Passear pelas ruas de Coimbra é reviver um pouco a história da instituição universitária mais antiga de Portugal. Seja no Largo da Portagem – centro da cidade -, seja nos arredores do Arco da Almedina – na entrada da universidade -, deparamo-nos com os estudantes trajando suas capas pretas, oferecendo um belo espetáculo aos olhos de quem chega.
Coimbra não é uma universidade qualquer: é a universidade por excelência e por tradição. Sua problemática institucional se observa com a convivência diária, mas o que se vê – a fachada – são os corredores por onde passaram de reis a poetas. A edificação que abriga séculos de história, e a tradição, tão polêmica quanto bela, do uso do fato acadêmico. Onde se vê tradição, vê-se, igualmente, conscientização política.
Entretanto, nesse ano de 2005, a revoada dos andorinhas brancas teve um significado distinto. No mesmo dia em que o Reitor de Coimbra, Seabra Santos, ocupou a Capa do Jornal Diário de Coimbra para reclamar do orçamento destinado à Universidade, um grupo não significativo de estudantes invadiu a sala dos Capelos, onde se realizava a abertura solene das atividades letivas, para protestar.
Sim, o ensino superior português está em crise. Todos os anos há manifestações estudantis na universidade. Mas, desta feita, desde a abertura do ano letivo, os incidentes se sucederam, culminando, no dia 20 de outubro, com a intervenção da polícia de choque num protesto.
Mais de duzentos estudantes tentaram ingressar no senado durante a votação do preço máximo das propinas escolares (espécie de taxa) e foram barrados pela polícia, chamada pelo reitor Seabra Santos. O motivo, certamente, era garantir que esta solenidade não fosse interrompida como a primeira, mas os excessos, de ambas as partes, acabaram no triste episódio da prisão de um caloiro do curso de jornalismo, por desacato à autoridade.
A foto de um policial ajoelhado sobre a cabeça do estudante, enquanto outro o prendia, foi exibida pelos jornais e erguida pelos colegas como bandeira em defesa do artigo 25 da Constituição portuguesa, que garante o direito à integridade física. Os estudantes permaneceram em vigília em frente à sede da polícia, até a soltura do estudante que, mesmo em liberdade, poderá ser julgado e condenado a até cinco anos de detenção.
A tradicional Festa das Latas e Imposição das Insígnias – que é em essência uma recepção aos acadêmicos, foi transformada em comício e este em protesto que pede a renúncia do reitor. As solenidades de recepção aos caloiros foram transferidas, e ocorreram em dias distintos, marcadas pela inconformidade dos alunos com os episódios ocorridos este ano, incluindo o fechamento de uma via pública junto à universidade – a rua Padre António Vieira.
Estes episódios foram levados à discussão na Assembléia Geral de estudantes, ocorrida dia 4 de Novembro, em Lisboa. O que causou tudo isso?
A votação do preço considerado abusivo da cobrança das propinas (taxas), que foi estabelecido pelo senado universitário. Os estudantes acusam o reitor de ser o presidente do conselho de administração da universidade de Coimbra, e pedem sua renúncia. O líder estudantil Miguel Duarte disse, em entrevista ao Jornal Diário de Coimbra, que em trinta anos de democracia, nunca se presenciou um abuso como este.
O que subsiste na universidade é a inquietação e o inconformismo, a disposição para a luta e o ímpeto de mudança, que nos acompanha na juventude, seja ela de idéias, seja de idade. Não significa que um ou outro lado tenham razão sobre os abusos praticados. Se calhar, a verdade é o produto da soma do ponto de vista das duas partes, acrescido dos fatos, que são inegáveis.
Mas, o que eu queria mesmo dizer, é que as capas pretas de Coimbra ainda buscam o que consideram ser a verdadeira democracia, porque ainda resta Abril na Universidade.
Claudiany da Costa Pereira - Doutora em Letras/Literatura pela PUCRS. Morou em Coimbra, onde fez seu doutoramento; em Lisboa, com bolsa de pós-doutoramento CAPES, e atualmente vive em Guiné-Bissau, através do Programa de Leitorado do Ministério das Relações Exteriores. Pesquisa as relações culturais entre Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP): Timor Leste, Moçambique, Brasil e Portugal. Depois de algum tempo de ausência, retorna ao Argumento com a coluna LITTERA&TAL, subcategoria PÉ NA ÁFRICA.
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*faltaram as fotos
*faltaram os critérios para o uso das capas pretas.