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categoria: OU SOMBRA

ME CONTA AGORA COMO HEI DE PARTIR

Se nós, nas travessuras das noites eternas
confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
(Chico Buarque – Eu te amo)

  

Ela queria. Sempre quis, embora, de um jeito não muito efetivo, repudiasse a idéia. Desde o começo, por saber da queda imprescindível que encontraria logo adiante e da qual não poderia se livrar de forma alguma, sempre teve um pé atrás.

Parou. Abriu os olhos e avistou a sala vazia. Observou ao seu lado um filtro de cigarro aceso e apagou-o com os próprios dedos, sem se preocupar com queimaduras futuras. Levantou-se tateando em procura de algum disco que, esperava ela, não resultasse em um ruído disforme, e sim em uma canção reconfortante. Os dedos tocaram o nada, pois nada adiantava em horas como essas. A repetição dos dias tristes retornava. Memória martelando sua cabeça. Banheiro escuro, palavras mal ditas, ou absolutamente não ditas, gestos não terminados, e vontades nunca realizadas.

Lembrou-se das vozes, dizendo o certo a fazer, não o melhor, lembrou-se de vultos que riam, gritavam, corriam e apontavam caminhos vãos. Lembrou-se da sensação irreal que sentira na manhã seguinte, e lembrou-se como a partir daí, tudo passou mais lentamente. Tudo foi mais pesado, mais denso. E lembrava-se de cada dia que passara lembrando. Horas intensas com a caixa de fósforos vazia em suas mãos, balançando-a de um lado pro outro, sentada confortavelmente na cadeira. Conforto físico, nunca mental. Sentada, lembrando daquele tempo de mãos dadas, mesmo que fossem só as mãos e mais nada, mesmo sabendo que nunca sairia disso, lembrava com felicidade daquele tempo em companhia. Tempos de banheiros escuros, e confidências, novas experiências e desejos escondidos. Aproximações discretas e divórcios ao cair sob olhares desconfiados.

Tempos de banheiros escuros, ou tempos escuros de banheiros, onde ninguém além compreendia a necessidade de abraços e cafunés, ditos não serem nada demais, sendo tudo sem imaginar. Tempos adormecendo lado a lado em uma intimidade maior (e por que não melhor) que a de Edla Van Steen. Detalhes diferentes configurando um amor covarde, recíproco e nunca teorizado. A sala, hoje vazia, era oposta àquela outra época, mostrando a ação do tempo.

Com os olhos quase cheios de lágrimas, lembrava-se da contradição temporal em que se encontrou naquela vez. Contradição de saber do período que leva para as coisas mudarem de maneira concreta. Sabia que a distância entre abraços e beijos era enorme, e que o tempo que precisaria para o aperto entre os tórax afrouxarem, e os lábios se encontrarem com uma leveza impura, era tanto necessário, quanto extenso. E o tempo não havia. Em alguns meses adeus teriam que serem ditos, e os abraços afrouxados, não para selar um amor, e sim para carimbar a distância e a chance perdida.

Abriu os olhos novamente, e devido ao lacrimejo vindo das janelas de sua alma, ela pôde ver a sala embaçada, que já era assim normalmente, mas hoje, além de turva, encontrava-se com um ar seco e a necessidade de algo novo. Algo que ela não tinha a oferecer, devido as correntes imaginárias chamadas dependência que a prendiam àquela história passada, gravada em sua lembrança. Hoje pensava em soluções, implorando resultados, esquecendo dos caminhos. Os cortes, antigamente provocados por de cacos de vidros quebrados acidentalmente, hoje eram quase propositais, e cortavam de acordo com o compasso em que ela recolhia os pedaços quebrados do passado, tentando renovar, e montar a companhia outra vez.

 

Hoje os olhos fecham sem a mente mandar, e as opiniões alheias, sobre um quase amor proibido já nem importam mais. Hoje a solução parece cada vez mais distante, e a memória cada vez mais vibrante. Hoje já chora pelo adeus, e transborda de saudades, sabendo que o pior é saber que essa falta não terá fim. O fim precipitado incomoda. Ela sabia, sempre soube que a queda seria imprescindível e as fotos não seriam suficientes pra lembrar. Procurando reviver desejos apenas por pensar, se proibindo de pensar para não reviver as horas em que a despedida estava concreta, e o choro já não adiantava mais, as palavras não adiantavam mais, os sorrisos pareciam falsos, e aquele adeus ficava trancado na garganta.

Lembra-se com desgosto dos cacos de vidros que cortavam a pele no passado. E sente desgosto dos cacos do passado que cortam a sua alma no presente. Fecha os olhos para as memórias, sente as notas graves das canções como uma lufada em sua cara, o choro não sai, as lágrimas não caem. Porque as lágrimas não bastam pra sustentar sua tristeza. Abre os olhos, fecha os olhos, e nada. Nada acontece, nada volta, nada vai. Fecha os olhos, acende outro cigarro, se ajeita na cadeira, bem de leve, bem baixinho, tenta sussurrar um adeus. As palavras saem, e como uma brisa, ecoam pela sala vazia e aos poucos, com uma gota de cada vez, finalmente, começa a sangrar.

Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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