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categoria: LITTERA&TAL

O MAR DOS MEUS ANTEPASSADOS

(REESTREIA) A casa tinha três pisos alugados pelo senhorio a inquilinos de distintas nacionalidades. Nós morávamos na parte do meio. Os vizinhos todos, entretanto, podiam usufruir do imenso quintal fornido de legumes, frutas e hortaliças. O verde circundava os arredores da casa. À frente, podia-se colher nabos e alecrim e, ao lado direito, após a garagem, floresciam cravos de abril.

Nem todos os hóspedes cuidavam da horta, tampouco limpavam o espaço comum depois de usado. Mas era bom termos ao alcance temperos e couves, assim como uvas e ervas, além de estarmos cercados daquela beleza natural que coloria os nossos dias mesmo ao inverno. Da varanda que tínhamos no segundo andar, essa só nossa, que dava acesso após subir a estreita escada já meio enferrujada, podíamos observar o mar. E eu não abria mão desse direito, quase um dever, nem quando chovia. Ao saltar da cama pela manhã, logo cedo, mesmo de pijama e meias, subia cuidadosamente a escadinha de ferro e ficava lá algum tempo a contemplar o mar.

Só depois de me perder na imensidão daquele espetáculo é que descia novamente à cozinha e tomava, então, o pequeno-almoço. À noite, antes de deitar, subia novamente a mesma escada, e mais ouvia do que via aquele mar revolto e barulhento. Quando eu era pequena, sentava ao pé de minha avó para ouvi-la contar histórias do meu bisavô, um marítimo que partiu de Portugal rumo ao Brasil. Eu achava que Portugal era um lugar distante que jamais, talvez, eu pudesse conhecer uma terra que ficasse assim tão longe.

Quando fui, depois de uma vida passada a este Portugal e pude ver o mesmo mar que meu bisavô, e ter, decerto, a mesma sensação que ele ao cruzar aquele Atlântico para conhecer outras paragens, eu me lembrava em pormenores do que minha avó dizia; sobretudo do orgulho que ela tinha em ser filha de marítimo e ir, com ele, fazer travessias no porto de Porto Alegre, a passar viandantes de um lugar a outro das ilhas.

Hoje, essa magia ficou perdida no tempo; e tudo o que eu conheço o fiz pela imaginação talvez já colorida e, agora, definitivamente perdida da minha avó. Eu gostaria de poder contar a ela que estava no Portugal do meu bisavô, mas já não podia contar, pois mesmo que o fizesse, ela concordaria sem entender. Há algum tempo, ela já não reconhecia mais os seus, embora se lembrasse, com precisão, do passado junto ao Rio Guaíba, o rio da minha aldeia, como diria o poeta.
E mesmo nesse lembrar-se de agora, já não podíamos mais saber o que era a lembrança vivida e o que nela havia de alucinação. Mas embalada por histórias de navios e mares, de timão e mastros, eu subia, além da varanda, no mirante das ruínas de um forte à beira-mar, e ficava olhando e ouvindo o mar. Nesse transe, me perdia em pensamentos que nem sabia serem meus, tentando sentir e adivinhar a emoção dos navegantes, bem como o vazio e a angústia da vida de quem aguarda regressos.

Subida no mirante olhava e perdia a vista naquele mar infindo cantado por Fernando Pessoa e Sophia de Mello, Camões e Sóror Saudade. Posso dizer quase com certeza e verdade que chegava a ver caravelas ao mar, e os homens chegando a terra de volta aos braços aflitos das mulheres na areia. Para olhar o mar é preciso ter olhos de enxergar o mar e as vidas que por ele passaram. Assim como a de meu bisavô: a buscar destinos e semear famílias, a gerar e velar pelas vidas que foram perdidas em nome do progresso e da aventura de ser Deus rompendo os limites impostos aos homens de outrora. Era esse o mar que eu olhava e ouvia todos os dias em que estive lá. E foram todas as emoções sentidas, as histórias que ouvi do mar e das conquistas, das perdas e das dores, das identidades misturadas pelas fronteiras do mundo, que eu queria contar para a minha avó e não pude.

Guardei-as todas, uma a uma, apertadas no peito, entrelaçadas na garganta, enquanto ouvia ela perguntar quem eu era, quando regressei.

Claudiany da Costa Pereira - Doutora em Letras/Literatura pela PUCRS. Morou em Coimbra, onde fez seu doutoramento; em Lisboa, com bolsa de pós-doutoramento CAPES, e atualmente vive em Guiné-Bissau, através do Programa de Leitorado do Ministério das Relações Exteriores. Pesquisa as relações culturais entre Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP): Timor Leste, Moçambique, Brasil e Portugal. Depois de algum tempo de ausência, retorna ao Argumento com a coluna LITTERA&TAL, subcategoria PÉ NA ÁFRICA.
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