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categoria: OU SOMBRA

ESQUINAS

Acabou. Conclui ao abrir a janela em um dia chuvoso de verão. Em um dia triste, com meu coração mais triste que o dia, minha alma se partiu como um vaso vazio que escapa das mãos descuidadas de alguém. Mas minha alma já não chora. E no meu coração, dividido em dois, as duas metades gritam. Mas por pouco tempo ainda vão gritar, penso assim ao fechar a mala. Porque chega uma hora em que arrumar a mala é menos dolorido do que continuar vivendo ao lado de algum alguém. E falo assim, algum alguém, tão anonimamente, por não me interessa mais quem foi esse alguém e nem importa quantos sorrisos me deu, e nem quantas lágrimas calaram. O que importa é que acabou e os cacos de minha alma que deslizaram das suas mãos estão agora na mala. Acabou. Conclui ao bater a porta da casa logo atrás de mim.

           

Sem sorte, nem norte, guardo madrugadas transbordando solidão. Mas com o coração na mala o peso do peito diminui. E cada vez fico mais longe de voltar. Há um fantasma em cada esquina dessa rua e o som da chuva chega a ser sincero, como se cantasse uma tristeza com os pingos caindo ritmados na calçada. Pedestres sem reação olhando a vida como quem olha o nada. Escadarias de igrejas sujas, com os restos de pessoas como eu, que tiveram um fim recente e ainda não souberam se adaptar. Penso na vida como um só quarteirão. Estático e infinito. Em algumas esquinas encontro, e na outra já perdi outra vez. E eu rodo e rodo em volta desse quarteirão com o coração na mala, que cada vez vai ficando mais pesada. Será que viver é mesmo assim? Apenas segurar o coração nas mãos enquanto tudo roda e se perde em cada curva? Já dobrei tantas vezes essas mesmas esquinas. Sempre tão igual. A vida repete sempre a mesma cena. Primeiro procuro um emprego, um apartamento, uma coisa além do tédio pra matar o tempo, e se ainda assim me sobrar tempo, procuro algum amor. Porque, afinal, tem alguém no mundo que sabe realmente o que ele é? Então vou chamar de amor aquilo que eu quiser. E escolhi algum alguém para amar, porque há muito tempo alguém me disse que era necessário. E no começo nem eu poderia imaginar tanta beleza. Repetia seu nome quando você não estava perto. E nas escadarias desse quarteirão via seu rosto pintado. Em cada canto, em cada parte, em cada centímetro dessa vida. E procurava seu cheiro no meu corpo. E você vinha. Cada vez mais perto do meu peito. Até que veio o dia em que eu finalmente abri meu peito e lhe entreguei meu coração, você pegou com cuidado e fez questão de guardar. Mas magia dura pouco, e meu olhar tão preso ao teu, não sabia mais enxergar sozinho, e tudo aquilo que um dia eu vi, não pôde mais ser observado, pois você chegou à esquina seguinte. E esquina é morte certa. Meu coração, assim como minha alma, deslizando tão suavemente das tuas mãos. Junto os cacos. Coração na mala. Para nunca mais.

 

            Nunca mais? Essa coisa existe mesmo? Nunca mais até a próxima esquina. E aí é pra sempre até a seguinte. Até perder a magia, ou até perceber que essa porra de magia do amor que falam é só o caminho entre uma esquina e outra. Calçada é só caminho. Esquina é sempre morte. É essa teoria da vida como um só quarteirão. Demorei mais até chegar nesse cruzamento que me encontro agora. Rolava boba nos braços apressados. Cantava louca uma canção apaixonada. Ia gritando de olhos fechados, sem ver a outra rua, logo ali. Eu ia cantando pra você, enquanto meu coração deslizava da sua mão. Eu dizia ao pé do seu ouvido. Eu gritava pra quem quisesse ouvir. E não venha me dizer que não gostava. Essa mentira da magia do amor é o melhor de todo quarteirão. A gente vai desvairadamente gritando, repetindo, sem saber que um dia a magia acaba. Gostava tanto de você. Repito ainda. Sem medo. Gostava tanto de você…

 

Enquanto andamos em linha reta parece que a magia não tem fim. Aí vem a curva. A magia segue reto e a gente dobra, porque a vida manda a gente dobrar. Aliás, nem sei se é a vida que manda. Deve ser alguma outra coisa. Não acredito em Deus e bobagens assim, mas deve ter alguma força maior que faz a gente virar quando chega à esquina. Porque a via não pode ser só isso. Viver não deve ser apenas esse trabalho duro. Espero que não. Mas não temos tempo, já dobramos a nova esquina. Aquela rua acabou. Agora é essa nova rua, com loucos, tolos, insanos que ainda cantam amores. Eu não quero mais essas esquinas. Não consigo mais contar quantas mortes vivi. Chega de magias que acabam antes do fim da dança. Sempre essa sensação de quem errou a porta do sentimento. Desculpa, mas a vida não deve ser só essa coisa de segurar a barra. Não deve ser apenas sobreviver. Foi só mais um engano. Quantas vezes já dobrei essas esquinas? Será só mais um engano? Procuro alguém. Alguém que não seja engano. Me despedaço poeira nessa esquina à procura de algo que não seja morte. Peço esmola nesse cruzamento. Mas não quero dinheiro, quero apenas algo pra matar essa sede. Largue tudo nessa esquina, atravessemos a rua para outro quarteirão. Sem parar, sem dobrar. Mas os loucos só cantam amores que morrem daqui a pouco e não ouvem. Eu quero algo que não seja engano. Todos desaprenderam o jeito. Não conseguem ver. Só seguem em frente e dobram quando mandam. Dobram e dão de cara com a morte. Eu não quero isso. Uma esquina e acabou. Outra esquina e acabou.

 

            Acabou. Conclui um segundo antes

 

Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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Comentários

Um comentário para “ESQUINAS”

  1. Olá, Mariana!!!!

    Muito bom o texto!!! ADOREI e me identifiquei com cada palavra, que reflete bem o momento que vivo atualmente (apesar de ter sido escrito há 5 meses atrás).

    É realmente interessante como nos sentimos ao fim de cada relacionamento, dependendo das circunstâncias em que tal fato acontece.

    Parabéns pelo texto e pelo talento!!! Continue assim!!!!

    Posted by Thalyta Vilella | April 17, 2009, 4:54

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