ESTREIA
Adoro o João. Admiro a capacidade que ele tinha de garimpar as palavras, desbastar seus poemas até tornar aquela estrutura absolutamente completa em si mesma mantendo apenas os elementos essenciais. Admiro sua concisão por ser, talvez, o oposto dele. Sou prolixa feito novelo sem ponta. Eu me definiria, inclusive, como adjetivágica. Basta olhar: sempre uso 3 adjetivos para qualificar algo… e não me pergunte por que faço isso.
Talvez por ser assim, eu justamente tenha escolhido a prosa como instrumento discursivo, pois para mim seria sufocante me expressar por poemas, embora os ame. Sou escrevedora do “flutual”, fluviante, que boia na água do alguidar, confesso. Admiro o João também porque ele conseguia dizer o que queria através daquela estrutura engessante, apertadinha. Rolha de bom vinho. Arte concisa, estruturada, poesia substantiva, em que todo o excesso era removido e suprimido em nome do estritamente básico. Tire uma palavra e o arcabouço palavral é comprometido. É, bem-aventurado aquele que pelo poema faz toda essa mágica.
Meu consolo é que o próprio João se dizia pouco à vontade quando resolvia se arriscar na prosa, e pasme: quando o fazia, sentia “não ser ainda capaz de dizer o que quer e como quer”, conforme afirmou Luís Costa Lima. Engraçado, pelo menos partilhamos dos mesmos sentimentos (ele na prosa e eu na poesia). Mas não me comparo assim a ele, não… na verdade, quanto aos meus feijões-palavra, se soprasse sobre eles para remover a palha e o eco… sobraria o quê? Intenção e não-dito. Felizmente, ainda sobram algumas pedras-mestras. E eu as ouço e as frequento.
Edna Regina Hornes - Edna Regina Hornes é revisora e tradutora. É formada em Tradução pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na bela Porto Alegre, e mestranda em Linguística pela mesma universidade. Atua especialmente com textos de pediatria (seus prediletos), cardiologia e psiquiatria. Para se divertir e se expressar, escreve desde que se conhece por gente (sem grandes pretensões que não sejam a autoexpressão), tendo como grandes companheiros o teclado e o lápis, mas só agora está começando a sair da toca. É, portanto, uma escrevedora. Também é autora da coluna Lambirinte-me, atualizada mensalmente aos domingos no site argumento.net
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Lindo texto, Edna. Parabéns!