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categoria: DRY MARTINI

O OLHO QUE RESPONDE

Marc Jimenez já nos expunha, em seu clássico “O que é estética?”, que “[...] dificilmente podemos admitir que o prazer seja uma espécie de dado em estado puro na obra de arte. [...]” (JIMENEZ; MARC, 1999, p. 385.) Afinal, no que se resume o fazer artístico, caso possa ser resumido, quando não agregamos a ele um valor pessoal?

É auto-explicativo que nossa vivência influencia a perspectiva da obra de arte, ao passo em que retomamos o visual para, justamente, transformar o nosso dia-a-dia. Como cidadãos, nos tornamos os vilões e, ao mesmo tempo, os reféns das tão inconclusivas Belas Artes – somos um dos elementos mais essenciais quando se trata da base teórica, dos conceitos e das definições técnicas, embora venhamos a ser completamente desarmados em se tratando dos momentos de apreciação.

Há tempos deixou-se de lado o vazio interpretativo acerca das manifestações artísticas, mesmo com o advento das novas tecnologias – as quais, segundo alguns defendem, inclusive auxiliaram na difusão das mesmas. Cansou-se das vidas cinematográficas, das realidades inatingíveis, do show do paraíso. Também devido a isso, por exemplo, diz-se que “[...] o que caracteriza o filme é não só a forma como o homem se apresenta perante o equipamento de registro, mas também a forma como, com a ajuda daquele, reproduz o seu meio ambiente. [...]” (BENJAMIM; WALTER, 1955, p. 15.)

As nossas lacunas existenciais, as nossas aflições – e por que não? – físicas, assim como o prazer dos sentidos e a nossa própria alegria são, constantemente, a temática do pitoresco, daquilo que é considerado arte. Devido a isso, estabelecem-se os paradoxos da sociedade contemporânea. Transpassam-se os valores individuais do homem para a obra de arte e, por isso, perde-se um pouco da idéia de utilidade e de razão funcional para a sua existência – isto é, a arte pela arte. Simultaneamente a isso, no entanto, os tempos modernos ditam os novos ideais de vida, nos quais há espaço apenas para o proveitoso, para o instantâneo e para o veloz – e sobressai-se, aí, a arte aplicada. É sob essa ótica conceitual das contraposições artísticas que, em seu “Argumentação sobre a morte da arte”, Ferreira Gullar pondera: “[...] o urinol, que Duchamp enviou a uma exposição de arte, torna-se o símbolo da estética atual: não há diferença qualitativa entre um desenho de Klimt e um borrão de tinta, entre uma escultura de Brancusi e um caco de telha, uma obra de Rodin e um urinol. Só que ninguém preferiria colocar em sua sala, em lugar de uma obra de Rodin, um urinol comprado na loja da esquina. [...]” (GULLAR; FERREIRA, 1993, p. 54.) Isto é, o homem moderno procura desvencilhar-se da asfixia estética, mas, para isso, também abre mão de seu objetivismo. É, enfim, a inadimplência aquilo que ele realmente procura na arte – a beleza da suas próprias contradições tornando-se visuais.

Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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