição para o projeto.</p>
<p><strong>OFICIAL DE SEGURANÇA</strong><br />
- Enervante. Indisciplinado. Um cabeça dura. Essas são as palavras que melhor o definem. Todos diziam que ele era um gênio, alguém para o qual não havia problemas insolúveis. No entanto, sua mania de querer nos dar lições do como gerir o campo era absurda e ridícula.<br />
- Como assim? Ele pertencia à equipe de segurança ou à da administração?<br />
- Claro que não! Mas ele sentia prazer em identificar os pontos fracos na administração do campo. Ele gostava de encontrar buracos nas cercas ou defeitos nas fechaduras. Uma atitude infantil e totalmente despropositada. Além, é claro, de antipatriótica.<br />
- E o que o senhor fez a respeito?<br />
- Alertei seus superiores, assim como os colegas, da sua mania de arrombar cofres e gavetas. Atitude não só perigosa, mas totalmente inapropriada. Afinal, quem era ele para vir nos dizer como devíamos realizar o nosso trabalho? Eu repito: aquele rapaz era um perigo para todos!</p>
<p><strong>UM COLEGA NO CAMPO</strong><br />
- A vida em Los Alamos não era fácil para ninguém, mas para Richard era pior ainda. Além de todo o trabalho tentando encontrar a quantidade correta de plutônio para ser utilizada na bomba, ele ainda tinha o problema da doença da esposa. Mesmo que Oppenheimer tenha encontrado um lugar para Arline em uma clínica de Albuquerque, ainda eram 150 km que Richard percorria todos os sábados pela manhã. Ele nunca a deixava de visitar, mesmo que para isso tivesse de atormentar todo mundo para conseguir um passe ou um carro que o levasse até lá. E toda a vez que ele retornava para o campo as pessoas percebiam que ele voltava muito preocupado.<br />
- Essa situação afetava o seu trabalho no campo?<br />
- De jeito nenhum! Ele era incrível. Apesar de todos esses problemas ele conseguia manter o ânimo em alta, brincando com todo mundo e sempre fazendo o melhor no seu trabalho. Você sabia que ele consertou todas as máquinas Marchant? Aquelas coisas quebravam com frequência e foi o Richard que teve a ideia de fazer o conserto ali mesmo no campo para não perdermos mais tempo. Ele era incansável, mas aquela história com a mulher era muito triste.<br />
Continua&#8230;</p>
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		<title>NÃO TÃO VELHAS LEMBRANÇAS &#8211; PARTE 3</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 17:12:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Peres</dc:creator>
				<category><![CDATA[AMOR GUARDADO]]></category>

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		<description><![CDATA[Não lembro ao exato, mas acho que foi num dos imperdíveis episódios do Dr. House que aprendi que não somos perdedores quando derrotados, mas sim quando desistimos daquilo que queremos por conta de incidentes que possam vir a ocorrer. Foi mais ou menos o que aconteceu, e o que eu fiz. Não diria exatamente que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não lembro ao exato, mas acho que foi num dos imperdíveis episódios do Dr. House que aprendi que não somos perdedores quando derrotados, mas sim quando desistimos daquilo que queremos por conta de incidentes que possam vir a ocorrer. Foi mais ou menos o que aconteceu, e o que eu fiz. Não diria exatamente que foi uma desistência. Mas o fato é que quando somos seguidamente repudiados em virtude de atitudes que tomamos almejando algo de alguém, das duas uma: ou estamos fazendo a coisa errada, ou errada mesmo é a pessoa para quem estamos tentando fazer essa suposta coisa. Por isso eu não fiz mais nada. De uma maneira simplesmente assustadora, agi indiferentemente e deixei de procurá-la.</p>
<p>Como o mundo não para e, quem não está correndo está voando, logo após a dita desistência da minha parte, numa punhalada certeira em meio ao meu peito, vi a cena que mais dor me trouxe até então. Fui terrivelmente atingido. E sem chance pra defender-me. Com certeza uma das piores dores que existem [depois da de dente e da de cabeça] é ver a pessoa por quem se está apaixonado nos braços de outro, que não se sabe nem de onde veio. Nos deixa com o coração na boca. Em pânico.</p>
<p>Essa aí foi pra mim a morte de Franz Ferdinand, a gota d’água. Decretada então a guerra. Tristemente não houve pausa pra nenhum diálogo após o ocorrido. Nem tinha como também. Minha vontade momentânea era a de colocar tudo pra fora, despejar anomalias verbais em cima dela. Já disse certa vez o poeta que amor e ódio são dois lados da mesma moeda de paixão. Pois bem, fui dum lado ao outro, virei a moeda em questão de segundos. Cheguei ao ponto de não suportar o tom estridente da sua voz quando conversava com os demais a volta.</p>
<p>Ela foi ao encontro de alguém pra suprir a carência? Eu também. Tentei e, mais uma vez, não obtive êxito, pois ainda estava com ela em meus pensamentos. O que eu fazia ainda era de certa forma uma maneira de tentar atingi-la. Fui assim, até que percebi que, de tanto odiá-la, eu ainda gostava dela, e pior de tudo, gostava ainda mais do que antes.</p>
<p>Eu sempre tive uma filha da puta de uma intuição, e num desses dias que se passavam, sem que nos falássemos, eu a vi sair avoada, com um caminhar irritadiço e logo a segui para ver o que houve. Eu sabia que algo estava errado. Eu não, minha intuição. Cheguei como que guiado por uma bússola no lugar onde ela estava e, de maneira fingidamente casual me aproximei:</p>
<p>– E aí, – eu disse – o que aconteceu?<br />
– Nada, por quê? – disse ela.<br />
– Mentira, me fala o que aconteceu. – eu falei e me sentei ao lado dela.</p>
<p>Quando ela começou um pequeno relato, de alguns fatos que estavam ocorrendo na vida dela, correram algumas lágrimas pela parte distal do seu olho e, como eu estava com meus óculos de sol, prontamente emprestei-os pra ela colocar. Eu não queria que ninguém a visse chorando, não ali. Uma pena que não tivemos tempo pra conversa fiada na hora, porque era intervalo do serviço e já estava no fim dele quando começamos a falar. Então, depois do trabalho, à noite, já em casa, conversamos, por msn [Ah! A internet! Umas das melhores invenções dos últimos tempos]. Naquele diálogo virtual aconteceram homéricas revelações, escritas no teclado do computador com café, fumaça e lágrimas. Foram horas de conversa online. Um belo reate. Depois de algumas semanas sentindo-me péssimo e pesado, dali em diante, estagnei-me numa imensa leveza de espírito. Até consegui dormir bem de novo. Neste dia, já passando da meia noite, fomos dormir. Até que, por volta da uma e meia da madrugada, meu celular bipa, acusando uma mensagem de texto:</p>
<p>“A paixão queima, ela fere, machuca. Dói o período de cicatrização, depois passa&#8230; Mas as lembranças da cicatriz ficam.”</p>
<p>Dormi neste dia, ou melhor, nesta noite, sem saber ao certo o que estava sentindo. Só sabia de uma coisa, era algo bom&#8230;</p>
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		<title>o meu silêncio</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 17:04:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ulisses Borges</dc:creator>
				<category><![CDATA[POETOPIA]]></category>

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		<description><![CDATA[às vezes o meu silêncio parece um filho da puta egoísta querendo somente a própria paz e nem uma bandeira branca a mais. porque o meu silêncio se ouve e bem sabe que não serve como exemplo para nada não é mister universo não desfila babando ovos lambendo pintos cantando de galo soltando pombas para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>às vezes o meu silêncio<br />
parece um filho da puta egoísta<br />
querendo somente a própria paz<br />
e nem uma bandeira branca a mais. </p>
<p>porque o meu silêncio se ouve<br />
e bem sabe que não serve<br />
como exemplo para nada<br />
não é mister universo<br />
não desfila babando ovos<br />
lambendo pintos<br />
cantando de galo<br />
soltando pombas<br />
para a humanidade<br />
fantasiado de pacífica voz. </p>
<p>às vezes o meu silêncio<br />
quer somente um campo aberto<br />
para se implodir sem fazer alarde<br />
com o barulho que em si mesmo faz.</p>
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		<item>
		<title>A SEPARAÇÃO E O CINEMA IRANIANO</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 19:40:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tanira Lebedeff</dc:creator>
				<category><![CDATA[TAKE THE LONG WAY HOME]]></category>
		<category><![CDATA[A separação]]></category>
		<category><![CDATA[Asghar Farhadi]]></category>
		<category><![CDATA[Irã]]></category>

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		<description><![CDATA[  A confissão: por pouco não deixei a sala de cinema antes do fim de A SEPARAÇÃO. Mas não foi por não estar gostando (a saber, minha tolerância para filme chato é curta, ou eu durmo ou fast-forwardo…). Pelo contrário! Quando percebi que a história começava a acabar decidi que preferia não saber qual seria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p>A confissão: por pouco não deixei a sala de cinema antes do fim de A SEPARAÇÃO. Mas não foi por não estar gostando (a saber, minha tolerância para filme chato é curta, ou eu durmo ou fast-forwardo…). Pelo contrário! Quando percebi que a história começava a acabar decidi que preferia não saber qual seria o destino dos personagens. Na tela o casal da separação em questão, cada um num canto, magistralmente distanciados pelos elementos de cena. E eu torcendo: “Termina logo, termina logo!”.</p>
<p> A obra de <strong>Asghar Farhadi</strong>  (ele escreveu, produziu e dirigiu) me lembra filmes como O BANHEIRO DO PAPA (baseado em hilários e comoventes fatos reais), O VISITANTE (um conto sobre imigração ilegal que elevou o eterno coadjuvante <strong>Richard Jenkins</strong> ao status de estrela da hora), e o argentino UM CONTO CHINÊS (com o imprescindível <strong>Ricardo Darín</strong>). São histórias singelas, humanas, com personagens que instigam algum sentimento – seja piedade ou raiva.</p>
<p>Histórias assim, eu creio, superam de longe qualquer avanço em CGI. O filme narra o drama de Simin, que quer deixar o Irã em busca de um futuro menos conturbado e por isso quer se separar de Nader que, por motivos louváveis, não pretende ir embora. Seria simples se eles não dependessem de uma autorização do governo para dissolver o casamento. E se as pequenas decisões não tivessem consequências tão graves lá na frente. Em A SEPARAÇÃO ninguém é totalmente culpado, ou totalmente inocente o tempo todo. E o espectador (eu, ao menos…) se vê trocando de lado a cada sequência.</p>
<p>Farhadi filma segundo o peculiar manual do cinema iraniano: é um gênero quase documental, que usa ambientes reais como locações e transeuntes como figurantes. Em entrevista ao <strong><em>The Guardian</em></strong>, ele disse que essa abordagem permite que os espectadores descubram o filme por si e evita que o cineasta imponha seu ponto de vista. Asghar Farhadi, seu elenco e equipe já devem estar com os braços cansados de tanto arrecadarem troféus mundo afora. São prêmios de associações de críticos, prêmios de júri popular, em festivais pequenos e em festivais de renome como o de Berlim.</p>
<p> Ao receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ele fez um discurso elegante. “Muitos iranianos em todo o mundo estão nos assistindo e eu imagino que devam estar felizes, não apenas por causa de um prêmio importante. Em tempos de guerra, de intimidação e de agressões entre políticos o nome de seu país é mencionado aqui através de sua gloriosa cultura, que está escondida sob uma poeira política.”</p>
<p> E é verdade, escondido sob uma densa poeira política está o cinema persa. Como a cerimônia só foi assistida no Irã por quem tem satélite, no dia seguinte a agência de notícias estatal Farsi se encarregou colocar palavras na boca de Farhadi. Segundo a Farsi, ele disse: “Eu orgulhosamente ofereço este prêmio ao povo do meu país que, apesar de todas as tensões e hostilidades entre o Irã e o Ocidente em relação ao programa nuclear iraniano, respeitam todas culturas e civilizações”.</p>
<p> O cineasta realmente terminou o discurso com uma homenagem ao seu povo, mas não fez qualquer menção ao programa nuclear. Percebendo que não teria como sustentar a farsa por muito tempo o governo acabou publicando uma nova versão da reportagem. A façanha, porém, ficou devidamente registrada pelos blogueiros iranianos.</p>
<p> Enquanto tenta usar o sucesso de A SEPARAÇÃO em benefício próprio, a ditadura Ahmadinejad continua calando seus artistas. O próprio Asghar Farhadi teve a licença para filmar cassada por declarar publicamente sua solidariedade ao colega Jafar Panahi (condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem trabalhar como diretor). A Casa de Cinema, a mais importante associação independente de cineastas do Irã, foi ordenada a encerrar suas atividades pelo Ministério de Cultura e de Orientação Islâmica. A perseguição é parte da incessante campanha para reprimir o movimento de oposição ao regime.</p>
<p> Escrevo ciente de que falar do Irã exige tolerância e um certo distanciamento dos “filtros ocidentais”. No entanto, isso não significa isentar o país de sua responsabilidade com as convenções internacionais, sobretudo no que diz respeito à promoção e defesa dos direitos humanos.</p>
<p> Mesmo sem qualquer pretensão de promover um debate político ou sociológico, Asghar Farhadi abre uma janela para uma cultura rica, para uma nação cheia de contradições (e qual não o é?) e involuntariamente devolve para a pauta a repressão que impera por lá.</p>
<p>Uma vez ouvi que <strong>Coldplay </strong>é uma banda que todo mundo adora odiar, e que ninguém admite curtir.</p>
<p> O Oscar é mais ou menos assim. O pessoal adora criticar, torce o nariz, mas fica de olho! Se o selo de aprovação de Hollywood era só o que te faltava para assistir à SEPARAÇÃO… Corre lá!</p>
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		<title>pegadas</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 23:13:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorenzo Ganzo Galarça</dc:creator>
				<category><![CDATA[INCRÍVEL HUMANIDADE]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é sobre isso é o boato que escuto na voltinha do fêmur que se espalha chovendo cidade inteira Não pense que é sobre você dizendo por dentro da terra coisas como é minha mudança de pele, darling wait and see através da janela enquanto me acertas errando. Falsificas a arqueologia das pegadas cobres com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é sobre isso<br />
é o boato que escuto<br />
na voltinha do fêmur<br />
que se espalha chovendo<br />
cidade inteira</p>
<p>Não pense que é sobre você<br />
dizendo por dentro da terra coisas como<br />
é minha mudança de pele, darling<br />
wait and see<br />
através da janela enquanto<br />
me acertas errando.</p>
<p>Falsificas a arqueologia das pegadas<br />
cobres com terra meu sítio<br />
foges te procurando<br />
e não me encontras na mesma sala</p>
<p>É tão sobre você<br />
que sou eu<br />
púrpura nuvem que avança<br />
violentamente<br />
suave.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>réstia</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 23:06:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ulisses Borges</dc:creator>
				<category><![CDATA[POETOPIA]]></category>

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		<description><![CDATA[sempre é tempo sobre as tardes cinzas quase luas de um sorriso teu depois das chuvas e todos os dias entre as nuvens um raio minguante a mim te revelará.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>sempre é tempo<br />
sobre as tardes<br />
cinzas quase luas<br />
de um sorriso teu<br />
depois das chuvas<br />
e todos os dias<br />
entre as nuvens<br />
um raio minguante<br />
a mim te revelará. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>PITAQUEIROS PROFISSIONAIS</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Apr 2012 01:33:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Ricardo Kralik Angelini</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONTEXTO]]></category>

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		<description><![CDATA[Leio no jornal que a moda é o coaching. Para emagrecer, para fazer os adolescentes acertarem na escolha da profissão, para herdeiros de empresas que não sabem se querem de fato a responsabilidade transmitida, até para noivos que precisam ensaiar o amor verdadeiro. São casos de pessoas que pagam – caro – por profissionais que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Leio no jornal que a moda é o coaching. Para emagrecer, para fazer os adolescentes acertarem na escolha da profissão, para herdeiros de empresas que não sabem se querem de fato a responsabilidade transmitida, até para noivos que precisam ensaiar o amor verdadeiro. São casos de pessoas que pagam – caro – por profissionais que lhes servem de treinadores, motivadores. E isso me estarrece.</p>
<p>Não, eu não me imagino recebendo dicas e frases de incentivos de alguém para as decisões mais importantes da minha vida. Não me imagino tendo à sombra alguém pago por mim para extrair de mim aquilo que eu acho não ter condições de, sozinho, atingir. Nunca achei muito simpática a ideia dessas organizações meio militares em que há sempre a necessidade de uma voz autoritária ou motivadora para fazer o outro se movimentar. Berrar no meu ouvido me tira do sério, e o efeito tanto pode ser um grito meu do outro lado quanto minha birra – braços cruzados, não faço mais nada!</p>
<p>A matéria no jornal, claro, é elitista, e começa assim: Você ainda terá um coach. Imagina a dona Maria lendo isso. Coach? É aquele barulho que o sapo faz nas histórias em quadrinhos?</p>
<p>E penso, então, nessa dona Maria, que lê o jornal de domingo, perdido numa praça. Ela precisa pegar dois ônibus e acordar às 5h da manhã, e digamos que esteja nesta praça comendo um sanduíche que trouxera de casa, em seu intervalo de almoço. Pobre dona Maria que não tem um treinador para explicar-lhe como se sentir motivada para levar a vida que leva.</p>
<p>Então me dou conta. Ahá! Vai ver que é por isso que fiz publicidade antes de fazer letras. Porque não tive um coach que me orientasse e percebesse que a literatura era o meu caminho desde o início. Vai ver que é por isso que não casei ainda. Mas certamente não é por isso que não herdei nenhuma grande empresa.</p>
<p>E singelamente tenho a dizer para a dona Maria, essa senhora tão querida que acabei de inventar, que também nós inventamos a nossa vida, do jeito que, sim senhora, bem entendemos, desenhando sem borracha, como dizia Millor Fernandes. E não tem coach no mundo que faria eu mudar mesmo o que deu errado na minha.</p>
<p>E aprendo, por fim, que quem tem um coach é coachee. Só fico pensando se este ‘novo profissional do futuro’ se responsabiliza se alguma coisa der errada na vida dessas criaturas que precisam de muletas para darem os próprios passos. E mais: se eles chegam a pensar se essa tal felicidade só existe quando atingimos alguma meta. O fim é sempre mesmo o mais importante? </p>
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