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categoria: LITTERA&TAL

O PROCESSO DE RECONSTITUIÇÃO DA HISTÓRIA

O QUEIJO E OS VERMES E AS FONTES DOCUMENTAIS

Penso – essa estranha mania – que um dos assuntos que, entra ano e sai ano, continua sendo discutido dentro da academia literária diz respeito às relações entre ficção e história, no que elas se assemelham como construtos ficcionais ou elaborações discursivas. E não é para menos. Com a postura desmitificadora da história, que se remodela a partir da década de 70, várias questões com relação ao passado foram repensadas sob óticas distintas. Os historiadores trabalham em novos modelos de análise histórica e fazem surgir as histórias do cotidiano, das mentalidades, da ordem privada e, mais recentemente, do imaginário.

A visão que se tinha da história, durante século XIX, era de uma história que deveria dar conta da totalidade da visão do mundo, como uma equação matemática. A partir destes estudos, iniciados com a Escola dos Anais, podemos observar que a história não só não é una, como também pode ser vista por inúmeros ângulos: a história do vencedor e a do vencido, das classes dominantes e das subalternas, e dentro dessas, sob a ótica de um único indivíduo que, sem querer representar a totalidade de uma classe, dela nos dá ao menos a noção de sua existência.

Pensar o período em que vigora a Inquisição não só no Brasil ou Portugal – como faz o escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, em Breviário das terras do Brasil -, como também na Espanha e na Itália – como faz o historiador italiano Carlo Ginzburg -, é pensar um momento da história da humanidade em que o simples fato de pensar, importando menos o conteúdo das ideias, por si só era considerado heresia. O indivíduo que nesse período não tem poder sobre o conhecimento está subjugado ao conhecimento como fonte de poder, por uma instituição, é importante que se diga, que não hesita em usar esse instrumento como forma de dominação e de divulgação de um pensamento religioso, de uma fé que se queria única.

Nesse período também, talvez exausto de não entender o mundo em que vive, como demonstra Menocchio, a personalidade histórica resgatada por Carlo Ginszburg, em O queijo e os vermes, o homem amplia o seu horizonte, voltando os olhos para um passado distante e, em termos artísticos e filosóficos, bastante fecundo. Assim como as artes voltam os olhos para o antiguidade clássica, a filosofia de mundo dessa época vem à tona. E com ela, além da sua estética, a sua fé. Uma fé em que dialogam deuses e homens e em que, não sabendo ou não podendo explicar o mundo, busca-se o plano das divindades para conviverem e até mesmo interferirem no plano humano.

É o homem tentando ajustar-se ao mundo com as armas que tem a seu dispor. É assim no mundo grego, é assim no mundo renascentista. E as personagens resgatadas dos porões da história, fadadas ao esquecimento, mais do que personalidades perseguidas pela inquisição, corporificam o próprio pensamento renascentista. Domenico Scandela, o moleiro Menocchio, por exemplo, queria estabelecer com o mundo e, por consequência, com a fé e tudo o que pairava no mundo como verdade absoluta, uma relação de igualdade.

E nós tentamos estabelecer com esse pensamento, a partir da ótica do presente, uma relação que passa pela compreensão e vai à perplexidade. Estamos falando de um período histórico complexo – que coloca Deus em oposição ao homem, ao invés de estabelecer entre ambos uma relação de conformidade.

O que ocorre com Menocchio é que ele tenta, voltando ao princípio grego de compreensão do mundo, entender o mundo em que vive, de uma forma que seja palpável, compreensível, que esteja ao alcance de sua forma de ver o mundo, conferindo à sua interpretação do cânone religioso a mesma feição estabelecida no mundo grego, no qual a proximidade do plano divino se constituía numa tentativa de aproximar as questões sobrenaturais do mundo vivido. Há um grande distanciamento entre a visão do mundo que passa às multidões, pelo filtro da Igreja Católica, e o mundo das massas camponesas, analfabetas.

Este contexto, o da inquisição, nos remete a um outro problema-chave para a reconstituição da história de Domenico Scandella, o moleiro italiano que foi perseguido pela inquisição século XVI, que é o problema das fontes documentais, nas quais o historiador foi buscar o material do seu trabalho. A reconstituição desta história é feita a partir dos diálogos, dos testemunhos que constam nos inquéritos da Santa Inquisição. Diálogos estes que não representam a totalidade da sua classe: donde podemos observar a ausência e a manipulação das fontes.

Uma das primeiras ideias que temos ao entrar em contato com o texto do italiano Ginzburg é o da busca de uma história próxima à cultura popular, embora este não seja o objetivo primeiro, e o autor deixe claro que a história de Menhocchio não representa esta totalidade, embora dela esteja mais próximo do que a cultura dominante que temos notícia, divergente, portanto, da historiografia oficial do ocidente. O autor vai “tentar” resgatar um modus vivendi que não conheceu, a partir de documentos escritos que, como vimos, podem ter sido manipulados tanto pela parcialidade dos relatos, quanto pela indução às respostas, constrangimento esse a que as testemunhas foram expostas nesses processos de inquisição.

Perante esses fatos o autor já comunica que seu posicionamento será de repúdio a essa postura totalitarista diante da história, sobretudo no que se refere ao seu país, e a história do Santo Ofício. Carlo Ginzburg resgatará a história que ninguém conheceu, a história que o próprio fazer histórico desconhece: a história dos anônimos.

Por outro lado, também permite perceber que mesmo os anônimos, aqueles de quem a história não dá conta, mesmo eles sofreram e foram perseguidos pelos tribunais do Santo Ofício, ponto esse em que suas vidas coincidem com as de outros tantos famosos que a Igreja condenou à fogueira. O ponto que os une é a morte, o mesmo que une toda a humanidade. E, junto com a morte, está a ideia de putrefação, que foi a alegoria que condenou Menocchio, o moleiro friuliano.

O autor começa a analisar as transformações culturais a partir da desestruturação social, dos fatores econômicos, da diferença de classes sociais: dominantes e subalternas. Ginzburg estabeleceu parâmetros de comparação entre a cultura das classes ditas subalternas e a cultura erudita. Aquelas, principalmente, se pensarmos em termos de passado histórico, são muito mais afeitas à tradição oral, o que lhes confere certa limitação: “os historiadores não podem se pôr a conversar com os camponeses do século XVI”, como afirma Ginzburg. Fato este que os torna dependentes de fontes indiretas, tais como a escrita e achados arqueológicos.

Estas fontes, há de se destacar, apesar de verossímeis, uma vez que os produtores textuais, os cronistas ou historiadores, enquanto sujeitos sociais, elaboram seus textos conforme ideologia própria, que pode ser, inclusive, a da cultura dominante, e na quase totalidade dos fatos o é, como foi dito, as fontes são parciais, contém uma parcela da história, um ângulo de visão da mesma.
Os relatos que servem como fontes documentais dão uma mostra do quanto o próprio processo histórico da Inquisição é uma elaboração ficcional, só deixando de ser ficcional quanto às penalidades aplicadas, porque os relatos partem da interpretação dos delatores, quando não da interpretação dada pelos inquisidores e da indução das respostas. E o resgatar desse fato histórico incontestável se desdobra através da elaboração discursiva do historiador, que não deixa de ser, igualmente e sem demérito, um construto ficcional. É claro que essa é uma visão do lado de cá da história; do lado de cá do Atlântico.

Claudiany da Costa Pereira - Doutora em Letras/Literatura pela PUCRS. Morou em Coimbra, onde fez seu doutoramento; em Lisboa, com bolsa de pós-doutoramento CAPES, e atualmente vive em Guiné-Bissau, através do Programa de Leitorado do Ministério das Relações Exteriores. Pesquisa as relações culturais entre Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP): Timor Leste, Moçambique, Brasil e Portugal. Depois de algum tempo de ausência, retorna ao Argumento com a coluna LITTERA&TAL, subcategoria PÉ NA ÁFRICA.
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