Moro sozinha há algum tempo. Ainda estou em fase de adaptação, aprendendo a conviver somente com minha sombra.
Morar só tem suas maravilhas e dores. É preciso estar atento a isso, antes de tentar um voo solo. Nem tudo são flores na vida a um. O fotógrafo Peter J. Wilson já mencionou algo a respeito disso num texto que acompanha uma foto sua intitulada “there is no poetry in being alone”. Reproduzo-o aqui, traduzido por mim: “A solidão pode inspirar poesia. O isolamento pode trazer bons momentos para escrevê-la, mas não há poesia alguma no sentimento de se estar só“.
No meu caso, tenho conhecido os dois lados dessa moeda. De um, é ótimo ter a liberdade de fazer o que quer quando e como quiser; organizar e limpar algo, sabendo que tudo estará do jeito que você deixou; ter um espaço somente para você; receber colegas e amigos em casa a qualquer hora. Já a outra face é mais obscura: como é difícil o período de adaptação entre morar com outras pessoas e, de uma hora pra outra, estar só; fazer várias refeições sem companhia; não ter com quem conversar; chegar em casa e saber que não tem ninguém ali esperando por você. Para viver só e bem, tenho testado e desenvolvido algumas receitas. Cito-as abaixo. Se você tem outras dicas, por favor, comente.
1. Deixe a TV ou som ligado à medida do possível. Um barulhinho sempre ajuda a espantar aquele silêncio que traz a sensação de solidão. Apesar de gostar do silêncio, uso essa técnica com certa frequência. Funciona!
2. Se você gosta, mantenha o MSN ligado. Assim, sempre aparece alguém legal com quem você pode conversar um pouco e compartilhar alegrias. Como moro longe da minha cidade (sou do interior do Paraná e moro em Porto Alegre), muitos amigos de longa data moram longe. O MSN acaba sendo a ponte que me une a esses amigos amados e distantes. E sem qualquer custo de ligação.
3. Se puder, tenha um animal de estimação ou planta(s) para cuidar. Um animal é uma companhia agradabilíssima: é carinhoso, brincalhão; ele te procura, faz carinho e demonstra o que sente. E não liga se a casa é luxuosa ou simples. É o mais fiel, sincero e desapegado dos amigos. E não receie parecer louco: converse com ele, conte seus dilemas e sonhos. Assim você dá atenção ao bichinho e também extravasa seus sentimentos. Eu, por exemplo, tenho plantas ornamentais e um pequeno herbário. Cuido delas e converso com elas. Elas sempre respondem ao meu cuidado e carinho com folhas viçosas, flores e cor ao meu apartamento.
4. Procure criar vínculos com as pessoas, não se isole. Morar só não significa permanecer só. Convide pessoas para vir na sua casa, tomar um chimarrão, um cafezinho, um almoço. Saia com elas para um parque, praça ou até mesmo para uma caminhada em dupla, trio. É estimulante, você conhece lugares legais e espairece um pouco. Senão vai ficar falando só com as plantas, que, apesar de boas ouvintes, são um tanto lacônicas e nunca dão bons conselhos.
5. Crie uma rotina diária. Estabelecer horários para as atividades ajuda a dar a sensação de que sua vida está organizada, controlada. Se você tem dificuldade para isso, monte um quadro de horários, distribuindo suas atividades da semana. Mas cuidado: não se esqueça de reservar um tempo satisfatório para descanso e lazer. Assim sua vida será mais colorida, relaxante e realizadora. Ninguém realiza nem produz nada satisfatoriamente se não descansar satisfatoriamente.
6. Tenha um hobby, entre para uma ONG ou faça parte de um clube. Essa é nova para mim também. Decidi que entrarei para um clube ou confraria. Assim faço algo interessante, faço um bem às pessoas ou ao mundo e conheço mais pessoas, estabelecendo novos vínculos. Quando puder, escreverei mais sobre isso.
7. Procure se alimentar direito. Muita gente que mora sozinha e que não tem grana para comer fora, acaba comendo aqueles congelados assustadores, como lasanhas ou pizzas (cuja “foto meramente ilustrativa” difere totalmente do conteúdo da caixa), além do tradicional macarrão instantâneo. Não é necessário dizer que um comportamento desse, apesar de justificável pela falta de tempo, não é nada saudável. Acredite: é possível, sim, cozinhar pratos saudáveis, gostosos, rápidos e baratos! E para se sentir estimulado, tenha temperos diferentes e variados à mão. Eles deixam o prato mais saboroso, além de tornarem o ato de cozinhar mais interessante, “alquímico” e carinhoso (sim, cozinhar é se acarinhar!). Eu costumo fazer o seguinte: preparo um prato numa quantidade maior do que o necessário para uma única refeição. Assim, guardo o excedente em potinhos individuais no freezer. Faço o mesmo com outros pratos. Dessa forma, terei sempre refeições variadas prontinhas, sem ir pro fogão todos os dias. Se você não tem freezer, pode usar o congelador também (a diferença é que, no congelador, o prato deve ser consumido logo). Com essa atitude prática, tenho várias coisinhas prontas para consumo, como legumes refogados, ratatouille, iakisoba, arroz integral com temperos variados, carnes diversas, molhos para carne e macarronada, feijão, pão caseiro. Esse procedimento economiza tempo, gás, dinheiro, além de não precisar sujar muita louça: é só esquentar o potinho no microondas! Pra mim, inclusive, virou um hobby gratificante. É tão bom se fazer bem comendo bem!
8. Tenha atitudes de autopreservação. Cuidado com os folhetos de “conserta tudo” na sua caixa do correio. Pode ser alguém mal intencionado tentando ter acesso à sua casa. Há relatos (comprovados) de vítimas de falsos encanadores, pintores etc. Observe também atitudes suspeitas de estranhos na rua e ao se aproximar (ou sair) de casa. Ouça seus instintos. Melhor se cuidar e depois achar que exagerou em cuidados do que ser assaltado ou ser vítima de outras violências. Tenha sempre um telefone de emergência de alguém em quem você confia e que more perto de você.
Espero ter ajudado. Tenho tentado pôr em prática cada uma desses itens. Ajudam, mas não são tudo, porque nada substitui o convívio com outras pessoas. Por isso lembre-se: morar só não implica ser só.
Edna Regina Hornes - Edna Regina Hornes é revisora e tradutora. É formada em Tradução pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na bela Porto Alegre, e mestranda em Linguística pela mesma universidade. Atua especialmente com textos de pediatria (seus prediletos), cardiologia e psiquiatria. Para se divertir e se expressar, escreve desde que se conhece por gente (sem grandes pretensões que não sejam a autoexpressão), tendo como grandes companheiros o teclado e o lápis, mas só agora está começando a sair da toca. É, portanto, uma escrevedora. Também é autora da coluna Lambirinte-me, atualizada mensalmente aos domingos no site argumento.net
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