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categoria: DRY MARTINI

UM SE VAI; UM FICA

A tristeza das lembranças que ficaram, mesmo depois que tu se foi, junto com meus clichês incuráveis se encarregam de não me deixar dormir bem à noite. Eu fico me perguntando por que certas coisas acontecem. Teu sorriso que nos mantinha longe da loucura cotidiana, tuas piadas necessárias em momentos inoportunos… tudo tá numa gaveta cinza, e talvez agora preta, com meus pensamentos mais recônditos. Esse acidente, embora só tenha virado parte de mais algumas estatísticas de jornal, mudou minha vida. Te levou pra longe, pra algum lugar que talvez nem exista, onde eu não sei se consigo chegar. O mais engraçado era que a gente realmente se entendia, quando a gente falava mal do mundo, quando a gente petulantemente inventava gêneros musicais, tentando arranjar uma trilha sonora pra nossa vida que fizesse jus aos nossos momentos tantos. Eu sabia que não tinha esperança e aquele corredor branco, com cadeiras velhas e macabras, não deixava eu me esquecer disso. Quando o médico veio e deu os pêsames, foi só a consequência. Eu não chorei, eu não podia chorar, eu não queria. A gente prometeu que ia durar mais, que a gente ia durar muito mais do que um silêncio de vergonha antes do primeiro beijo, do que um copo de cerveja quente em meio às conversas pequenas, e acho que na minha cabeça a gente ainda vai fazer isso valer – continuo contraditoriamente incrédula, com a minha falta de autoestima e religião. Hoje decidi que não vou deixar passar, que eu não tô pronta ainda pra te deixar passar. Eu ainda quero muito rir contigo na cama e deixar tu contar as pintinhas do meu corpo, eu ainda tenho muito o que aproveitar de nós. Eu acho que te amo.

Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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