“Você consegue me ouvir?” Foi a primeira coisa que eu ouvi ao acordar. Eu conseguia, claro, não tinha dúvida nenhuma de que eu era capaz de te ouvir. A única questão era: por quanto tempo ainda conseguiria agüentar? Eu tinha recém acordado de um sonho em que você estava longe, e eu sorria. Preferi fingir que eu continuava dormindo para não ter que agüentar. Então fiquei deitada lembrando como havia acontecido. Em que momento será que eu não consegui mais suportar? Começara de forma mansa. Você apareceu em alguma tarde e nós bebemos alguma coisa. Depois você olhou eu fumando alguns cigarros e foi embora. Na tarde seguinte você voltou, e fizemos a mesma coisa. Isso se repetiu por três semanas, até que eu te beijei, ou você me beijou, não conseguia lembrar. Mas o importante era que nossos lábios se encostaram de alguma forma ou de outra, e desde então você passou a viver dentro de mim, e ao meu lado.
Não quero iludir ninguém, nem me enganar dizendo que não te amei, pois como dizer que não era amor se meu espírito perdia a dureza ao ouvir você falar? E meu coração se entorpecia toda vez que você me tocava. Como dizer que não era amor, se me tornava indefesa a cada toque, e se, após o toque, você me trazia de novo a valentia ao me beijar. E quando você saía, eu dizia para me trazer um maço de cigarros e ia até à mesa escrever pequenos poemas de amor. Se você se atrasava, meu peito disparava, e eu andava de um lado pro outro pensando o que poderia ter acontecido. Depois tentava me acalmar dizendo que tudo ia ficar bem. E sorria. Eu sorria por saber que você iria voltar. Quando você, de fato, voltava meu peito se acalmava a cada sílaba que você falava.
Não vou me iludir. Eu gostava tanto de acordar com o som da água fervendo. Você acordava cedo e quando eu acordava você já estava sentada na sala de estar com um café na mão lendo Emily Dickinson. Você apontava para a mesa, já tinha feito meu café. Muito café e pouco açúcar. Você sempre acertava. E então me lia partes de algum poema. Lembro-me principalmente de um que falava sobre como é forte o coração. Parecia tão perfeito encontrar seus olhos ao acordar, e você sempre lia poemas de manhã. No fim da tarde lia contos, e romances antes de dormir. Você lia as partes que mais gostava e parecia tão perfeito cada palavra que você me dizia. Eu adorava o jeito como sussurrava ao pé do meu ouvido me chamando pra cama. Você também cantava baixinho um ou outro samba, de vez em quando. Solfejava Chico Buarque enquanto preparava o jantar e depois me pegava pela mão pra dançar ao som de um samba qualquer.
Não sei quando foi que nosso amor perdeu aquele jeito manso, mas houve um dia em que passei a odiar o jeito que você me chamava para trepar, e não suportava mais os seus poemas de manhã. O café que você fazia estava amargo, e eu não me preocupava se você se atrasava. Não brigávamos, apenas ficávamos em silêncio todas as tardes. Você com seus livros, e eu com meu cigarro. Você não olhava mais eu tragando fundo, e eu não ouvia seus poemas. Acordava todo dia com o som irritante da água fervendo, e tomava o café amargo que você fazia. Às vezes você reclamava. E eu nem dava mais bola.
Mas hoje parecia que algo havia mudado, pois não foi o barulho insuportável da água fervendo que me acordou. Foi a sua voz, que estava mais doce do que nunca. Aquela mesma voz que ontem mesmo eu não podia suportar, hoje me parecia tão calma. Como se aquela suavidade do começo do nosso amor tivesse voltado pra me acordar de manhã. Então resolvi me levantar. Você não estava sentada na sala como de costume. Procurei na cozinha, e também não estava. Mas ouvi baixinho a melodia de uma canção conhecida saindo dos lábios que eu sabia que eram seus. Caminhei até a porta e te encontrei ali. Você estava tirando a chave do seu chaveiro e a pondo em cima de mesinha que ficava ao lado da porta. Você me olhou e disse:
- Seu café está na mesa.
- Onde você vai?, perguntei.
- Essa casa é pequena demais. E seu amor é pequeno demais para mim.
Então você fechou a porta e foi embora. Eu só conseguia pensar em como sua voz estava calma. Sentei no sofá. Ela esqueceu o livro de poemas, pensei. Tomei meu café. Estava amargo. Minha maior preocupação era quem iria me fazer café amanhã. Pensei em ligar, mas, na verdade, não queria que ela voltasse. Não queria seus poemas, e muito menos sua voz me chamando pra cama. Eu não precisaria acordar cedo pra ouvir aqueles poemas, e nem dormir com a luz acesa pra que você lesse seus romances. Não precisaria de mais ninguém querendo entorpecer minha solidão com poemas. Eu não queria que ela voltasse, só queria explicar: não é que meu amor fosse pequeno, querida, é que minha solidão é muito maior.
E então voltei a dormir. E pela primeira vez, em dois anos e meio, eu dormi bem.
Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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um dos melhores textos teus que eu já li. lindo mesmo, pena que é tão triste…
nossa… profundo…
mas o amor é bem mais que um simples café da manha……..
bjinho