Eu amo o Rio. Morei lá quando pequena. Foi uma época foda pros meus pais. Muita falta de grana e muita falta de amor. Eu não morava na Zona Sul. A gente passou aquele ano de 79 pra 80 na Ilha do Governador. Mas uma tia do meu pai morava no Leblon.
Não foi um período propriamente feliz, mas eu fiquei com esse amor pela cidade, uma memória do cheiro, da umidade das calçadas de Ipanema e Leblon, o cheiro do suco, o queimar da areia da praia na sola do pé. Talvez porque minhas idas ao Jardim de Alá nos fins de semana pra visitar a tia e tomar picolé tenham ficado marcadas como momentos idílicos, um contraponto ao meu dia a dia em casa. Ou talvez não seja nada disso. Talvez embora hoje meus pais recontem suas histórias daquela época com tanta dificuldade, eu estivesse alheia a tudo isso e fosse simplesmente feliz do alto dos meus quatro anos.
Três anos atrás exatamente eu estava lá de novo. Passeando. Hospedada no Marina, com vista pro mar, me vesti de carioca e fui de ônibus redescobrir o centro. No fim, a água dos olhos, o sal que me escorria pelas bochechas e meu olhar lento eram um contraste às caras de sexta-feira à tarde, e revelavam a cada passo meu na rua do Ouvidor, a minha verdade turista. Meu amor cresceu ainda mais com a beleza dos prédios, a sensação da história. Minha visita sentimental teve seu apogeu na Confeitaria Colombo, onde fiz esse quase-poema:
Confeitaria Colombo
Dois reflexos no grande espelho da direita.
No andar de cima,
uma dona, de boné dourado e short exibindo pelancas, passa apressada entre cadeiras guiando seu gringo de bermudas brancas.
Logo abaixo, ao lado do piano,
uma jovem dama-perdida no tempo – inspira e expira devagar,
sorvendo o estabelecimento a goles demorados de prosecco.
Petrucia Finkler - De volta ao Brasil, vive em São Paulo, depois de uma longa estada em Chicago. Antes de redescobrir sua paixão pelas artes cênicas nos Estados Unidos, era repórter e apresentadora de televisão em Porto Alegre, RS. Formada em jornalismo pela UFRGS, esta é a segunda vez que ela participa no Argumento, e está muito feliz com este retorno.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Petrucia Finkler
Foi muito legal quando cheguei ao Rio, peguei um táxi e fui até à Galeria que tem no Largo do MNachado bons tempos! Lembro também de um campinho de pelada que tinha em frente a Rua Gonçalves Ledo. Foi ali que comecei a dar meu show no futebol de pelada tendo tido convite até para treinar em um time pequeno, mas para mim jogar futebol no Rio é mesmo fenomenal.