Pontada fina no peito, tenho tido com freqüência. Semana que vem vou ao médico, sem falta. Da última vez que eu fui acharam uma mancha preta no meu pulmão, fiquei com medo e não voltei na semana seguinte como o médico tinha mandado. Devia ter voltado, mas tive medo. Logo depois da pontada, três bêbados na rua. Por um momento tive a impressão estranha de que eu era um deles. Gritaram qualquer besteira, não consegui ouvir. Li esses dias em algum lugar que a surdez era o novo sintoma da aids. Não volto no médico por nada.
6 da manhã. Passo devagar a a língua entre os dentes, um dente quebrado e não lembro como, não sei nem se foi ontem.
Na verdade, pensando bem, não sei onde estou. Levanto e quase caio novemente. Uma tontura bate na minha cabeça. Devia perguntar pro médico o que é isso também. Mas não volto. E tenho medo que ele me diga que é sintoma de uma doença rara sem cura. Ou pior, diga que é coisa da minha cabeça. Lavo a cara, mas a alma não lavo de jeito nenhum. Vejo o dia cinza pela janela desse último quarto do corredor de algum hotel, e finjo que não ouço a mulher do quarto do lado gritando de prazer com o marido, ou vai ver que é uma prostituta, sei lá.
A tontura, o dente quebrado, uma mancha no pulmão, e desconfio de uma outra no coração. Ah, são tantos sintomas, os traumatismos, os cortes, os arranhões, os meus gritos, a morte a cada dia que amanhece. E uma solidão que eu acho que não é sintoma, é simplesmente parte de mim e desse quarto vazio. Também tem essa tosse que não pára nunca. A tosse é sintoma da solidão, eu acho, porque o cigarro eu sei que é, a tosse deve ser também. Tenho que parar.
Já são três coisas, um médico pra aquela mancha, um dentista para o dente quebrado, e alguma coisa que me faça parar de fumar. Ah, deixa pra lá. Acendo um cigarro e tusso três vezes. Se eu parasse de fumar a mancha desapareceria eu acho, ela era pequeninha. Sim, eu posso fazer essa coisa desaparecer, mas e da mancha no coração, quem é que vai cuidar?
A janela desse hotel não abre e eu só posso ver as coisas pelo vidro. Essa vida inteira me cai como uma tempestade. Me recuso a olhar pra fora e ver todos esses urbanóides loucos correndo pra agradar o sistema. Me recuso a olhar pra fora, mas te busco nos quatro cantos dessa cidade superficial, que não faço questão de conhecer. Te busco nessas ruas, ao telefone, em telegramas, cartas, aeroportos. E não acho. Então encho a cara no bar da esquina, beijo estranhos enquanto rasgo as noites em que eu sei que você não está. Parto em lágrimas por ruas que nunca vi, e choro em ombros que não conheço. E grito os sintomas da minha solidão, enquanto desejo e imploro um final feliz.
Volto pro último quarto do hotel e imploro ao porteiro, por favor, me diz que o telefone tocou, que a ligação era interurbana, e que alguém soluçava do outro lado da linha querendo me encontrar. Mas nada. Nem telefonema, nem carta, nem esperança. E eu me sinto como um quarto vazio no fim do corredor de um hotel de uma cidade que eu não conheço. Ligo a TV, e não sei o que procuro com essa porra desse controle-remoto. Desligo a TV. Bebo, bebo, bebo, fumo além da conta no que sobrou de um fundo de poço. Essa janela que não abre, a fumaça toma conta. A tontura, dessa vez não é sintoma, é bebida. Passo a língua entre os dentes. Uma pontada no peito. Lembro da mancha no pulmão, mas não apago o cigarro. Te busco em qualquer lugar dentro de mim.
Essas tonturas vão continuar. Eu não sei o que que é. Alguém me diz. Diz também, essa mancha no peito, quem é que tira?
Acho que não duro muito mais que isso.
Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Mariana Difini
Adorei. Estava procurando a letra de Eu te amo do Chico no Google, pq não me lembro mais, simplesmente, e me deparo com seus textos, q me dão vontade de ler mais…
Perfeito.