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categoria: DRY MARTINI

LIFE ITSELF HAS GIVEN ME THE ANSWER

Em vão, tentou se desfazer do criado mudo que sua mãe lhe dera. Com ele iria embora toda a dor que o fizera largar o trabalho, a mulher, o único filho e, jamais poderia admitir, a cerveja barata ao fim das tardes. Passara aqueles últimos anos vivendo da vida. Uma hora ganhava um trocado ajudando a lavar pratos no Fornão, outra hora, já era fim de mês, e vinha algum trocado da aposentadoria. Era assim que passava o tempo, adormecido nos próprios desacertos, que não eram tantos, mas eram, dizia, o suficiente para manter o olho aceso. Ficava cansado antes, quando trabalhava na obra da Ponte Sá, e agora começava a ficar mais cansado ainda do ostracismo ao qual sua rotina havia cedido. Questão de culpa? Estava em dívida com a alma?
Ficara sabendo de um cara por aí, pelas bandas do Partenon, que diziam as más línguas ter rompido com as concepções eruditas do poder. Poder de quem?, pensava. Ele mesmo já havia sido forte um dia. Pessoas já o obedeceram de certa feita, sua palavra era ordem. Poder é uma palavra engraçada. Ceder mais ainda. Nos remete àquele velho significado de desajustes sociais, são os dispositivos do meio-termo. Anna Karenina já lhes dizia isso, podemos passar pela vida sem alcançar o meio-termo. Nem um extremo, nem outro.
Sua velha, quando completara os oitenta anos, ganhou nada além de um abraço contido. E não era mentira, seus sentimentos por ela já não tinham ânimo. Pensara em lhe dar uma fita de música clássica. Muito bom gosto, caso não fosse de versões das marchinhas fúnebres. Em seu apartamento, não cabiam mais visitas. E o sofá, depois de agosto, passou a combinar, e até dar certo ar de graças, com as flores mortas na janela. Era como o narrador russo dizia, e tinha a sua razão: todas as famílias felizes são iguais, ao passo que as infelizes o são cada uma à sua maneira. Era um tempo difícil, jamais se negaria. Poderia, então, esperar e morrer de fome, de sede, de doença, de tragédia, mas jamais se livraria do criado mudo. Porque com ele iria embora a dor – e isso era tudo o que ele tinha.

Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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