“Eu te murmuro. Eu te suspiro.
Eu, que soletro, teu nome no escuro
Me escutas, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio.
Na tua presença palavras são brutas. (…)
Eu que não digo, mas ardo de desejo.
Te olho. Te guardo. Te sigo. Te vejo dormir.”
(Cecília – Chico Buarque)
Cecília é uma menina linda. Mas, na verdade, é pouco dizer apenas isso de alguém como ela. Porque além da beleza, ela ainda guarda em cada curva de seu corpo, em cada traço de seu rosto, um jeito tão diferente de todos os jeitos que já encontrei em outras pessoas. Esse jeito me aprisionou e hoje guardo em cada pedaço de mim algo que me faça lembrar pelo menos um pouco do que, um dia, eu pude ver em Cecília.
Sei que me perco um pouco cada vez que me lembro do seu rosto, mas não acho ruim. Me perco ao mesmo tempo na minha vida e em uma felicidade tão bonita, em uma liberdade tão plena, em palavras tão bobas, em medos tão passageiros. As palavras bobas que Cecília me fala algumas vezes sem pensar, mas que pra mim é tanto. E medo tenho de me perder demais nessa esperança de que algum dia Cecília possa me olhar e dizer o que realmente sente. Eu percebo seu jeito nas coisas mais bobas, como, por exemplo, quando ela ajeita o cabelo, joga os ombros pra trás e sacode a cabeça, de um modo como se quisesse se livrar de alguma coisa que lhe faz tão mal. Ou no modo como, às vezes, ela perde seu olhar no nada, e fica apenas parada encostando uma mão na outra como se não houvesse mais nada no que acreditar.
Foi esse o jeito que me prendeu. E eu me prendi, e me perdi, tanto, que hoje, quando a encontro, tudo que posso é olhar pra ela e ao mesmo tempo me calar, esperando que meu silêncio fale por mim. Queria dizer o quanto aqueles olhos verdes me cegam. E tentei dizer tudo, que eu queria, com gestos, tentando segurar as suas mãos, que estão sempre tão frias como pedra, e arrastando de leve minha mão sobre seu rosto, um rosto sempre tão indiferente. Tento dizer, de alguma forma, que para mim ela é a menina mais linda do mundo. Mas eu me calo, ou ela me cala, sei que de alguma forma me perco no silêncio das palavras que eu queria lhe dizer. Me calo, pois Cecília sempre desperta em mim algo que eu ainda não consegui saber se é amor ou solidão. Mas sei que me mata um pouco a cada dia. E sei muito bem que tanto o amor quanto a solidão são capazes de fazer isso. Se alguém me perguntar como é esse tal jeito, eu não vou saber explicar. Mas sei que ela é linda, e tem um jeito só dela. Acho que se eu falar da beleza, e do jeito, talvez, nem isso seja suficiente. Sei que cada pedaço dela me encanta, e eu nunca soube dizer. Claro que eu nunca tentei, porque sei que essa tentativa seria em vão, pois minhas palavras se perderiam de alguma forma. Perderiam-se em cada lugar do corpo de Cecília, e em cada espaço vazio que ela carrega dentro de si.
Cecília é uma menina linda, mas esconde tanto atrás do seu olhar. Acho que eu nunca pude olhar de verdade nos olhos dela, pois sempre que o acaso fazia nossos olhos se encontrarem, eu sentia que havia algo que ela não deixava transparecer. Mesmo que, de alguma forma, sempre que eu podia avistar seus olhos de longe, em meio a tanta confusão, batia em mim uma lufada de prazer, como se aquele vazio de seus olhos, aquele olhar perdido me trouxesse uma calma, que de novo eu não poderia dizer se era amor ou solidão. Ela é uma menina linda, mas eu nunca pude dizer isso a ela.
A primeira vez que eu a encontrei em uma dessas noites cheias de luzes, álcool e cigarros (e tão vazias de sentimentos, assim como Cecília), eu pensei que talvez eu pudesse tentar dizer ou mostrar que eu iria carregar a imagem de seu rosto pra sempre dentro de mim. Não sei se por minha escolha, ou se ela simplesmente me invadiu e tatuou sua presença em mim logo na primeira vez, mas me prendi aos seus olhos no primeiro instante. Aquela foi a primeira vez que nossos olhos se encontraram, e a primeira vez que percebi como os verdes daqueles olhos, de alguma forma, lembravam um oceano perdido em algum lugar desabitado do mundo. Não somente pela cor verde, mas também porque os oceanos sempre me parecem tão vazios, e aquele olhar, aqueles olhos sérios, eram assim: vazios, distantes, como se Cecília tivesse se perdido em algum oceano qualquer, em um lugar desabitado desse mundo.
Cecília me encontrou esses dias em um sonho. Ou eu a encontrei. E acho mais provável que fosse eu a encontrá-la, pois sou eu que procuro nos olhos de cada pessoa, um verde para me lembrar dos olhos dela. No sonho ela estava linda, como sempre. O cabelo um pouco mudado, o rosto um pouco mais livre, diferente do real, pois sempre que a vejo, percebo seu rosto e seu jeito tão presos a uma tristeza irremediável, quase insuportável. Mas no sonho não. No sonho ela me sorria, e me sorria de um jeito tão bonito que eu chegava a duvidar que o sorriso realmente fosse pra mim. E eu podia dizer que o seu sorriso só poderia ser bonito assim em sonhos. Mas não seria verdade, pois das poucas vezes que a encontrei e pude vê-la sorrir, seu sorriso sempre foi tão bonito. E sempre me fez um bem enorme vê-la sorrir. Mesmo que durasse pouco. Mesmo que depois ela se prendesse de novo àquela tristeza irremediável, mesmo que o sorriso não fosse pra mim, mesmo que fosse sonho. O sorriso era tão bonito, que tudo que eu conseguia pensar era que Cecília é uma menina linda. E eu queria poder gritar a todo mundo que a minha menina era a mais linda do mundo. Mas eu não podia, pois ela não era minha, e acho que na verdade nunca poderia ser. Até porque eu não poderia agüentar ver seu rosto triste todos os dias.
Mas no sonho ela estava diferente, ela ria, cantava e segurava minha mão, e pela primeira vez pude sentir sua mão quente, como se aquele frio que antigamente ela guardava dentro de si, tivesse finalmente aquecido. Às vezes ela ainda botava sua mão em meu rosto e me perguntava coisas bobas do dia-a-dia, prestando atenção em cada palavra que eu dizia. Sei que isso só poderia acontecer em sonhos. E em mais uma dessas coisas inexplicáveis do subconsciente, de repente, ela parou de sorrir, de cantar, de me aquecer, e perdeu seu olhar em um ponto fixo a nossa frente. No sonho ainda pedi que ela me dissesse qual era a grande tristeza, a grande dor, que ela guardava para si. Mas ela calou. E eu me calei. Quando acordei, aquela imagem ficou na minha cabeça. Nós duas sentadas, com seu olhar perdido, e eu me perguntando pra onde haviam ido aqueles olhos verdes, aquelas mãos que seguravam as minhas. Em que oceano aquela menina linda haveria se perdido? Cecília se perdeu. E eu me perdi mais uma vez entre o amor e a solidão. Tanto no sonho como no real. E de alguma maneira estranha, no momento em que me perdi na fina linha que divide o amor e a solidão, senti, pela primeira vez, Cecília ao meu lado. Como se o oceano em que ela se perdera tivesse sido aquela pequena linha, fina e fria, que separa o amor da solidão, ou a solidão do amor.
Não digo nada. Mas há tanto que eu queria saber. Queria olhar nos olhos de Cecília e perguntar todas as coisas que ecoam aqui dentro. Queria lhe perguntar pra que toda essa imagem de forte? Mas eu sei que de baixo de toda essa indiferença, de todos esses esconderijos a que ela se submete, existe um coração inseguro, morrendo de medo do amor. Talvez não do amor, mas da dor que pode vir depois. E eu sei que ela não seria capaz de machucar ninguém, sei que seu jeito é sensível demais, bonito demais pra ser capaz de querer alguém sofrendo. Mas é muito difícil se deixar levar por esse oceano de encantamentos.
Eu entendo, Cecília. Eu só te quero bem. Então veja bem, segure minha mão, e ouça, mesmo que seu olhar tenha se perdido, tente me ouvir. O amor é muito mais natural do que você pensa. E não se deixar levar é morrer aos poucos. E morrer é fácil, querida, viver é que é difícil. Me diz quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez. Não está certo só acordar e tomar café passado dia após dia.
Dentro de mim guardo sempre o seu rosto, enquanto me pergunto se há algum espaço para mim, dentro do vazio imenso da menina mais linda que eu já conheci. Às vezes paro o que estou fazendo só para pensar nela. Fico imaginando as histórias e enredos pelas quais ela deve ter passado; devem ser tão bonitas e intensas, afinal, Cecília deve ter navegado muito até se perder nesse oceano. Não sei se foi por acaso que nossos olhos se tocaram. Guardo dentro de mim, ao lado da imagem dela, a esperança de um dia poder navegar com ela. Mas desde que nossos olhos se encontraram, me pergunto se meu lugar poderia ser ao lado dela. Acho que ainda não achei uma palavra pra defini-la. E lembro como, uma vez, nessas conversas casuais, ela me disse que eu conseguia ver o que está escondido muito fundo nas pessoas. Mas por que não consigo ver o que ela esconde atrás dos seus olhos? Do seu sorriso, que mesmo sendo sorriso ainda me parece tão sério. Não sei se faz sentido, mas não consigo definir. E nem consigo definir que papel ela tem dentro de mim. Não quero me perder entre o amor e a solidão, para poder encontrá-la, até porque, acho que Cecília navega sozinha, até hoje, tentando encontrar alguma coisa. Tentando se encontrar. Enquanto isso eu tento encontrar, em outros olhos, o olhar que ela perdeu.
Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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meu, sou tua fã, tu escreve extremamente bem x)