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categoria: OU SOMBRA

LÍRIOS

Espero te alcançar. Não pude escrever nada antes de agora, pois não alcançava o estado para escrever. Hoje alcancei, talvez pelo dia onze de dezembro e a madrugada me matando. E pensei que espero que meu estado de agora, que o meu escrever te alcance de alguma forma. Espero poder te alcançar. E quando digo alcançar, não falo alcançar querendo somente que você leia isso e pense em mim, no que fomos, no que nunca deixamos de ser e no lugar no qual nunca voltaremos a pisar. Não quero, e digo que, se for assim, melhor esquecer. Quero te alcançar de um jeito de tremer suas pernas, de fazer gritar o coração, porque se você treme, eu tremo. Se trememos não estamos seguros e se não estamos seguros, estamos bem. Eu estou bem. Apesar daquela coisa que atormenta, daquela coisa que se ausenta. Você sabe o que é aquela coisa? É. Você. Talvez não você exatamente, mas sim a saudade de você, a lembrança de você, o amor de você. E me pego pensando, às vezes de mansinho, às vezes quase em ódio, às vezes ao ler um livro, ou ao entrar em algum lugar e sentir um perfume que lembra o teu, ou quando vejo um lírio jogado no chão, nosso lírio jogado ao chão. Lembro-me de você, penso em você, vivo em você, pensando que você ainda vive em mim. Em cada curva do meu corpo e em cada lugar que meu olhar mira. E acho triste que só possa lembrar de você quando estou com a cabeça cheia, ou quando um lírio cai. Acho triste que tenha que ser tudo tão assim, tão incerto, tão pesado, tão lírios-jogados-ao-chão. Não posso mais sentar na varanda, fumar um cigarro e pensar em você. Não posso. Se penso em você assim, de cabeça vazia, assim, tão vulnerável, eu tombo, eu me inclino, eu caio, e não volto. Não volto nunca mais. E ao mesmo tempo que penso em não cair, penso todo dia em voltar, e lhe trazer o sol, e deitar com você, e contar estrelas, e contar histórias, e contar amores passados, e contar lírios em casamentos e rosas em funeráis.
Espero te alcançar, do mesmo jeito que te alcanço em meus sonhos, e na verdade nem precisa ser sonhos, é só fechar os olhos. Te alcanço e você é tão minha em meu pensamento, que quando abro os olhos novamente parece impossível que eu não te tenha mais. Você foi tão minha, e eu me doei tanto, que parece inadmissível que minhas mãos tenham soltado as tuas.
Mas soltaram. Talvez não as minhas, mas as tuas, talvez as duas juntas, ao mesmo tempo. Na mesma tristeza de não poder mais. E agora só te alcanço em pensamento, enquanto me seguro tentando não pensar.
Mas não fico triste. Tenho as memórias, tenho as lembranças, tenho os lírios em um pote com água, tenho os espinhos das rosas de funeráis. E nem eles me machucam. Tenho meus pensamentos e nossas mãos dadas em sonhos. E falo com você todo dia em pensamento. Não dói. Dói depois, quando vejo que é pensamento. Mas na hora não dói. E você me conhece, prefiro o presente. E se é esse meu presente, e se é agora que estou bem. É agora que não dói. Então digo quê.
Esses dias fumei um baseado com a Ana e ela falou muito em ti. Às vezes vejo tão somente para o meu interior que não consigo olhar pra nenhum outro lugar que não seja você dentro de mim, e penso que lembro tanto de você, que esqueço que os outros também te conhecem, penso que você é só minha nesse mundo, mas só penso. Falamos muito em ti. E logo, logo os gigantes vieram tentar tirar você de mim. Isso dói. Dói muito tentar te esquecer. Por isso não tento, só lembro. E você se acende as vezes dentro de mim. E esse as vezes tem sido tão freqüente. Mais de madrugada, ou nas raras vezes que acordo de manhã. Mais nos sonhos. Sempre em mim. Sempre você.
Pensar em ti não dói. Lembrar de ti não dói. Por mais que seja triste. Parece que a tristeza me consola, e eu nem me preocupo se você pensa em mim ou não. Continuo pensando em ti. Pesando em voltar. Tentando não cair. Pesando que amanhã talvez eu te encontre, e a gente possa sentar para conversar sobre as nossas vidas tão casuais. E imagino você segurando minha mão, enquanto eu falo devagar pra você que juntei um lírio do chão. E que isso é tão nós. Isso, assim, de juntar lírios do chão e chegar em casa e te mostrar dizendo olha-o-que-eu-encontrei-na-rua. E no meu pensamento, e como um dia foi na realidade, você diria oh-que-bonito e poria o lírio em um vaso com água, como um dia aconteceu. E eu guardei o pote, e os lírios. E as lembranças. E você? Será que guardou alguma coisa? Aquele cartão-postal, talvez. Aquela luneta de montar? A camisa com o sol estampado? Alguma coisa? Algo assim tão bobo e que pra mim é tanto. Ou sou só eu que me afundo nessas coisas bobas e boas? Mais bobas do que boas, provavelmente. Mais minhas do que suas. Mais lembranças do que certezas. Mais passado do que presente. Mais você em mim. Mais pensamentos. Não dói.
Meus pensamentos não dóem. Eles são tão suáves, tão amenos, tão leves. As vezes levanto a cabeça do livro que leio e repito seu nome. Julia, Julia, Julia. Mais que três vezes. Tantas vezes. Tão baixo. Só pra eu ouvir. Julia, você guardou aqueles lírios? E repito tantas vezes, nossos planos. Acorde tarde, Julia. Pra contarmos as estrelas. Você nunca se lembra.
Eu lembro. Os lírios no chão, os espinhos no peito, o sol estampado, as estrelas no céu, o cigarro aceso entre seus dedos, o baseado na mão da Ana, os gigantes na minha cabeça, os vagalumes, as pequenas epifanias do Caio, a brisa da madrugada, os dragões, os fantasmas, os moinhos. Os lírios. Jogados, caídos, pisados. Você se lembra? Você pensa em voltar?
Júlia, eu espero te alcançar. Espero.

Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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Comentários

Um comentário para “LÍRIOS”

  1. Pelo tempo que foi postado esse texto acho difícil você ler meu comentário.
    Achei teu blog sem a intenção de procurar/encontrar, e agora aqui estou pra te dizer que Lírios foi um dos textos mais lindos que eu já li, digo sem exageros ou “puxação de saco”, até porque eu não teria motivo pra isto.
    Então, a única finalidade que tenho em comentar aqui é o fato de eu achar que mereces saber o quanto fizestes os meus olhos brilharem ao te ler.

    Posted by Lorena | May 17, 2009, 14:22

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