“Somos muito Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo se equilibra,
no mesmo ventre crescido,
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia.”
(Morte e vida severina - João Cabral de Melo Neto)
Nós morávamos em um apartamento de poucos quartos, na esquina da Rua Augusta. Eu, ela, e mais cinco pessoas. Mas esse número mudava com freqüência. Alguns desistiam, uns achavam um lugar melhor e outros simplesmente desapareciam e não voltavam nunca mais. Além disso, muitos outros chegavam a cada dia que passava. Sempre éramos obrigados a chamar mais pessoas para morar com a gente, pois era cada vez mais difícil manter o aluguel em dia, então precisávamos de ajuda. Eu não gostava de convidar outras pessoas, era praticamente como convidar alguém para morrer ao nosso lado, mas era inquestionável que precisávamos. Ah, que precisávamos de ajuda era algo óbvio. Era só olhar nossas unhas roídas pela ansiedade, nossas olheiras denunciando as insônias e a cara fodida de cada um de nós. Precisávamos de um psiquiatra, um psicanalista ou qualquer coisa que nos explicasse como tínhamos chegado a tal ponto. Nos poucos dias que conseguíamos dormir, acordávamos ao nascer do sol pra contemplar o nada em nossas vidas. E também porque não havia cortinas em nenhuma das janelas e o sol logo invadia nossas pálpebras, de um jeito que se tornava impossível agüentar e continuar dormindo. Na verdade, tínhamos chegado a um ponto em que não podíamos agüentar mais nada. E além desse nada e do sol, ainda fazia um frio danado, que fazia com que nós sempre acabássemos transando uns com os outros só para nos esquentar. Mas o sexo não mudava o fato do frio crescer lá fora e dentro de cada um de nós. A vida era um inverno incontrolável.
Mas apesar das unhas roídas, das olheiras, da nossa cara fodida, do sol nas pálpebras, do frio crescendo dentro de nós, eu acordava ou via o sol nascendo sempre com uma esperança de que algo poderia mudar. Essa era a única coisa bonita que eu via naquele apartamento: minha esperança. Era incrível que ainda me restasse alguma força para continuar sobrevivendo. Acho que eu era o único que ainda não tinha pensado em suicídio. Todos tinham um pouco de esperança guardado em baixo das pálpebras, mas de tempos em tempos nem isso era suficiente. Era aí que aconteciam os suicídios. De tempos em tempos um de nós se suicidava. Atirava-se pela janela sem cortinas, sentia o sol em suas pálpebras e lembrava-se uma última vez que era impossível agüentar aquele sol nos olhos. Alguns centímetros antes do chão, ainda sentia o frio da cidade. E por último caía de barriga na Rua Augusta.
Era sábado à noite quando aconteceu. Fazia exatamente três meses que nenhum de nós desaparecia ou atirava-se pela janela sem cortinas, e eu estava quase começando a acreditar em eternidade. Estávamos quase todos em casa, porque estávamos fodidos demais, sem dinheiro demais, para sair de noite. Pensamos em procurar um bar e algum dinheiro para beber alguma coisa, brindar a pouca esperança que ainda insistia em permanecer atrás dos nossos olhos, da nossa tristeza, atrás de toda aquela coisa que eu chamava de sobrevivência. Pensamos em sair para tentar achar algo que valesse mais a pena, mas estávamos tristes demais. Estávamos sempre tristes demais, e chorávamos todos os dias por volta das três horas da tarde, e depois de novo à meia-noite. Mas o choro da meia-noite era diferente, acho que era mais um choro de felicidade, se é que isso era possível naquele ponto, por saber que mais um dia se passou sem que fossemos os próximos a se suicidar. Chorávamos todos, mesmo os que tinham recém chegado. A única que não chorava era Ana. E de certa forma ela sempre nos trouxe uma esperança, não sei se por não chorar, mas, talvez, porque víamos nela uma imagem um pouco menos triste. Pelo menos era o que eu achava, mas ao mesmo tempo me vinha uma idéia estranha, de que talvez ela fosse a mais triste de nós e não tivesse mais o que chorar. Como se suas lágrimas não sustentassem sua tristeza. Como se dentro dela houvesse apenas um deserto, seco e cru. E, talvez, essa melancolia guardada atrás dos seus olhos que tentavam chorar e não podiam, nos desse um tipo de esperança por saber que nenhum de nós outros havia chegado ao mesmo ponto que ela.
Naquela noite meu colega estava ao meu lado em plena bad trip, e eu estava sentado no chão, porque não havia poltronas. Eu estava ali sentado pensando que já fazia três meses que ninguém havia desaparecido, nem cometido suicídio, enquanto tentava me concentrar em um livro que eu havia roubado em uma livraria pequena ali na outra esquina. Mas não podia disfarçar que a única coisa em que eu podia me concentrar era aquela janela sem cortinas que mostravam as luzes brilhando do outro lado da Rua Augusta. Eu queria saber quem seria o próximo. E tinha quase toda certeza de que o cara que estava totalmente alucinado ao meu lado iria sair correndo, daqui a pouco, e se atirar na Rua Augusta. Ana havia saído para tentar achar uma dose. Sempre que ela saía, eu ficava meio perdido, ou mais perdido que o normal. Pois perdido eu sempre estava, assim como todos os outros que estavam ali. Quando ela estava em casa eu passava horas olhando para os seus cabelos negros. E às três da tarde enquanto eu chorava, ela ficava observando minhas lágrimas caindo no chão de madeira. Eu tentei me concentrar novamente no livro que eu tentava ler, quando Ana entrou correndo com seus cabelos negros balançando de acordo com o vento que entrava da janela, quase arrombando a porta e gritou:
- Estou presa!
Levantei meus olhos do livro para observá-la, mas logo baixei novamente, porque imaginei que ela tivesse achado a tal dose, cheirado tudo, e aquilo fosse só mais uma de suas viagens estranhas. Mas então ela repetiu, dessa vez quase sussurrando, e eu achei estranho pois ela não costumava sussurrar:
- Estou presa.
Eu levantei meus olhos de novo, e vi como nenhuma das outras pessoas que estavam ali haviam se mexido e como nenhuma parecia se importar. Ninguém naquele apartamento costumava conversar, principalmente porque havíamos chegado a tal ponto em que não conseguíamos mais que alguma coisa que disséssemos fizesse sentido. Mas Ana era diferente, e eu sabia que de alguma forma ela devia ter pensado muito, antes de arrombar a porta e entrar gritando. Talvez fosse por isso que ela não chorava, pois ela tinha algo no que pensar. Todos outros já haviam aceitado a ausência, inclusive eu. Já havíamos aceitado o fato de não ter nada na vida, nem algo no que pensar. Mas Ana não. Ela saía todos os dias e voltava com histórias pra contar, mesmo que nenhum de nós falasse nada, ela continuava a contar suas histórias. Eu me importava com ela, e talvez por isso não houvesse pensado em suicídio, e acho que ela também não. Eu tinha a ela, e ela tinha suas histórias e pensamentos. Mas nenhum de nós tinha tempo para o amor, pois gastávamos todo nosso tempo procurando forças pra manter nossa esperança viva. Ana se aproximou de mim. Segurou muito firme em minhas mãos e me olhou nos olhos, de um jeito que nunca tinha olhado, até porque nenhum de nós tinha tempo ou capacidade para amar. Mas naquele momento ela me olhou, e mesmo que não fosse meia-noite, mesmo que não fosse hora de chorar, eu não pude conter minhas lágrimas. E ela me olhou do jeito que sempre olhava quando eu derramava minhas lágrimas as três da tarde, e olhando assim com um jeito de quem necessita amar, ela me disse:
- Estou presa, estou presa sim. Não venha me dizer que não. Esse coração miserável, essa paixão esgotada por qualquer coisa, essas cinzas que se queimaram e não renascem nunca. Estou presa nessa melancolia, nessas besteiras, nessa merda toda. É, essa merda toda.
Recorreu os olhos pra dentro daquele apartamento minúsculo procurando alguém com um olhar que dissesse que isso ia passar. Não encontrou ninguém. Não havia nada ali. E ela presa naquela coisa que não sabia mais o que era:
- Não há nada aqui, só a fome de todos os dias, o vazio imenso do meu ser, e o pretérito perfeito dos meus amores.
Ela tentou chorar, baixou a cabeça, sentou ao meu lado e pousou seu rosto no meio dos joelhos, mas o deserto que ela tinha dentro do seu peito não lhe dava lágrimas. Ela não chorava. E eu tentei dizer que tudo ia passar, mas eu não sabia mais como falar coisas bonitas. Tudo que me restava era ver Ana falar. E ela continuou:
- Você sente isso também? Você sabe o que é isso? Não ter nada na vida e mesmo assim se sentir presa a alguma coisa? Presa ao nada? Precisamos de muito mais que isso. Precisamos de muito mais, precisamos deixar sangrar. Precisamos de algo além dessas vírgulas e reticências, algo um pouco além dessas vidas tão usuais. Precisamos falar, mostrar, fingir, agir-como-se alguma coisa importasse além da fumaça, do cigarro e do uísque no fim do dia. Eu não quero mais saber de me encontrar ou de me auto-entender. Que seja sobre destino então, que seja sem razão, que se assim tenho de me perder, que não sobre mais nada e que meus olhos fiquem pra sempre procurando algum rosto que me tire daqui. Em um desespero que vou poder pra sempre chamar de meu.
Não, Ana, eu não sinto isso, não sinto mais nada. Tentei dizer que cheguei a tal ponto que a única coisa que eu tinha era a vontade de ouvir suas histórias, enquanto procurava um tempo para conseguir amar. Não, Ana, não estou preso, já me livrei de toda fé. Pensei em dizer, mas não fui capaz, não sabia mais dizer o que eu sentia. Não sabia mais declarar que ela era a única pessoa que alimentava minhas esperanças de continuar sobrevivendo. Não, Ana, já faz tempo que não sinto nada. Ela levantou o rosto dos joelhos me olhou de novo com os olhos de quem não está em liberdade, com olhos de quem acredita em algo no que não deveria se ter fé, e me disse uma última vez:
- Estou presa.
O cara do meu lado se levantou, entrou em um quarto qualquer e caiu dormindo no chão. Ele não era o próximo. Mas novamente, o próximo suicídio estava ao meu lado. Ana se levantou tão rápido que meus olhos quase não puderam acompanhar o seu corpo dirigindo-se para a janela sem cortinas que dava para Rua Augusta. Ela gritou em desespero. E eu gritei em um desespero ainda maior e saí correndo pela porta que ela havia esquecido de fechar. Quando cheguei lá embaixo, tudo que pude ver foi ela caída de barriga na rua. Eu cheguei perto dela, muito perto, e pude ver seu rosto seco, sem nenhuma lágrima. Ela não havia chorado. Já era meia-noite, mas ela não chorava. Ela me olhou uma última vez com os olhos de quem precisava de muito, muito mais. Um passarinho pousou ao seu lado e ela sussurrou suas últimas palavras:
- Voa. Voa alto, porque eu acho lindo te ver livre.
Eu passei a noite sem dormir, sentado ao lado do seu corpo frio. E logo nos primeiros dois minutos, eu pude ter apenas uma certeza. Certeza de que o próximo a cair de barriga na Rua Augusta, seria eu.
Mariana Difini - 17 anos. Atéia, indecisa, e um pouquinho egoísta. Apaixonada por qualquer tipo de literatura. Pretende fazer faculdade de letras. Acredita cegamente nas palavras. Fã de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Chico Buarque. Autora da COLUNA OU SOMBRA, atualizada semanalmente às terças-feiras.
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