// você está lendo...

categoria: TACONES LEJANOS

FLAMENCO, FLAMENCO, DE CARLOS SAURA

Em 1995, em minha primeira vinda à Espanha, o Flamenco era ainda para mim um mistério, um sonho nebuloso. Lembro que, mais do que uma viagem profissional, foi um misto de turismo, exploração e descobrimento (externo e interno). Em outras palavras, uma viagem iniciática e, por isso mesmo, início e fim de mais uma etapa da minha vida. O itinerário era o básico de todo “marinheiro de primeira viagem” à Espanha: Madrid, Barcelona e Sevilla –cidade que eu só retornaria em 2008 para fazer o doutorado em Flamenco.

 

Ao chegar à capital andaluza, lembro que eu e minha colega fomos direto a uma das principais escolas da cidade, la Escuela de Baile Matilde Coral. Tínhamos só uma semana e não podíamos perder tempo. Lembro-me muito bem da secretária dizendo: “Matilde no está. Está en el último día del rodaje de la película de Saura”.

 

Película de Saura!, gritei internamente. Ou seja, disse aquele “YES” que pensamos quando algo muito bom acontece ou está por acontecer. Saímos correndo direto para o local da gravação, a Estación Plaza de Armas, que era a antiga estação de trens de Sevilla e que tinha – e tem – a feliz peculiaridade de ser toda envidraçada. “YES”, outra vez!

 

Chegando lá, tudo vazio. Nem parecia que havia uma filmagem em pleno centro da cidade. Tenho até hoje a imagem da cena final do filme que ficou gravada na minha retina – através do vidro é claro – e que mais tarde eu veria mil vezes em vídeo. Nesse momento, só pensava: “que vontade de estar aí dentro”!

 

O mundo, ou melhor, a minha vida deu muitas voltas e resulta que retorno a Sevilla, mais de uma década depois e, ¿lo que pasa?, Saura inventa de rodar outra película! SIM, para não repetir o YES! Resulta, também, que um dos artistas convidados é Israel Galván, o bailaor que, por coincidência ou não “yo” estou estudando. Bem, vocês já sabem o que eu gritei internamente outra vez!

 

Como já perdi muito tempo de vida pensando no que deixei de fazer por medo e insegurança, resolvi “chutar o balde” e perguntar para o Israel, o produtor dele e a produção do filme se eu poderia assistir à gravação da participação dele no filme (perguntaria até para o Rei da Espanha, se fosse o caso). E eles disseram yes, quer dizer, SÍ!

 

 Foram as 12 horas mais incríveis da minha vida. “Euzinha” do lado do Carlos Saura, do Vitorio Sttoraro, do Israel Galván e de toda uma equipe de cineastas, técnicos, etc., enquanto eles discutiam qual era a melhor luz, colocação espacial e todos aqueles detalhes que fazem um filme nos emocione sem que nos demos conta da parafernália que está por trás.

 

Mas “peraí”, eu tô dentro! Sim, quer dizer, YES, pela milésima vez. Estou dentro do set de filmagem do Saura! Deslumbramentos à parte, foi uma experiência única. Além do mais, uma prova de que a vida sempre tem desses “presentinhos” para nos regalar de vez em quando.

 

O filme está previsto para estrear em junho do ano que vem. Acredito que vai ser um dos mais belos entre os musicais realizados pelo Saura. Sem contar, é claro, que terá a participação especial dos meus olhinhos marejados de emoção do lado de trás das câmeras.

 

Silvia Canarim - Silvia Canarim é bailarina e coreógrafa de flamenco. Formou-se em jornalismo e é pós-graduada em dança. Em 2007, com o espetáculo A CASA, recebeu diversos prêmios Açorianos, entre eles, o de melhor espetáculo de dança do ano. Atualmente finaliza sua tese de doutorado em flamenco, a ser defendida em Sevilha, na Espanha, onde viveu por alguns anos. Site: "SILVIA CANARIM"
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Silvia Canarim

Comentários

Sem comentários para “FLAMENCO, FLAMENCO, DE CARLOS SAURA”

Deixe um comentário