O cenário político português está em baixa, com a crise da administração de Santana Lopes, Primeiro-Ministro demissionário. Em contrapartida, a cena artístico-cultural está em livre ascensão. Em pauta a voz feminina na literatura, em versão para a sétima arte, com A costa dos murmúrios, obra de Lídia Jorge e adaptação de Margarida Cardoso; e nas artes plásticas, com a megaexposição de Paula Rego, no museu Serralves do Porto.
O que presenciamos é a perspectiva do olhar feminino sobre a realidade social: o olhar da alteridade que também sofre perdas, espera maridos, fornece filhos para a guerra e outros conflitos sociais.
Paula Rego, a artista mais badalada do momento, também tem sua obra marcada pela retratação do cenário social. São representações de mulheres de expressões grotescas, mas nem por isso menos belas. Uma mãe contemporânea, camponesa, sentada de pernas abertas com o filho morto sobre os braços lembra a Virgem Maria com o filho adulto ao colo, dessacralizada, vestida de negro, de feições rudes e pernas semiabertas. Ainda assim, uma mãe que sofre a perda do filho.
O filho bem pode ser Nosso Senhor, como pode igualmente, e sem heresia, ser um judeu evadido do holocausto. Uma virgem pós-moderna. A imagem, e somente a imagem, remete à simbologia universal. Porque os traços assemelham-se a mais comum das mulheres. O sofrimento humano está expresso em diferentes formas. Esta imagem se repete igualmente em outra série, desta vez intitulada “metamorfose”, que remete à obra de Kafka, mas, ao mesmo tempo, remete a cenas do holocausto.
A expressão da dor humana, a agonia da contorção corporal: o homem parece querer sair do seu próprio corpo, fugir da sua imagem. Uma imagem que choca pela retratação da dor, do quase nu, não do nu artístico, mas do nu de estar despido diante do mundo, a ausência de tudo. Novamente aqui pode ser a personagem de Kafka, Gregor Samsa, durante a metamorfose, como pode ser o mesmo judeu do colo de Maria pós-moderna.
Quem, aliás, mais tristemente expressivo do que os judeus, nesse período lamentável da história da humanidade, para representarem a metamorfose do corpo? Na retratação das cenas sociais, de momentos críticos extraídos da realidade social, Paula Rego lembra Picasso: “Guernica”, pelas cenas centradas no detalhe. O detalhe que evoca a degradação ou a destruição sociais. Em outro momento, igualmente evocativos da realidade social, lembra Salvador Dali: a desproporção e a deformação das imagens.
Mas há também momentos apenas curiosos como uma série de 7 quadros representando um momento de insônia ou um uma mulher tendo convulsões. Um dos quadros que mais me chocou se chama “Obediência” e retrata uma cena doméstica: uma mulher de cócoras, com a cabeça encostada em uma cadeira, levantando o vestido. Nada mais sugestivo à submissão feminina que a literatura portuguesa tanto retrata desde as cartas portuguesas, de Mariana Alcoforado.
Se Lídia Jorge fala da guerra sob a perspectiva feminina, desvendando uma história que se queria oficial durante a guerra colonial em Moçambique, pois a autora diz que escreveu A costa dos murmúrios para evitar que aquelas vidas caminhassem para a versão oficial, Paula Rego também retrata esse universo da guerra, sob diferentes perspectivas.
Desde o detalhe da intimidade do lar: “maternidade”, até momentos que antecedem à brutalidade entre os universos masculino e feminino. Os motivos são retirados da realidade social ou da obra literária: Kafka, C. Brönte, Eça de Queirós.
Quem olha um pequeno quadro intitulado “Inundação”, logo enxerga, por detrás, preso ao detalhe, Picasso. A miséria oriunda da enchente é pormenorizada nos detalhes espalhados pelo pano de fundo da tela, tanto que a barcarola perdida na correnteza, em primeiro plano, pouco expressa diante do mosaico de situações apresentadas, distribuídas na tela.
Do cubismo de Picasso ao surrealismo de Dali, da fiel retratação da vida quotidiana à composição de personagens da literatura universal, a marca da exposição de Paula Rego é o ecletismo: ela é uma artista pós-moderna em essência. As personagens, os traços e os motivos se repetem, se conjugam, se transformam ao percorrer as séries.
As obras encontram-se dispostas em sete ambientes, sendo que num deles há apenas estudos dos quadros apresentados na exposição, bem como coisas menores. A imponência de algumas telas que chegam a medir 180 cm x 180 cm é algo assim meio barroco. Há de leve uma ligeira vontade de se render aquele encanto, de postar-se de joelhos: renda-se você também à metamorfose destas mulheres.
Claudiany da Costa Pereira - Doutora em Letras/Literatura pela PUCRS. Morou em Coimbra, onde fez seu doutoramento; em Lisboa, com bolsa de pós-doutoramento CAPES, e atualmente vive em Guiné-Bissau, através do Programa de Leitorado do Ministério das Relações Exteriores. Pesquisa as relações culturais entre Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP): Timor Leste, Moçambique, Brasil e Portugal. Depois de algum tempo de ausência, retorna ao Argumento com a coluna LITTERA&TAL, subcategoria PÉ NA ÁFRICA.
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