Não sabemos mais questionar. Ficou para trás o fundamento, deu-se lugar ao pífio, à apreciação inverificável. Compreender não se resume à análise crítica, porque depende também da alteração que essa pode trazer às nossas vidas. Isso acontece? Por que nos acomodamos nessa manta de indignação efêmera? Por que, então, não raro nem indignados ficamos? O contexto da comunicação absorve, além da nossa capacidade de nos relacionar, a nossa falta de disposição para isso. E há quem diga que somos seres sociáveis. Não existe História sem memória e não existe memória sem interpretação. A pergunta é: sabemos, ao menos, o que interpretar significa? Foi construída a Língua Geral em época de colonização – tentou-se, assim, evitar o embate, a revolta, o questionamento, a diferenciação. Afinal, por que os negros teriam também o direto de opinar? Um absurdo. Dessa época, ficou a herança maldita. Conservaram-se atrasos em nossas mentes, as quais sempre sonharam escondido com o especifismo, mas permaneceram estagnadas, à beira da acomodação. A importância do público transformou em passado o apelo individual, mas – quem diria – ainda pensamos em dominação. E isso é bom? É ruim? É óbvio? Religiões criminosas, corrupções mascaradas, indiferença. Relativizou-se tanto os conceitos de extremos, a ponto de nos emudecermos frente à fotografia do nosso contexto social. Enxergamos a nós mesmos ali, inertes, enxergamos nossos reflexos tão ocos. Ante a televisão, baixamos a guarda para a liquidez da falta de valores, limites, argumentações, e nos sentimos confortáveis – até o minuto de enxergar a realidade. Nos convencemos de que ainda nos surpreendemos com o “ao redor do mundo”. Sentamos na sala, pegamos o controle remoto e é dado início ao faz de conta. Ponderamos, opinamos, esbravejamos, quando na verdade permanecemos mudos.
Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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