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categoria: OU SOMBRA

PONTO. NOVA LINHA

“Parece incrível ainda estar vivo quando não se acredita em mais nada. Olhar, quando não se acredita no que se . E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia.” (Lixo e Purpurina – Caio F.)
 
Aquela noite parecia uma fotografia em preto e branco, só que um pouco diferente. As fotografias em preto e branco costumam ter um certo romantismo, aquela noite não. Atravessei metade da cidade pra me servirem vodka com coca-cola e eu me sentir um pouco menos vazia. Não funcionou. Não gosto de festas; saí de casa apenas porque era sábado de noite e não queria ficar jogada no sofá esperando o telefone tocar.

Sentei em um canto misturando a coca cola e a dose de vodka com o indicador, não bebi nenhum gole, apenas lambi meu dedo pra tirar aquele molhado e sentir aquele gosto forte em minha língua. Arrepiei-me dos pés aos fios de cabelo. Todo mundo estava dançando algum daqueles rock’s dos anos 60. E aquela batida fazia meus pés tremerem, disfarçando o real nervosismo. Era aquela coisa meio sapateado meio rebolado, meio Elvis. Acho lindo, até porque tenho uma atração louca por qualquer mulher que dance bem. Talvez nem seja uma atração, porque tenho um preconceito enorme, e acho que a maioria das mulheres que tem muita arte no pé, não tem nada na cabeça. Às vezes sobe em mim uma vontade louca de dançar de olhos fechados no escuro, sem repetição, é pra não ver nada mesmo. Dançar, quase pular, de pés descalços em cima de cacos de vidro, sem masoquismo, apenas pra sentir de verdade, mas isso é só às vezes. Hoje eu não danço, pensei. Talvez aquela noite não tivesse romantismo porque eu o repudiava, porque eu impedia. Talvez porque para o romantismo, para todas as ações românticas, e aquelas coisas para se lembrar para o resto da vida, precise de simpatia. Talvez porque romantismo exija duas pessoas e eu sentei sozinha e esse advérbio solitário necessita de mais alguém. Talvez porque, naquela noite, eu não tinha nem a mim mesma, assim, me sentia completamente incapaz de ter a qualquer outra pessoa.

Aquela noite parecia um diálogo. Porque sua fórmula era simples e objetiva, igual àquela regra de ponto, nova linha, travessão. Aquela noite era necessidade, saudade, solidão. Eu não pertencia àquele lugar, ou talvez não pertencesse a lugar nenhum. Eu não me sentia a vontade ali, ou talvez simplesmente não sentisse. Eu passei pela pista de dança e acho que ninguém me viu, meus pés nem ameaçaram se mexer de acordo com o compasso da música. Pisaram em mim no mínimo três vezes, uma das pessoas quase caiu quando tropeçou nos meus sapatos velhos e desbotados, mas acho que mesmo assim não notou.

Fui até a sacada e olhei pro céu, que nem parecia um céu de cidade. A lua não estava cheia, mas estava maravilhosa. Parecia o sorriso daquele gato. As estrelas pareciam mais perto do que nunca e pulsavam tão rapidamente que me deixavam com dor de cabeça, com aquele palpitar que parecia querer me acusar de alguma coisa. Apoiei-me na beira da sacada feita de madeira e olhei pra baixo. O chão pareceu-me perto demais, mesmo eu estando no décimo primeiro andar. Parecia que se eu me abaixasse chegava ao chão e se me ergue-se batia a cabeça no sorriso felino. Não via nenhum carro passar na rua, e mesmo que lá embaixo avistasse algumas pessoas andando pela cidade, ela parecia vazia. A impressão que eu tinha era que aquela festa estava minúscula, aquela cidade, aquele mundo. Tudo. O espaço que eu tinha pra me mexer era menor do que uma cela de prisão. Gritei. Não sei o que, nem porque, só sei que gritei. Talvez pra quebrar as grades da cela, talvez pra alguém me ouvir, talvez apenas por desejar, provavelmente por necessitar.
As pessoas não entendem o desejo de ficar sozinha. Elas são agitadas demais e não entendem a vontade de ficar parada por alguns segundos, ou talvez por horas, apenas pra tentar por no lugar qualquer coisa que algum dia me assustou, qualquer coisa que algum dia me encantou, qualquer coisa, dessas que gritam no meu peito, e que não são poucas. Pra tentar por no lugar qualquer coisa que me falta, que me incomoda, que fazem eu querer explodir o mundo, a casa, a vida. Essas coisas que se instalam no lugar mais dentro de mim e fazem com que eu queira morrer, desistir, deixar de lutar. Preciso da minha exclusão pessoal, meu esconderijo pra tentar continuar. Mas ninguém entende isso. Alguém se aproximou de mim e chegou exageradamente perto, chegou a uma distância na qual não passaria nem o vento. Uma proximidade que eu não queria nem comigo mesma naquela noite. Eu não queria falar com ninguém, mas alguém perguntou:
- Quer um cigarro?
- Não fumo.

Continuei ali enjaulada, pensando em me esticar e ver se alcançava mesmo aquele sorriso, talvez precisasse de um. Derramei toda a coca-cola com vodka, que tinha em meu copo, prédio abaixo, e admirei ela se libertar pelo ar em um suicídio, ou homicídio, até ver aquele liquido virar forma plana quebrando-se na calçada. Queria ver se o chão estava realmente perto. Não estava, mas parecia. Eu não queria me explicar, mas alguém perguntou:
- Não bebe também?
- Não bebo.
- Deixa eu adivinhar, não dança?
- Não danço.
- Ta se guardando pra quando o carnaval chegar?
- Não gosto de carnaval.
- Sabe, qualquer pessoa nessa festa mandaria você à merda agora mesmo…
- Pode mandar.
- Menos eu.
Eu só queria olhar as estrelas, mas alguém queria teorizar:
- Você gosta de olhar as estrelas?
Eu só queria ficar quieta, mas alguém queria justificar:
- Por que você está aqui?
- Pra verbalizar a solidão.
- Me beija.

Beijei. Senti gosto de cigarro, bebida e até de carnaval. Botei a mão no rosto de alguém, alguém botou a mão em minha cintura. Eu ouvi o telefone tocar no fundo da minha cabeça, mas não era real. Pedi o improvável. Desejei o impossível. Senti a necessidade aumentar a cada segundo. Senti a saudade gritar. Senti o céu se aproximar e o chão se abrir, a lua apagar e tudo escurecer. Senti a solidão batendo contra meu peito, querendo doer ainda mais. Beijei. Mas por nenhum segundo fechei meus olhos.
Aquela noite não significava nada. Uma página sem importância alguma. Alguém sem interesse nenhum. Um beijo sem paixão nenhuma.
Ponto, nova linha.
Sábado que vem tem mais.

Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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