Sentei na mesa mais no canto que consegui encontrar. Ergui a mão lentamente:
- Um café por favor.
Uma garçonete loira, peituda veio correndo trazer um café.
- Ela é gostosa pra caralho – disse ele.
E não sei porque, mas lembrei do Holden quando ele falou isso. A garçonete inclinou-se pra frente fazendo questão de mostrar um pouco mais aqueles peitos duros estourando silicone e perguntou:
- Algo mais?
Tenho certeza que milhares de fantasias passaram na cabeça dele. É íncrível como é fácil transformar loiras peitudas em algo bem sujo e bagaceiro. E eu realmente achei que ele ia fazer um daqueles comentários nojentos e perdedores que os homens são profissionais em fazer, mas ele se contentou com um café. Ergui a mão de novo pra chamar a garçonete. Ela veio correndo de novo, se inclinou novamente mostrando o decote. E eu perguntei:
- Com licença, posso fumar aqui dentro?
- Não.
- Por quê?
- Olha, por mim tudo bem, mas tem gente que não suporta cigarro.
- Ah, então faz um favor, pede pra aquelas duas mulheres calarem a boca, sei que por ti tudo bem, mas eu não suporto ignorância.
Havia duas mulheres há horas entretidas em discuros fascistas e coisas bestas desse tipo. É incrível também como é fácil associar loiras peitudas com ignorância. Sei que é um pouco preconceituoso e prepotente, mas não consigo evitar. Estava meio perdida entre loiras e fascismos quando de repente ele perguntou:
- Vai dormir aonde hoje?
- Não sei. E você?
- Estou sem casa.
- Tenho dois lugares pra dormir. Me ofereceram mais um sábado passado. Mas me sinto fora de casa toda hora. Sabe, ouvi hoje que lar é o lugar onde nosso coração está.
- Ouvi isso também.
- É eu sei, mas enfim, não encontro meu coração em lugar nenhum. Não tenho casa. Hoje vou dormir em uma cama que dizem que tá no meu quarto. Mas eu sei que durmo bem quando estou deitada na minha cama com a televisão ligada passando aquele filme que já vi trezentas vezes. Mas não me sinto assim há dias. Nunca fui de dormir muito, mas costumo dormir bem. Hoje nem um nem outro. Durmo mal durante duas horas, depois começo a escrever, daí me sinto bem. Mas não sinto um coração batendo dentro do peito. Só jogo ele pra fora, direto na folha branca e perco ele pra sempre. É bom assim.
- Não é melhor sentir ele batendo dentro do peito?
- Sabe não sei bem que sensação é essa, e se quer saber já to mais que acostumada.
Acho que nessa hora ele ficou me olhando como se su despertasse uma curiosidade enorme nele. Ele havia me dito isso uma vez, e ficou gravado na minha cabeça, claro que gostei. É sempre bom ouvir coisas como essas. Mas as vezes me irritava um pouco.
- “Acidentes em seqüência matam vinte e sete pessoas”
- Quê?
- Tá escrito no jornal daquele velho. Ele tá tremendo. Talvez de euforia, talvez por ler o destino na capa do jornal.
- Eu quero morrer asfixiada por monóxido de carbono.
- Você quer morrer?
- Não, não. Quer dizer, às vezes quero. Mas hoje não. Só to dizendo que se tivesse que morrer preferia que fosse asfixiada por monóxido de carbono.
- Por quê?
- Diz a Leila que não dói, tu fica respirando e nem nota o gás te matando aos poucos, daí uma hora desmaia, e depois morre. E não sente nada. Pra sempre. Ou pra nunca mais.
- É uma boa idéia. Quer dizer, se tiver que ser, melhor que seja assim. Eu também quero morrer sem dor. Já percebeu como há só um acento de diferença entre doido e doído?
- Acho que se eu me doer um pouco mais eu enloqueço. Pra mim, entre doida e doída há só uma dor de diferença.
- Você se dói?
Achei graça na pergunta dele. E até fiquei com preguiça de responder. Acho que na verdade todo mundo se dói, mas não sei se poderia explicar isso à ele.
- Eu me machuco o tempo todo, não fisicamente.
Ele olha pro meu braço como quem duvida. E eu escondo dele e de mim mesma.
- Na real me dôo sempre que estou sozinha. Quando tem alguém comigo normalmente a pessoa me dói muito mais, por diversos motivos.
Aí a loira, peituda e gostosa se aproxima da mesa de novo. E eu me lembro do Holden novamente. Acho que precisava ler ele de novo. Às vezes ele fala muito bem por mim.
- Com licença, posso retirar a xícara?
- Pode, leva. E leva junto esse amargo que o café deixou. Leva também esse amargo que alguém deixou em mim e nunca voltou pra buscar. Leva esse azedo que tá aqui há anos. Esse nó na garganta que nem conversas conseguem desatar, nem escrever funciona mais. Leva esse aperto no peito que nem o tempo consegue aliviar. Leva esse vazio que tá aqui dentro, dentro da minha alma, esse vazio que nada consegue preencher, nem o tempo, nem as verdades, nem as mentiras, nem ninguém.
Ela me olha com uma cara de loira burra e espantada que nunca ouviu falar em desespero. E um silêncio toma conta daquele lugar. A calmaria que procede da tempestade. Nada de caos. Nada de caos do lado de fora. O lugar do caos é dentro: na alma.
Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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