Por Liz Christine
Entrei. Um quarto sem móveis, prateleiras vazias. Livros no chão, e bonecas. Três babuskas, barbies, todas elas. No chão. Uma das babuskas me chama a atenção, brinco com ela. Abrindo, abrindo, abrindo, fechando, fechando, fechando.
E abrindo, abrindo, abrindo, e fechando, fechando, fechando. Pareço evitar a última, não sei por quê. Abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, fechando, fechando, fechando, fechando. E abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, abrindo – dentro desta, a última. Os pedaços da última. Fecho, fecho, fecho, fecho.
Entro no ônibus. Fico olhando a paisagem. Verde, verde, branca, azul. Não olho os prédios, não vejo pessoas, não conheço as ruas. Ela fala ao meu lado. A voz dela é verde, verde, branca, azul. A música dela é verde, verde-água, algodão doce, café com chocolate.
Algumas vezes, café com conhaque e chantilly, e bolo com cascas de laranja cristalizadas. Uma fatia de bolo com creme de baunilha. Tudo que eu já disse antes, sabe?
Entrei. Não quero os móveis, os livros organizados nas prateleiras, as bonecas sobre a mesa de cabeceira, não quero. Não quero a mesa, a cama, o colchão, os armários. Quero esse quarto assim como está. Em mudança. A mudança chegando. Outra babuska me chama a atenção. Sento no chão e vou abrindo até a última – estaria quebrada essa também? Não. Ainda não.
Entro no ônibus. Fico ouvindo a rua, os barulhos, as conversas, pessoas. Percebo uma menina lendo. O rosto dela é pálido, uma boneca pálida, uma boneca lendo – o quê?
O meu passado. Uma boneca lendo o meu passado. Meu presente. Uma boneca colorindo meu presente.
Escrevendo. Meu presente escrevendo tudo que eu já disse antes, sabe?
Entrei. O computador desligado no chão do quarto. Uma babuska ao lado do teclado. Essa eu não abro. Estaria quebrada? Ainda não foi escrita. Aquela tarde. Aquela tarde em que nos separamos. Aquele soco. Aquela frase que era um soco. Aquele ato que era uma frase. Aquela frase que era um soco. E como doía falar com você depois. Tão bom, mas doía. Tão simples, mas precisa ser dito mais uma vez. Sabe? Eu te amava.
Texto originalmente publicado em junho de 2004.
Liz Christine foi colunista de ROSAS AZUIS, no site argumento.net.
Liz Christine - Começou escrevendo poesia e crônicas aos quinze anos. Tem um livro publicado pela editora Papel&Virtual, um conto publicado em uma coletânea da UnB e quatro poemas na coletânea Antologia de Poetas Internautas vol.2, pela editora Blocos. Escreveu colunas na Argumento e na Anedota Búlgara. Criou depois sua própria revista virtual, Delicato Senses. Estudava interpretação na CAL e Direção Teatral na UFRJ, mas devido à sua natureza impaciente não completou os cursos. Sempre interessada em novas formas de expressão, passou a criar músicas que são áudio-esculturas narrativas, permeadas de texturas acústicas e atmosféricas. Possui trabalhos musicais editados na Alemanha pela Monika Enterprise, no Japão pele Flau Records e na web pelos netlabels brasileiros Fronha Records e Menthe de Chat. Apresentou-se em festivais no Plano B Lapa (Outro Rio), Sérgio Porto (CEP 20000) e Circo Voador (Festival de Música Livre).
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Liz Christine
Comentários
Sem comentários para “ROSAS AZUIS: EU TE AMAVA”
Deixe um comentário