Acendeu outro cigarro, porque meia-noite e uma guitarra arranhando a vitrola exigem outro cigarro. Articulou com as mãos falando sobre o acaso, dissertando sobre o inesperado e como é bom encontrar alguém por obra do destino. Na mesma hora lembrei-me de como nos conhecemos, e um segundo depois você perguntou se me vinha à cabeça aquele carnaval em que você se aproximou. Você disse baixinho que era verão e você me ofereceu um cigarro, eu completei, em tom grave, dizendo que era carnaval e eu lhe jurei amor eterno, e nós dois calamos sabendo, e sabendo também do conhecimento do outro, que nos amamos eternamente durante aquela noite. Daí pra diante, você se guiou sozinha nas palavras. Sabe esses tais laços que prendem as pessoas, você me perguntava atropelando as letras, é essas coisas, a gente se prendeu e traímos nossos princípios, eu sempre disse que separação não era comigo, sempre fui fundo em qualquer relacionamento, você era diferente, parecia uma bóia e o oceano era o nosso amor, se é que posso chamar assim, você navegava por cima dele, mas nunca esteve exatamente nele, sabe? E eu sempre soube, mas nunca fui capaz de fazer você afundar, até por saber que a própria ação de deixar a superfície lhe traz medo, e até já atribui à ação uma forma negativa. Mas enfim nos amamos, e não sei até onde deu certo, se é que um dia chegou a ser assim, mas foi bom pros dois, posso dizer, mas ficou aquele mal-estar, sabe, aquela coisa de não-terminou-completamente, ficou faltando, entende?
Eu disse que entendia, e entendia realmente, só que não me importava.
Eu tentei trocar o assunto pra fugir do compromisso de me responsabilizar pelo que você me dizia. Disse que a lua estava cheia, e você, analisando o horário no relógio de pedra, falou algo sobre como ela não estava mais completamente cheia, e como seu auge havia sido semana passada, e fazendo, com as mãos, um gesto de algo se encolhendo, você disse de um jeito intelectual que ela estava minguando. A essa altura eu já via em seus olhos que nem você mais sabia se falava da lua ou de si própria.
E na lua que aos poucos ia diminuindo, de alguma forma eu via um pouco do seu rosto. Não seu rosto exatamente. Mas via nas manchas, nas crateras, na forma, nas luzes, nas cores, alguma coisa que me lembrava um pouco dos seus olhos, do seu nariz, da sua boca. Não do jeito que estavam agora, mas do jeito que um dia foram. Um dia algo tão bonito, mas aos poucos aquela expressão de felicidade foi se esvaecendo. Não sei por quê, não sei quando. Nunca soube exatamente quando foi que aquela forma bonita começou a minguar. Você disse que sabia. Que desde o começo que me teve ao lado teu passou a se acabar. Foi indo aos poucos para um lugar que não sabia onde era, mas sabia que era uma espécie de fim, uma espécie de fundo de poço. Você disse quase sussurrando ao pé do meu ouvindo que era frustrante não conseguir fazer com que eu afundasse de fato naquela relação, naquele instante, naquele momento, naquela coisa que havia (se é que havia) entre nós. Disse que tentou de tudo, que apertava firme minhas mãos tentando passar um pouco de calor. Que passava a mão sobre minhas pálpebras toda vez que me beijava, pois sabia que eu nunca fechava meus olhos por mim mesma. Que tentou do fundo do coração me puxar pra baixo daquele calor ou daquele amor ou daquela dor como eu costumava chamar. Nessa hora você parou, tragou o cigarro umas três vezes seguidas e senti que até deixou de olhar pra mim, o que era coisa rara de você fazer.
Nós ficamos em silêncio uns dois minutos, enquanto você fumava tão determinada e eu dirigia minha mão até o maço para botar algo pra dentro de mim que não fossem aquelas palavras que você dizia. Não que elas me machucassem. Mas me sentia mal pelo fato de não me sentir mal, com o fato de eu não me importar com as suas quase-lágrimas, com toda aquela sua forma que um dia foi tão bonita, mas que hoje era um fundo de poço ou qualquer coisa assim. Finalmente você falou. Perguntou se eu entendia o porquê de toda aquela mudança, toda aquela inominável situação de estar se acabando, de estar minguando durante alguns dias, ou semanas, ou de acordo com a lua. Eu disse que entendia, e entendia realmente, só que não me importava.
Eu não sei por que mas no meio daquela sua tristeza senti uma vontade de te abraçar. Na verdade, não era exatamente uma vontade, foi algo que caiu em mim mais como uma obrigação do que qualquer outra coisa. Resisti um pouco, não sabia como você ia encarar uma iniciativa assim vinda de mim. E eu te olhava, ou pelo menos meus olhos miravam seu corpo, não sei se realmente te olhava, pois olhar é diferente, acho que eu precisava me importar pra conseguir realmente te olhar e realmente te ver. E eu queria me importar, porque seria mais fácil e eu me afundaria no tal oceano e nossos corpos se uniriam como se uniam as fumaças que saíam dos nossos cigarros, e nós nos misturaríamos e seríamos, então, um só. E subiríamos pra algum lugar ou desapareceríamos no ar, do mesmo jeito que a fumaça subia e desaparecia. E seria bom como o prazer da primeira tragada pra um viciado ou como o prazer de um orgasmo, ou de algo que eu nunca havia vivenciado, mas eu tinha certeza de como seria, mesmo sem saber o que era. E você olhava pro chão, e dizia e quase gritava que sabia que eu não me importava, que sabia que eu ia pra sempre ser aquela bóia, por cima do oceano, imutável, inalterável. E dizia que mesmo assim não conseguia soltar a minha mão, que queria minha ajuda, que ainda tinha esperança, que se tinha alguma coisa que eu havia lhe ensinado era a acreditar, pois se não fosse isso, você nunca estaria ao meu lado e eu te olhava, ou melhor, meus olhos miravam seu corpo, e você batia na minha cara, pedindo algo além de toda essa indiferença, alguma prova de que sua esperança não era em vão, algo concreto, e não só esses beijos de olhos abertos que sempre soavam tão falsos e tão vazios. E você gritava por ajuda. Pedia que eu preenchesse esse vazio que estava dentro de ti, e depois dizia que não. Que estava errada, que não era isso que queria, pois o seu vazio estava preenchido, cheio de esperanças bestas e uma fé inabalável de que um dia eu afundaria. E você pedia, então, que eu deixasse você preencher esse vazio dentro de mim, que era isso que eu precisava. Alguém que me beijasse de olhos fechados e que segurasse firme minha mão. Alguém que me fizesse afundar.
Nessa hora eu me levantei, acho que cheguei até a lhe empurrar e você caiu de barriga no chão. E eu pensei em te ajudar, mas eu realmente não podia. Eu gritei bem alto pra que você calasse a boca. Que não havia porra de vazio nenhum dentro de mim. Virei as costas e, enquanto ouvia seus soluços minguando no meu ouvido, eu pensei que entendia tudo. E que você estava certa. Que eu precisava de alguém como você, que me mostrasse como afundar, que me desse um pouco de vida, que batesse na minha cara até eu acordar. Você estava certa. Eu realmente tinha um vazio enorme dentro de mim. Só que eu não me importava.
Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Mariana Difini
Comentários
Sem comentários para “ALGUMA COISA ENTRE A LUA CHEIA E A LUA NOVA”
Deixe um comentário