Desde quando minha filha começou a falar e me perguntar coisas, eu sempre fui sincera. Eu não sou do tipo de mãe que conta historinha da cegonha quando filho pergunta de onde vêm os bebês. Sou sincera, sem ser gráfica.
Pois bem. Semana passada, estávamos eu e minha filha no carro, quando passamos por um cemitério:
Ela: Mãe, o que é esse lugar?
Eu: Um cemitério, minha filha.
Ela: E pra que serve?
Eu: É aí que a gente enterra quem já morreu…
Ela: E como é que a gente morre?
Eu: A gente nasce, cresce, vive, fica velho e morre (eu preferi salvá-la dos pormenores, exceções e afins)
Ela: Ah, OK!
Eu fiquei aliviada que a conversa parou por ali; morte não é meu assunto preferido.
Foi aí que o tiro saiu pela culatra.
Ontem, estávamos sentadas à mesa. Era hora do almoço. Ela não quis comer. Eu disse que sem comida não haveria sobremesa. Ela, com todo seu talento natural pra um drama, saiu da mesa dizendo que eu havia “Ferido os sentimentos dela”.
Saio atrás dela e pergunto por quê. O diálogo segue:
Eu: Por que tu disse que eu feri teus sentimentos?
Ela: Porque eu não ganhei sobremesa!
Eu: Tu sabe muito bem: não comeu almoço, não ganha sobremesa!
Ela: Mas eu não quero comer comida de verdade! (Foi aí que eu fiquei sabendo que sobremesa era comida “de mentira”! Rá! Se assim fosse, não engordaria! Mas isso já é outro papo).
Eu: Mas se tu não comer uma comida saudável, tu sabe muito bem que não ganha sobremesa.
Ela: Mas eu não quero comer porque eu não quero crescer!
Eu: Por quê?
Ela: Porque eu não quero crescer-ficar-velha-e-morrer!
BOOMM! Foi aí que o tiro me acertou!
Eu: Mas, filha, se tu não comer, tu vai ficar fraca. Se tu ficar fraca, tu fica doente e gente doente também morre… às vezes… (adicionei o “às vezes” pra escapar dos detalhes de novo)
Ela: Mas eu não quero morrer!
Eu: Filha, não te preocupa com isso, tu tens muito tempo pela frente! Muitos anos vão passar, vai demorar muito até que esse dia chegue. Até lá, pode comer sossegada.
Foi aí que aquele toco de gente de 4 anos, mas agindo como se tivesse 14, me sai com essa:
Ela:Ahhh, não, mãe! Não demora, não, porque quando eu te conheci tu já era CRESCIDA E VELHA e não demorou nada, nada para passar todos esses anos!
…E não é que a diabinha tá certa?…
Julia Tiburi Grashoff - Júlia Tiburi Grashoff é formada em Publicidade e Propaganda pela PUC-RS. Uma das primeiras colaboradoras do Argumento, antigamente escrevia sobre suas andanças pelos lugares onde morou, nos 4 continentes, incluindo Japão e Alemanha. Desde 2003, mora nos EUA. Em 2005, sua vida mudou com o nascimento da sua filha, Kirsten. Hoje, faz parte de um grupo de 23 mil mães, espalhadas em 29 estados americanos que, juntas, prestam assistência a outras mães, organizam eventos de caridade e, de vez em quando, fazem passeatas em frente à Casa Branca! Mesmo com seu dia-a-dia lotado, agora ela está de volta, com a COLUNA WHO'S YOUR MAMA?, atualizada quinzenalmente aos domingos. E vai falar da sua vida na terra do Tio Sam, dos prazeres de ser mãe e de coisas bem mulherzinhas...
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Olá, Julia!!!!
Interessante como as crianças conseguem nos colocar em verdadeiras “saias justas” , e sempre do topo de sua sinceridade e autenticidade!!!!
Fico sempre encantanda com cada uma das tiradas dessas criaturinhas tão ricas; e olha que eu nem tenho filhos!!!! Imagina quando eu tiver!!!! (rsrsrsrs)
Seu texto mostra, da melhor maneira que existe, o quanto é mesmo imprescindível sermos sinceros – sem sermos chatos ou “didáticos” demais – com as nossas crianças.
Porque, diferente do que alguns adultos ainda insistem em tolamente acreditar, crianças são os seres mais inteligentes e sagazes que existem.
Estão sempre e permanentemente a nos ensinar muito, e nos mostram que não somos onipotentes, muito menos oniscientes, pelo simples fato de sermos adultos.
Porque apesar de termos vivido mais tempo e sermos mais experientes, nossos pequenos têm uma sabedoria que ainda levaremos um bom tempo pra adquirir.
Assim, só nos resta aceitar e aprender, de muito bom grado, aquilo que eles nos ensinam sem parar: a sermos mais gente e a nos relacionarmos melhor com as pessoas.
PARABÉNS pelo texto!!! Abraço, Thalyta
Muito bom, muito bom!!
Eles nos surpreendem a vida toda…
Abraços,
Gilka (mãe e avó aprendiz – sempre)