Ela vai na casa dele - Por Júlia Tiburi
“Meu nome é Anabel!” Eu disse bem devagarinho”
Ah, Anabel? Puxa, como é que eu fui entender Maria Lúcia? Me desculpa, acho que tinha muito barulho em volta. “E qual o teu nome?”, perguntei. “Carlos Alberto”, ele respondeu. Obviamente que, em vista do meu conflito interno, eu aceitei o convite do deus do pescoção. Afinal, não tem nada de mais sair pra dançar, né? Lugar público, muita gente… o que mais poderia acontecer?
Enquanto seguíamos para o estacionamento, ele me pergunta se eu poderia dar uma carona pra ele, pois estava sem carro e vestia bermuda. Eu topei, mas fiquei encasquetada: o cara não tinha carro! Ai, Anabel, vais te engatar em um outro pé-rapado? Te lembra de quem pagava as contas do Alcindo? Além do mais, tu mal conheceu o cara e ele já tá te convidando pra ir pro apê dele… espertinho! Tá achando que eu sou dessas, é? Ah não, Anabel, nessa tu não vai cair. Ou vai? Bom, é verdade, ele não pode ir à boate de bermuda, né? Ah, Anabel, dá um voto de confiança pro cara, vai… Mas e se ele for um tarado, um assassino, um estuprador?
“O maníaco do Shopping ataca novamente! A vítima, Anabel, de 28 anos, mal o conhecia e aceitou o convite para ir à casa do criminoso”. Já podia ler nas manchetes! Tá, já sei, eu aceito o convite mas espero no carro. É, isso mesmo, espero no carro.
Falei pra ele a minha decisão, ao que ele respondeu: “Bom, mas a questão é que eu vou tomar um banho rápido, também, e acho que vai ser meio perigoso pra tu esperar no carro… nunca se sabe…”
Tá bom, Anabel, tu tá com o teu spray paralisante dentro da bolsa, né? Qualquer coisa tu schiiiii na cara dele! “Tu me convenceu”, respondi. E fomos.
Entramos na casa. Ele até que mora num senhor apartamento, muito bem decorado e incrivelmente limpo! É, vai ver que ele pode bancar uma empregada, né? Em que será que ele trabalha? Será que ele tem namorada? Numa olhada estratégica rápida eu percebi que não tinha nenhuma foto de mulher. Quer dizer, havia uma, mas de uma senhora, que deveria ser a mãe dele…
“Fica à vontade, o bar é logo ali. Eu não demoro…” Ah, benzinho, eu já tava começando a ficar à vontade mesmo. Criei coragem e me servi de uma dose de Martini seco. Ele abriu o chuveiro. Podia ouvir o barulho da água caindo no chão. Ouço ele abrir a porta do box. A água pára de cair no chão para molhar o corpo dele. Ah, tortura… O que eu não daria para ser o sabonete dele. Ai, que brega tu tá hoje, Anabel, tu queria ser o sabonete? Imagina a espuma escorrendo pelo peito, pelas pernas… pelo pescoço! Bebe, bebe Anabel, tu merece um trago. À saúde do deus grego do pescoção!
Ele fecha a torneira. Ah, a toalha secando aquele corpo… Ele abre a porta do banheiro e diz: “Me desculpa mas me esqueci da minha roupa no quarto”, e sai do banheiro com uma toalha enrolada na cintura. Jesus, Maria, José! Socorro! Cada músculo no seu devido lugar! Tesão! Mas Anabel, quem te ouve pensa que tu tá necessitada, que nunca viu homem na vida! Mantenha a decência, garota! E ele sumiu pro quarto.
Que tipo de cueca será que ele usa? Eu gosto de cuecas samba-canção, acho um charme ver o movimento do “aparato”. Cinco minutos depois ele abre a porta do quarto. Uau! Tava um gato! E todo perfumadinho! Ele caminha lentamente na minha direção. “Ah, achei que tu não bebesse?” ele disse. “De vez em quando eu bebo, sim.” Ele pega o copo das minhas mãos e diz: “Deixa eu adivinhar o que tu tava bebendo…” finge que vai cheirar o copo e nisso ele me beija. Minha mãe que casou com o meu pai! Que beijo! Que língua! Meu coração já tava a mil! E eu tive de fazer um controle sobre-humano pra não agarrar aquela bunda! Que dirá o resto!
“Hum, martini seco!” Ele respondeu.
“É!”
É, Anabel? É tudo que tu pode responder sua idiota? É? Anta, energúmena! Que resposta mais cretina foi essa?
“Bom, podemos ir, então?” Foi tudo que consegui dizer depois daquele “É” estúpido…
Ele vai na casa dele - Por Paulo Ricardo
Maria Lúcia me olhou fundo, e disse, quase enfiando a língua no meu ouvido: “Meu nome é Anabel”. Eu, com cara de pato, fiquei olhando pra loirinha que soltava um risinho sapeca. Essa guria tá tirando sarro da minha cara… me diz uma coisa e depois diz outra. Mas não ia bater boca assim, de saída. Não iria dizer pra ela “escuta, aqui, sua pilantrinha, tá me achando com cara de idiota?”. Eu disse “Como eu fui entender Maria Lúcia, me desculpa Anabel. Acho que tinha muito barulho…”, super-humilde. E finalmente ela pergunta o meu nome. Carlos Alberto, muito prazer.
“Tá, vamos sair ou não?” Ela concordou com a cabeça. Ficamos mudos enquanto íamos até o estacionamento. Ela nitidamente olhava para meus bolsos, procurando a chave do meu carro. Interesseira! Maria Gasolina! Nem é nada minha e já tá de olho no carro que eu tenho? Mulher é tudo igual. Resolvo abrir o jogo de uma vez. “Me dá uma carona até a minha casa? Estou sem carro!”.
Ela faz cara de desapontada, mas eu que não vou contar toda a história agora. Ela pára de caminhar e diz: “Tá, mas eu não vou entrar na tua casa. Eu espero no carro!” Ai, que gracinha, se fazendo de difícil. Dá pra ver os peitão estourando de tanto tesão e fica se fazendo de virgenzinha? É dessas que eu gosto. “É que, olha bem pra mim, eu tô de bermuda… Queria tomar um banho, trocar de roupa… E é perigoso esperar na rua, menina!”. “Tu me convenceu”, ela disse. Foi fácil, muito fácil, querida.
Entramos no carro dela, no CD tocava ABBA GOLD. Ok, até curto um som anos 70 em saideira de festa, mas ouvir no carro? Ela, toda nervosinha… barbeira… barbeira… trocava as marchas, cantarolava Dancing Queen com certa desenvoltura. Eu já imaginando ela me fazendo um strip.
“Chegamos, é aqui!” No elevador, ela arrumando a cabeleira, e rindo, e me espiando. Ah, tão bonitinha. Eu já louco pra agarrar a guria ali mesmo, fazer uma loucura com ela, tenho certeza de que é isso que ela quer. Mas me faço de gentleman, abro a porta pra ela sair.
Entro no apê, ela olha, surpresa, diz que achou bonito meu apartamento. Que tu esperava, pilantra? Cueca atirada por todos os cantos? Meia fedorenta pelo chão? Embalagem de preservativo em cima da mesa? Sou um cara caprichoso, ora bolas! “Fica à vontade, o bar é ali, vou tomar um banho!” Ela faz hum-hum com a garganta e eu escuto o barulho das bebidas. Se atracou, hein?
Tomei um banho gostoso, quando me dou conta que esqueci a roupa no quarto. Saio do banheiro e dou de cara com a dona, olhando meus quadros no corredor. Me desculpo por estar só de toalha, ela fica vermelha mas não consegue disfarçar um ar de surpresa. Decepção? Que cara foi aquela? Entro no quarto, me olho no espelho… Puta que pariu, foi essa barriguinha aí que fez ela fazer aquela cara. Bem que eu tentei disfarçar, mas… come lasanha, seu porco. Mas tudo bem, no mais o pai aqui tá bem, tudo nos conformes. Me arrumo rápido, saio do quarto, seus olhinhos brilham. Olha pra mim dos pés à cabeça. “Pensei que tu não bebesse!” “Ah, vez em quando eu bebo…” ela me diz, tímida. É agora! Tasco um beijo na boquinha adocicada dela. Hábil, língua macia
“Martini seco!” Disse pra ela, que a essas alturas tava com uma cara de abobada, completamente entregue, fui tascar outro beijo e ela disse, meia hora depois “É”. Eu parei, sorri, pensando com meus botões se ela era mesmo faisquinha atrasada ou se tava se fazendo.
“Bom, podemos ir então?”, ela disse, e eu sorri, espremendo os olhos do jeito que elas gostam: “Sou todo teu!”
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras.
Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si.
Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Que belo jogo de palavras. Ah!as subjetividades de gênero.
Tem continuação? Fiquei curiosa…
Um abraço, Gilka