Quando assisti a L’AUBERGE ESPAGNOLE, de Cédric Klaplish (Espanha, 2002), senti uma nostalgia misturada a uma sensação de quero mais. Em 1999, eu havia tido uma experiência de dividir um apartamento em Madrid com outras três pessoas, mas como meus compañeros de piso eram todos brasileiros, era como se ela não valesse.
Ano passado, quando vim morar em Sevilha, pude vivenciar um verdadeiro albergue espanhol, leia-se Torre de Babel espanhola. Éramos quatro chicas (me incluo como chica, pois na Espanha até os 60 anos a expressão está valendo): uma dos Estados Unidos, de 27 anos; outra da Alemanha, de 25; outra da França, com 20 aninhos; e eu, a representante brazuca, no auge dos meus 37.
Assim como na película, a convivência entre as moradoras foi super-rica e divertida. Aprendemos muito umas com as outras, tanto como pessoas de gerações e temperamentos diferentes, quanto oriundas de culturas e costumes completamente distintos.
A divisão de tarefas tinha direito à listinha na cozinha com o que cada uma devia fazer na semana. Na geladeira, também como no filme, cada uma tinha a sua respectiva repartição. Detalhe: esta era proporcional ao tamanho do quarto! A minha era a última, lá embaixo e bem pequeninha! Bem que podiam ter feito a divisão de acordo com as idades…
No início, tudo era muito estranho. Depois de morar sozinha há séculos, voltar a dividir o território com mais três pessoas desconhecidas não parecia ser uma tarefa fácil. Além disso, era inverno e, como o apartamento era muito frio, cada uma ficava a maior parte do tempo dentro de seu quarto.
Aos poucos, o clima (dentro do apartamento!) foi mudando. As quatro estranhas começaram a se conhecer melhor e a interpretar os códigos uma da outra. Sim, literalmente, códigos, pois nem sempre o espanhol, linha oficial do apartamento, era a melhor forma de comunicação. Se após recorrermos às quatro línguas das moradoras não nos entendíamos, tínhamos que apelar para a velha e boa língua de sinais universal, como apontar para algo com o dedo indicador (“mim” quer aquilo) ou balançar a cabeça lateralmente (não era isso que “mim” queria)!
Nem nos demos conta. A amizade foi crescendo e, quando menos esperávamos, cada uma de nós estava inserida no contexto da outra. Eu, participando das festas da gurizada do Erasmus (o intercâmbio universitário europeu); elas e seus amigos sendo meus alunos de Sevillanas (dança típica de Sevilla, por supuesto) e, cada uma de nós, ensinando pratos da culinária de nossos países de origem, etc. Bem, nesse quesito, o Brasil saiu prejudicado, pois eu, de prato típico, só negrinho…
Obviamente, o fato de eu ser a mais velha me dava algumas vantagens e outras desvantagens. Eu tinha o status de ser a mais responsável e experiente da casa (tinha que ter guardado aqueles depoimentos para mostrar para a minha família!). Era uma espécie de conselheira-amiga-mãe. Em contrapartida, alguns pepinos sobravam para mim, como falar com os encanadores, ligar para a operadora de telefone e… matar barata! Sim, até isso. Uma noite, tipo duas da manhã, uma das meninas bateu no meu quarto com uma cara de pavor dizendo: “ una cucharacha en el baño! Puedes ayudarme, Silbia? Es mi primera vez, pues en Francia no hay!”. Vivendo e aprendendo. Quem diria, na França no hay baratas. Botei um chinelinho no pé e o outro na mão e la cucaracha, la cucaracha, ya no puede caminar… Regra número um da vida em comunidade: não basta ser compañera de piso, tem que participar!
Se o personagem principal de L’ALBERGE teve uma experiência inesquecível, eu também tive! Já não assistirei ao filme com uma sensação de algo não vivido ou vivido pela metade. Agora resta saber como serão as continuações. Sim, continuações, pois, se na ficção Xavier retornou a Barcelona para rever os compañeros, eu continuarei mais algum tempo por aqui vivenciando outros albergues e quem sabe reencontrando as Imperial Girls (assim chamei o quarteto em função da rua que morávamos: Calle Imperial) para relembrar os bons momentos. Ainda bem que existe o Facebook…
Silvia Canarim - Silvia Canarim é bailarina e coreógrafa de flamenco. Formou-se em jornalismo e é pós-graduada em dança. Em 2007, com o espetáculo A CASA, recebeu diversos prêmios Açorianos, entre eles, o de melhor espetáculo de dança do ano. Atualmente finaliza sua tese de doutorado em flamenco, a ser defendida em Sevilha, na Espanha, onde viveu por alguns anos.
Site: "SILVIA CANARIM"
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