ESTREIA!
Quando na minha vida flamenca eu poderia sonhar que um dia iria me deparar com um doutorado em Flamenco? Nunca! Pois não é que ele existe? E o melhor vem agora: eu estou cursando o dito cujo, aqui em Sevilla! Bem, só posso dizer que é tudo o que eu sonhei e mais um pouco. Já imaginaram, no meio de uma aula, a professora levantando da cadeira e sapateando no meio da sala? Pois então, no doutorado em Flamenco isso ocorre com frequência, não porque a professora esteja com raiva, mas para explicar melhor o conteúdo que está sendo dado! Às vezes, não acredito que isso está acontecendo, e me surpreendo rindo sozinha e pensando, no meio da aula: “se eu contar, ninguém acredita”!
Essa disciplina é a de História da Dança Flamenca. E a de Voz Flamenca em que o professor entona diversas melodias, fazendo uma comparação entre a colocação da voz no cante flamenco e na Ópera? “Es muele o quieres más”? Em uma aula, observamos como as cordas vocais se comportam nos cantores das duas vertentes. Isso quer dizer que o meu mestre colocou uma micro-câmera no gogó de uma cantaora (assim são chamados os cantores de flamenco) e no de um cantor lírico para fazer a experimentação. Só não me perguntem como eles conseguiram cantar com isso, digamos, “alojado na goela”! Como diria um colega meu, não paro de “flipar” nessa aula. Flipar, na gíria espanhola tem vários sentidos. Nesse, especificamente, seria não acreditar no que está vendo! Quando a “flipação” é grande, eles dizem “flipo en colores”…
Agora, com certeza, uma das disciplinas com “más arte” é a de Estilos Flamencos. Nela aprendemos a reconhecer os diferentes ritmos do flamenco (o que é quase “una misión imposible”, pois cada “pueblo” ou povoado da Andaluzia tem um, no mínimo!!). Bem, de qualquer forma, a gente tenta, né?! Nesse caso, a professora e nós ficamos, durante quatro horas, ouvindo músicas e tocando palmas – sim, no flamenco, a gente não “bate” palma, pois elas são mais um dos elementos fundamentais de acompanhamento musical dessa arte. Além das palmas, cada um fica cantarolando as melodias e marcando o ritmo golpeando os ossinhos dos dedos da mão na mesa – outra forma de acompanhamento musical do flamenco! Para resumir o quadro: imaginem onze pessoas “tocando palmas”, cantando e batucando na mesa ao mesmo tempo em que escutam uma música a todo volume! Explico: minha maestra nem sempre sabe regular o computador no volume certo e quase sempre ouvimos a potente voz dos cantaores flamencos em “suround sound”!
Esse é mais um dos momentos nos quais sorrio por dentro e penso: “se eu contar ninguém vai acreditar”. Eu mesmo não acredito no que estou vivenciando, mas posso dizer que estou “flipando en colores”!
Silvia Canarim - Silvia Canarim é bailarina e coreógrafa de flamenco. Formou-se em jornalismo e é pós-graduada em dança. Em 2007, com o espetáculo A CASA, recebeu diversos prêmios Açorianos, entre eles, o de melhor espetáculo de dança do ano. Atualmente finaliza sua tese de doutorado em flamenco, a ser defendida em Sevilha, na Espanha, onde viveu por alguns anos.
Site: "SILVIA CANARIM"
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Silvia! Continuo aprendendo contigo ainda que “de lejos”!! É um sonho! Obrigada por compartilhar conosco tuas experiências! Viajo com teus relatos! É um privilégio! Grande bj!