Eu tenho uma flor. Uma violeta. Criei um método para regá-la de modo que nunca daria água demais para que ela se afogasse e muito menos quando ela não precisasse. Tal método consistia em perceber quando ela começasse a murchar, demonstrando, assim, que havia chegado a hora de regá-la.
Notei, porém, que por um certo tempo não perceptível por mim (é verdade: sou meio cega para essas coisas!), ela passou sede, enfraqueceu, e quando já dava demonstrações de desânimo (esse era o sinalizador que eu havia estipulado para começar a me preocupar com ela), eu então entrava em cena. Confesso que não é lá um grande método, mas foi o que eu consegui desenvolver para compensar minha falta de jeito e até de paciência com a ditosa, afinal, eu nunca consegui perceber o momento correto de regá-la para mantê-la sempre bem.
Às vezes (só quando me proponho interessadamente a isso), imagino o que passa pela cabeça da violetinha. Sentimento de rejeição? Percepção de que só se lembram dela quando está aos prantos, ou até já desiludida? Eu bem que poderia dizer que gosto dela, acho-a bonita, delicada… cobri-la de predicados, mas de que adiantaria? Bem-querer só se demonstra em atitudes de bem-querer, e nunca, JAMAIS, em simplesmente dizer que se gosta. Bem, é claro que as palavras são importantes, mas a violeta quer é a água, senão morre mesmo. Essa água, no entanto, só chegará à violeta à medida do meu interesse em cuidá-la, protegê-la, cultivá-la, impulsioná-la ao crescimento sadio e alegre. E, a despeito do óbvio, como tal interesse pode transformar uma existência, torná-la alegre, prazerosa!
Outra coisa que notei foi que a violetinha, nos primeiros dias, logo murchava pela falta de água. Parece, porém, que, com o passar do tempo (lembre-se: eu regava sempre no último instante), ela começou a se tornar mais resistente, demorava cada vez mais a murchar, tornando-se, talvez, mais independente e até insensível. Foi, então, quando cri que já estava dado o segundo passo para o fim de nosso relacionamento – o primeiro foi meu e só o descobri muito tempo depois.
Já faz muitos dias que não rego minha violeta, e ela ainda não murchou. Isso não me parece mais um bom sinal e, bem, começo a pensar que ela não precisa mais de mim.
Edna Regina Hornes - Edna Regina Hornes é revisora e tradutora. É formada em Tradução pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na bela Porto Alegre, e mestranda em Linguística pela mesma universidade. Atua especialmente com textos de pediatria (seus prediletos), cardiologia e psiquiatria. Para se divertir e se expressar, escreve desde que se conhece por gente (sem grandes pretensões que não sejam a autoexpressão), tendo como grandes companheiros o teclado e o lápis, mas só agora está começando a sair da toca. É, portanto, uma escrevedora. Também é autora da coluna Lambirinte-me, atualizada mensalmente aos domingos no site argumento.net
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