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categoria: NOSTALGIA

SANDUÍCHE DE ANZÓIS: FRANK’S WILD YEARS

Por Paulo Scott

 

oitenta e nove, primeira vez em Londres, consegui lugar para dormir, num esquat de um amigo (hoje, editor respeitado de uma das semanais mais vendidas do Brasil), estava sem dinheiro, peguei o primeiro emprego que apareceu: lavador de prato no subsolo do bella pasta, um restaurante italiano em Covent Garden (…)

 

  

na contratação, quando o gerente me avisou que o dia de folga da semana me custaria trabalho dobrado no sábado, eu estava absorto reparando nos movimentos da atendente atrás do bar e nem prestei atenção, isso foi numa quinta-feira (…) no sábado, depois de trabalhar sete horas ( pelas quatro da tarde), no momento em que eu ajeitava as coisas para cair fora, aproveitar o resto de dia, o chef me disse que ainda faltava o outro turno, não acreditei, engoli no seco, tirei o walkman da mochila, troquei as pilhas e trabalhei escutando o frank´s wild years, do Tom Waits (…)

 

 no final da noite, estava moído, ajudei a limpar a cozinha e subi rápido na esperança de encontrar a atendente, e ela estava , se aproximou, abriu uma cerveja e botou na minha mão, tentei beijá-la (que idiotice!), ela afastou o rosto

a garota foi cordial (sabia a dureza que era trabalhar no Sábado, o dia todo) e, na primeira, eu tento agarrá-la, pedi desculpa, dei um gole na bebida, ela continuou seu trabalho, perguntei se queria ajuda, ela sorriu e disse pra eu ir tranqüilo,

saí em direção à Trafalgar Square pra encontrar meu camarada Fábio, que trabalhava num café francês bastante caro, o pelican, caminhei aproveitando a temperatura agradável dos últimos dias de maio, parei em frente ao café, o Fábio limpava o balcão, havia apenas um cliente sentado na mesa próxima à porta,

  

entrei, fiquei na extremidade do balcão, o Fábio fez sinal e trouxe um café com licor de amêndoas, a especialidade da casa, “viu quem está sentado ali?”, perguntou e em seguida disse, “não vira… é o Tom Waits… tá esperando uma jornalista para uma entrevista. Saio daqui a vinte minutos… combinei de encontrar as espanholas aquelas… espera e não inventa de pedir autógrafo pro cara, eu perco o emprego se tu fizer isso“,

não acreditei na coincidência, passara a tarde escutando as músicas do sujeito e agora o encontrara, sem poder ao menos pedir um autógrafo… dei um gole no café, tirei o walkman da mochila, botei o Frank´s Wild Years para tocartemptationtemptation… peguei um guardanapo, caneta, comecei a traduzir (…)

conhaque dourado num cálice de cristal / o mundo todo é feito de sonhos / e o tempo é feito de mel moroso e doce / somente os tolos sabem do que estou falando / ó tentação, tentação, tentação, não consigo resistir / sei que ela é feita de fumaça / mas estou perdido / e ela sabe que não sirvo mais / não tenho escolha, continuarei jogando / ó tentação, tentação, tentação, não consigo resistir / com sua falsa suavidade e melancolia espalhafatosa / ela está te esperando / eu terei desaparecido / e minhas inquietações finalmente terão se resolvido / ó tentação, tentação, tentação, não consigo resistir,

 

terminei o café, o Fábio se aprontou. A tal jornalista havia chegado, deixei a tradução ao lado da mesa do Tom Waits (…) na Charing Cross Road, Fábio, três passos adiante de mim, parou e se virou, disse que as espanholas eram quentes (…)

 

eu o segui, sem dar uma palavra, sem dinheiro até para um refrigerante, pensei na letra precariamente traduzida, no autógrafo que não pedi, e, sobretudo, no dia seguinte, quando encontrasse de novo a atendente do bella pasta.

 

Texto originalmente publicado em janeiro de 2008

 

 

 

Paulo Scott foi colunista de SANDUÍCHE DE ANZÓIS do site argumento.net. É autor do livro Ainda Orangotangos, entre outras outras publicadas.

 

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