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categoria: LITTERA&TAL

ONDE FICA A AMÉRICA?

Hoje é um dia particularmente especial, pois nesta data comemora-se o dia do Professor. Dia do professor, assim como de pais e mães, deveria ser todos os dias. Não tomem este discurso como demagogia, porque ele parte da inegável premissa de que todos devemos nosso aprendizado aos grandes mestres, muitas vezes anônimos, pelos quais passamos. Mestres esses que nos legaram não apenas o saber adquirido, mas a experiência de vida e a exemplaridade de ações. Educar no nosso país, por mais clichê que pareça essa afirmação, não é tarefa fácil, nem é novidade que não o seja. Também por isso todos os mestres merecem, pelo menos no dia hoje, um parabéns especialíssimo e um sonoro muito obrigada!

De que América estamos a falar, ó pá?

Não sei por que com o passar do tempo adquirimos manias estranhas. Eu, como é óbvio, tenho as minhas. Uma delas é que não SUPORTO, mas não suporto mesmo, ouvir sempre, repetidas vezes, ditas pelas mais brilhantes cabeças pensantes do país, que os Estados Unidos da América (do NORTE) são “a América”. Em Portugal, então, não se diz Estados Unidos, diz-se América, donde eu tinha que lembrar constantemente que também vinha da América. Duma parte da América, de um quinhão da América. Do lugar que me coube neste latifúndio. George Bush, em seu discurso frente aos atentados de 11 de setembro, nos E.U.A. (do Norte), bradou em cadeia internacional: – “God bless América” – (título da composição de Irving Berlin, que foi cogitada para ser o hino nacional norte-americano). A sentença proferida no governo de James Monroe, na década de 20 do século XIX, conhecida como Doutrina Monroe, declarava “América para os americanos”, numa tentativa de afastar a dominação europeia no continente americano (lato sensu). Brad Pitt, Matt Damon e a família Baldwin são atores “americanos”. O jornal New York Post e a Revista Time são periódicos “americanos”. O Dicionário Aurélio, felizmente, faz a distinção entre americanos (do continente americano, seja da América do Norte, Central ou do Sul) e americanos do norte (mexicanos, estadunidenses e canadenses), mas este adjetivo “americano” é comumente interpretado como relativo ao que é ou que vem dos Estados Unidos.

A novela da Rede Globo, veiculada em horário nobre, chama-se América. Seus cenários são divididos entre Brasil e Estados Unidos, simultaneamente, embora todas as personagens sejam elas norte-americanas, mexicanas ou brasileiras falem a mesma língua portuguesa. Como se os Estados Unidos da América do Norte fosse o mais novo integrante da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa-, ou igualmente pertencesse à Comunidade Lusófona. Mas o que faço é apenas um registro inútil, pois em ficção esse livre arbítrio que dilui fronteiras, e nesse caso beira ao absurdo, chama-se, salvaguardadas as devidas proporções, licença poética. Porém, ainda sobre o fato do continente americano ser reduzido à extensão territorial ocupada pelos Estados Unidos da América (do Norte), e isso ser representativo de todo um continente híbrido e multicultural, acredito que não exista motivo para que esse equívoco se perpetue nos nossos discursos, sem que se tente ao menos discutir essa questão. Famosos jornalistas, intelectuais, escritores, apresentadores de TV poderiam contribuir para desfazer, e não corroborar, esta incorreção geo-físico-político-sócio-cultural. Outro dia Rosane Marchetti, no Jornal do Almoço da RBS TV, quando anunciava a chegada de oito estudantes timorenses à capital gaúcha, disse que Timor Leste era um país africano.

Concordo que ninguém tenha obrigação de saber que Timor Leste é uma jovem nação asiática, e que o que tem em comum com os países africanos de língua portuguesa é a história de subjugação colonial à matriz portuguesa, a língua de cultura e os conflitos de libertação nacional. A sociedade não é obrigada a saber disso. Na verdade, pouca gente sabe ao certo onde fica Timor. Além do que, pode ter sido um lapso da nobre apresentadora. Linguistas dizem (informação paralela) que Jorge Alberto Mendes Ribeiro – o pai -, repetia, incessantemente, aquela frase: “foi um privilégio ter estado com vocês”, numa tentativa de mostrar a pronúncia correta da palavra prIvilégio. Conduta que reforça a já sabida e notória influência dos meios de comunicação social como veiculadores de construções narrativas que, pelo alcance obtido, se tornam verdades.

Com a velocidade assustadora que mudam os costumes na contemporaneidade, já passamos pela era do rádio – que também foi difusor de comportamentos e condicionador de ações pragmáticas, como a homogeneização linguística de norte a sul do país -, pelo domínio absoluto da mídia televisiva, que mostrava (mostra) a notícia via satélite, imprimindo modas e comportamentos imediatos na sociedade, para passarmos à era da comunicação On-Line, seja através do jornalismo (“confira as notícias minuto a minuto”), ou das mensagens eletrônicas, ou dos blogs, ou das redes de amigos (Orkut, Gazzag), que se tornaram os parnasos contemporâneos.

A informação, dessa forma, nos é dada em abundância de quantidade, porém carência de qualidade. Walter Benjamin, no famoso e sempre lembrado texto “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, reflete sobre a importância da informação na nossa vida (dele, década de 30 do século XX), e na evolução dos gêneros. Enquanto o romance levou séculos para materializar-se enquanto forma narrativa, não em superação, mas principalmente em detrimento do narrador oral, trazendo para a cena literária a solidão da leitura, a informação pode modificar nossa vida do dia para a noite, causando assim o que ele chama de “a morte da narrativa” pela rapidez com que se desenvolve e pelo acrescento da explicação. Tudo precisa ser rapidamente compreendido, e para que possa assim o ser, os fatos são digeridos, desmembrados, fragmentados. E essa tendência passa a ser também incorporada pelas narrativas ficcionais.

Uma informação cria realidades quando está a serviço, primeiramente, de um aparelho ideológico. Dizer que os Estados Unidos da América (do Norte), que para aquém de ser uma superpotência econômica mundial, é um fragmento territorial, cuja extensão representa uma percentagem do imenso continente denominado América – em homenagem a Américo Vespúcio, não o seu descobridor, mas o que se flagrou dessa empreitada – pode reafirmar uma soberania que já existe no campo econômico e cultural. Num contexto, vale lembrar, em que todos nós, americanos, discutimos e reafirmamos nossas identidades (híbridas) culturais em oposição, como também em equivalência, a outras identidades. Por que, então, perpetuar essa incongruência?

Claudiany da Costa Pereira - Doutora em Letras/Literatura pela PUCRS. Morou em Coimbra, onde fez seu doutoramento; em Lisboa, com bolsa de pós-doutoramento CAPES, e atualmente vive em Guiné-Bissau, através do Programa de Leitorado do Ministério das Relações Exteriores. Pesquisa as relações culturais entre Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP): Timor Leste, Moçambique, Brasil e Portugal. Depois de algum tempo de ausência, retorna ao Argumento com a coluna LITTERA&TAL, subcategoria PÉ NA ÁFRICA.
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