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categoria: LITTERA&TAL

MEU MUNDO RUIU

Sabe quando você dedica um tempo enorme da sua vida fazendo uma coisa e descobre, de repente, que mais alguém, em outro lugar do mundo, teve ideia semelhante? O que é pior, já publicou essa ideia? Pois é, assim que me senti quando li o livro O conto moçambicano: escritas pós-coloniais, de Maria Fernanda Afonso.

O livro é magnífico, resultado de uma tese de doutorado, e foi publicado pela Editorial Caminho, a mesma de Mia Couto. A autora percorre a literatura moçambicana contemporânea, através do universo da narrativa curta, interpretando autores como Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Aníbal Aleluia, José Craveirinha, Raul Honwana, Suleiman Cassamo.

A leitura é límpida, fluida, mesmo em se tratando de um texto teórico, e mais de uma tese de doutoramento, você não sente vontade de largar o livro. E quer desvendar o universo marcado pelo cenário mítico africano. Sou particularmente fã de Mia Couto, mas igualmente de Ungulani Ba Ka Khosa. Disse que meu mundo ruiu por que minha tese também trabalha com narrativa curta, de Mia Couto, sem esquecer uma ligeira flertada pela ficção de Ba Ka Khosa. Especialmente um conto que está em Orgia dos loucos, e se intitula ‘Morte inesperada’. Nesse conto, há uma resistência muito grande da personagem-narrador ao assimilacionismo. Ele não quer frequentar a escola para não perder o vínculo com o saber ancestral africano. Tomando como cenário histórico o governo administrado pela Frelimo – Frente de libertação para Moçambique, que assumiu o poder no pós-independência, observa-se que o projeto inaugural de transformar a língua portuguesa em primeira língua passa, primeiramente, e num julgamento apressado, pelo detrimento das línguas nacionais. É a isso que a personagem resiste. Mas a forma como é trabalhado por Ungulani o drama existencial da personagem em ir ou não para a escola, e o desfecho trágico que se segue à sua escolha, são de um potencial dramático singular.

O assimilacionismo é também tema em várias obras de Mia Couto, contos ou romances, e na maioria destas narrativas, há o choque entre o saber tradicional e o patrimônio cultural europeu, exercitando uma dicotomia desproporcional entre saberes.

Se eu fosse utilizar muitos adjetivos para qualificar o livro de Fernanda Afonso deixaria de ser crítica profissional para me tornar uma tiete. Continuo a escrever minha tese, que enfoca este e outros autores, incluindo o timorense Luís Cardoso, sob outro prisma de análise, dentro do vasto campo dos estudos culturais. Entretanto, a contribuição de Fernanda Afonso para o estudo da literatura africana em língua portuguesa, e mais especificamente, a moçambicana, é incomensurável. Meu mundo ruiu igualmente porque muitos dos contos selecionados pela autora também estão no corpus de minha tese. Donde dá uma ligeira sensação de que o que se queria dizer, já foi parcialmente dito. Mas resta o consolo de que foi muito bem dito. E tem ainda outro tanto por dizer, sobretudo de Timor, de onde quase nada foi dito.

Claudiany da Costa Pereira - Doutora em Letras/Literatura pela PUCRS. Morou em Coimbra, onde fez seu doutoramento; em Lisboa, com bolsa de pós-doutoramento CAPES, e atualmente vive em Guiné-Bissau, através do Programa de Leitorado do Ministério das Relações Exteriores. Pesquisa as relações culturais entre Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP): Timor Leste, Moçambique, Brasil e Portugal. Depois de algum tempo de ausência, retorna ao Argumento com a coluna LITTERA&TAL, subcategoria PÉ NA ÁFRICA.
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