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categoria: DRY MARTINI

NEM PAZ, SÓ ESPINHOS E DESAMOR

Ela saiu de casa, jurando que até às seis estava de volta. Levou consigo a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca, o tênis de lona. Cruzou a primeira esquina e já se sentia sozinha. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a si mesma, estranha aos demais, sem nada a contemplar. Odiava a vida, as almas perdidas, os fins de tarde e o amor. Um reflexo de tempo, não explicado pela física, nem por ciência divina, podia ter mudado tudo, podia ter dado voz ao mudo, trazido paz ao resto. Estava só, realmente, mas não podia constatar ao certo. Aos seus dias fatigados ignorava, aos sonhos debelados enganava, às lembranças remotas fugia, aos pensamentos desvanecidos escondia-se – nada era tão insensato assim. E corria ligeira, com a sombra pequena e, à santa ingênua, queria lograr. Mas viu a primeira, tão linda e tão clara, parecia uma rosa e se apaixonou.

Ah, aquela esquina, tão curta e tão fina, que definiu essa atração. Porém, não queria, não. Podia errar, a outra ferir, fazer Satã sorrir ou simplesmente chorar. Voltado ao reflexo, ainda um mistério, não criaram critério, mas levaram ao fim. Foram só seis segundos que, embora escassos, passaram e nem as estrelas pararam, mas o vento bradou. Beijaram-se forte, como se tudo fosse acabar. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a si mesma, estranha aos demais, sem nada a contemplar. Sentiu um calafrio, um intrincado vazio, perdeu o pavio, queria gritar. Nada havia acontecido, porque aquela, com a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca e o tênis de lona, havia cruzado a esquina. E o resto foi pura falsídia, uma ilusão.

Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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