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categoria: OU SOMBRA

NÃO É AMOR EM BUENOS AIRES

“Num deserto de almas também desertas.

uma alma especial reconhece de imediato a outra”

(Aqueles dois – Caio Fernando Abreu)

 

Início de tarde, e o sol refletia em cada centímetro daquela praça. Mas não fazia calor. Um vento vinha rasgando a movimentação naquela cidade e arrepiava minha pele cada vez que batia um pouco mais forte. A praça estava absurdamente cheia e eu não sabia exatamente por quê. Depois fui descobrir que aquele era o dia em que as mães iam chorar pelos filhos mortos na ditadura. Quanto tempo faz desde a ditadura argentina? Uns quarenta anos. Acho que tem mágoas que a gente não supera, mesmo. Só aprende a conviver com elas. Aliás, será que tem alguma mágoa que a gente supera? Tristeza é diferente. Tristeza a gente vive todo dia, e supera todo dia. Mágoa é outra coisa. É dentro. Mágoa machuca a alma, tristeza machuca a pele e sangra. Mágoa não sangra, por isso fica trancada lá dentro e não cura. Pele nasce de novo; a alma não.

E foi aí perdido em mágoas que o vento bateu na minha pele levando as tristezas embora e enxaguando as lágrimas, que minha vista deixou de ficar turva e eu pude vê-la. Acho que não havia nada de muito especial nela. Olhos escuros, assim como o seu cabelo e a pele branca, quase pálida. E como naquele conto do Caio, duas almas especiais se reconhecem de imediato em um deserto de almas também desertas. Mas as almas não falam, por isso não levantei do meu banco pra tentar me aproximar. Só fiquei observando o jeito como ela não tirava as mãos do bolso e fotografava cada centímetro daquela praça com os olhos. Às vezes ela se sentava e tirava um pedaço de papel e uma caneta do bolso e começava a desenhar. Percebi como seus olhos às vezes procuravam os meus, e ela olhava rapidamente pra mim e botava-se novamente a traçar linhas naquele papel. O lápis se movia levemente no papel como se fosse uma continuação dos seus dedos. E seguiu assim por uma hora com seus olhos me procurando. Até que começou a escurecer, as loucas corrompidas de mágoas foram embora. E eu voltei pro meu quarto de hotel.

Preso noite adentro nesse quarto estranho. A madrugada vai caindo com gosto de angústia estampado na cara do céu. Nessa cidade estranha que me faz lembrar os amores que deixei. Só me traz saudade. Não sei como posso sentir saudades no meio de tanta gente. Quanta gente nessa cidade, quanta gente nessas casas, nas ruas, nas praças, nos becos. Quantos pássaros tão soltos pelos ares. Bons ares de Buenos Aires. Tem alguém que me persegue pelos sonhos, imagens de ruas que não conheço. Perco-me nas ruas como me perco aqui dentro em saudades.

Saio para rua noite adentro. Procuro um rosto amigo que possa confortar. Mas não conheço ninguém aqui. Quero só um rosto, então. Um semblante desconhecido que eu possa chamar de meu por uma noite. Nem uma noite, apenas algumas horas. Perco-me em bares estranhos, e algumas pessoas vêm me perguntar se eu quero ajuda. Será que está tão estampada na minha cara, a minha perdição? Não, não quero ajuda. Não tenho nada. Não tenho nada a perder. O que eu tinha a perder larguei em outra cidade. Conto minhas histórias pra estranhos. Até encontrar aquele rosto que havia encontrado na praça. E esse rosto que mal conheço me acolhe só pelo calor do olhar. Ela me estende a folha de papel, com meu rosto carimbado e diz que sabia que ia me encontrar de novo. Pergunto sorrindo se meu rosto é tão triste assim, e ela responde que chega a achar estranho como posso carregar somente tristezas e mesmo assim ter um calor no olhar. Eu tento explicar que o vento levou minha tristeza, e que o que tem em mim agora é mágoa, como daquelas mulheres loucas que choram pelas praças. Ela me convida pra sentar em uma mesa no meio do bar. E aquela boca desconhecida começa me contar histórias em uma língua que eu não entendo. Peço pra ela falar mais devagar. E ela repete devagar, mas não adianta. Mas tudo bem. Eu finjo que entendo, finjo que gostei da história e que aquilo tudo me impressionou. E então é minha vez. E eu invento uma história, e invento tristezas para impressionar, e invento alegrias pra encantar. E até conto um pouco de verdade. Digo que larguei a família e amigos em outro lugar, e vim pra cá, achando que novos ares trariam novas esperanças. Ela pergunta se eu encontrei o que procurava. E eu minto que sim, que me sinto renovado. E ela não entende muita coisa. Mas finge que entende e que se impressionou muito com tantas tristezas e alegrias. Porque, afinal, só queremos um quarto escuro e um corpo pra abraçar durante o resto da madrugada.

E falamos muito. Bebemos demais. Fumamos demais. Chego à conclusão de que não entendemos praticamente nenhuma palavra que o outro diz. E todas as palavras e tentativas falhas de se comunicar já foram gastas. Todos os olhares já foram trocados, e até alguns toques até já foram utilizados. E continuamos sem nos entender. E tudo bem. Não queremos compreensão. Não queremos mais palavras. Apenas a liberdade de dizer que sim. Dizer que tudo bem, que tanto faz. Venha comigo pra essas ruas estranhas. Para um quarto escuro de hotel. Diga que tudo bem, diga que tanto faz. Como naquele livro da Clarice. Basta dizer que sim.

Diga que sim.

Sim.

Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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Comentários

2 comentários para “NÃO É AMOR EM BUENOS AIRES”

  1. um texto lindo sobre uma cidade linda.

    Posted by a | November 1, 2008, 16:11
  2. A ditadura argentina terminou em 1983 e nao há 40 anos…

    Posted by Aldo | February 17, 2009, 16:24

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