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categoria: OU SOMBRA

GARÇOM, SEM GELO, POR FAVOR!

Ele trazia no peito o peso de um caso de amor fracassado. E eu trazia nas mãos uma carreira de escritor promissora, ou pelo menos era isso que me diziam. Mas não nos encontramos de imediato. E, talvez, melhor assim, pois se seus olhos me tocassem logo no primeiro instante em que entrei naquele bar, talvez pensássemos que era apenas um acaso e desviaríamos o olhar, procurando alguma outra coisa que pudesse nos encantar. Então, talvez para evitar desencantos prematuros, logo que entrei, ele não teve sua atenção desviada do que estava fazendo para admirar os meus passos naquele chão de madeira. Continuou atento ao cinzeiro de pedra lotado de cinzas e filtros de cigarros.

 

Eu andei devagar até o balcão. Sentei e pensei em pedir uma cerveja, mas acabei com um whisky com gelo na minha frente. Porque uma cerveja não iria bastar, e um whisky sem gelo era demais. E foi quando o garçom depositou o copo em minha frente, que o outro levantou o olhar. Ele também bebia whisky, mas sem gelo, para enfrentar o seu caso de amor fracassado. E com o olhar desviado do cinzeiro ele pôde finalmente levantar a cabeça e então nos encaramos. E foi a partir daí que eu pude sentir um pequeno ferimento no meu peito, como se um pequeno espinho estivesse sendo pressionado devagar sob minha pele. Na hora não entendi o que era aquele pequeno ferimento, mas senti como se o sangue estivesse realmente caindo pelo meu peito.

 

Naquele momento, eu não saberia dizer o que ele guardava naquele olhar que fazia meu peito sangrar de leve, e talvez nunca viria a entender. Mas sei que ele me olhava de um jeito que até a minha alma sentiu-se observada. E foi depois que nosso olhar se quebrou que eu pude me aproximar. Fui até a mesa mais do canto do bar e perguntei se podia sentar. Ele balançou a cabeça olhando pra cadeira vaga como quem concorda. E, então, trocamos algumas palavras que sempre são usadas por duas pessoas, com esperanças derrotadas, que estão tentando saber um pouco mais da tristeza do outro.

 

Ele me perguntou o que eu fazia. Eu falei que escrevia. Então houve uma grande pausa em que ele parou e fumou quase um cigarro inteiro, até que me perguntou:
- E
sobre o que você
escreve?
-
Sobre desencantos
.
-
Eu devo carregar desencantos suficientes pra escrever um livro
.
- E
você acha que isso basta pra escrever
?
-
Não é isso que você faz? Vive um desencanto e se põe a escrever sobre ele
?
-
Claro. Mas não acho que seja suficiente. Me faltam dedos pra contar quantos desencantos tive, mas mesmo assim ainda acredito no meu coração. Você acha que consegue fazer isso? Gastar o coração e continuar a sentir ele batendo? Matar as esperanças e mesmo assim conseguir escrever uma história de amor
?
-
Nunca soube se desisti do meu coração, ou se ele é que desistiu de mim. Resisti até a última gota de água se extinguir no deserto do meu peito. A gente agüenta por um tempo, sabe. Mas o coração vai secando. Até que uma hora a gente se acostuma com a sede. Não é que a sede acabe…a sede continua. Mas a gente cansa de alimentar desencantos


Parei,
então, para observá-lo. Ele tragava lentamente o cigarro e a cada gole em seu whisky ele fazia uma cara de quem realmente sentia aquela bebida descer rasgando a garganta. Ele apagou o cigarro e continuou:
-
Como você consegue? Falar de amor vivendo em um mundo de corações escuros? Eu me dei por vencido na batalha de procurar alguma luz. Dentro de mim, dentro de você… é tudo escuro
.
-
Isso não é verdade. Por mais que o peito cale, ainda resta uma luz. As pessoas cansam de alimentar desencantos, mas no fim sempreluz. Dentro de mim, dentro de você. O cigarro que você apagou pode ser re-aceso. A gente quer a luz pra enxergar no meio de corações escuros, um encanto pra depois se desencantar. Ninguém agüenta viver na escuridão eternamente. A gente quer luz
.
-
Ou sombra
.

Eu fiquei em silêncio. Ele se levantou e tirou alguns trocados do bolso e mandou eu pagar a conta pra ele.
-
Você tem uma caneta
?
Eu entreguei a caneta. Ele rabiscou algumas palavras em um guardanapo. Depois me
entregou e disse:
-
Isso é pra você parar de alimentar seus desencantos. Depois vai pra casa e escreve alguma coisa sobre um garoto que não conhecia a luz
.
Ele saiu pela porta do bar e eu desdobrei o guardanapo
:

Importante é a escuridão que nos revira os olhos. Quem enxerga muita luz olha para fora. A sombra nos obriga a ir procurar luz em outro lugar. E tentamos achá-la no nosso próprio peito, mas não encontramos. Importante é a sombra que nos faz olhar para dentro do peito. Importante é a escuridão que faz a gente perceber o escuro de cada coração.”
Pensei
que talvez ele realmente tivesse desencantos suficientes. A última faísca do cigarro que ele havia depositado no cinzeiro se apagou. E eu revirei meus olhos, procurando algum resto de luz. Não encontrei. Levantei a mão segurando meu copo de whisky que agora estava vazio. Balancei o copo no alto:
-
Garçom, sem gelo, por favor.

Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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Comentários

Um comentário para “GARÇOM, SEM GELO, POR FAVOR!”

  1. Gostei muito! parabéns pela sensibilidade do olhar. Abraço, Gilka

    Posted by Gilka | September 24, 2008, 20:12

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