// você está lendo...

categoria: DRY MARTINI

VAI FICAR LEGAL

- Porra, sacaneou com aquele samba na Cohab, Xicão!
Eu considerava muito o Nego Xis, embora ele me assustasse com aqueles tantos gestos mil em fotos, várias treta cá, vários manos lá. Uma época até que tava firme, duvidei de historinha com Zé Kéti e Nogueirão, mas não é que era verdade? Só que daí, um dia lá na Suellen, chegou com tudo.
- Nhé, tu vê, há uma cara de pandeirinho na mão. Os lóque não querem mais saber disso, falta um beat na parada, Nininha.
Foi lá e fez mesmo o corre – daquele jeito. Chegou o verão, atucanei.
- Mas tu te meteu a grande, negão. Que buceta é essa? Cadê a turma do Estácio? Se é esse teu problema, lá também tinha mano, Mano Rubem, Mano Egdar. Que porcaria é essa?
(Não me ouviu, menosprezou o breque e a gafieira – pô, deixa assim, deixa assim.) O Nego Xis foi pro povo, ligou as bases, inventou um scratch que ninguém entendeu. Não deu uma hora e pifou a porra toda. Quando vê, até choque levou, o cabelinho de pé. Fiquei rindo e fui embora; um dia depois ligaram do hospital.
- Puta la vida, Xicão morreu?!
Luto na Cohab, churrasquinho no enterro.
- Ô, Nina, quê que a gente vai pôr lá pro negão? As velhas tão querendo marchinha fúnebre.
E essa de fato era uma dúvida, o que a gente ia pôr pro negão? Se é pra se mandar, tem que se mandar na categoria, tô mentindo? E, olha, eu avisei, eu dei o toque. Quem faz pouco causo do meu samba, leva chumbo.
- Demorô, léssie, pro negão um beat na bunda dele. E, no som, põem lá: tu vais ao samba ver as línguas que falam de mim sem razão; a você, sabes que o mulato é sincero e tem critério até morrer.

Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Mariana Melleu

Comentários

Sem comentários para “VAI FICAR LEGAL”

Deixe um comentário