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categoria: DRY MARTINI

ME DEIXA CRER QUE ATÉ AQUI NADA MUDOU

Eu tive a impressão de conhecer uma pessoa há tantos anos. Os ritmos certos, as mesmas ideias inadmissíveis. Somos únicos, nos sentimos assim, sabemos tudo, podemos tudo mais ainda. E, depois, o que eu deveria fazer com isso? Relação, planos, compromisso, promessas que jamais serão cumpridas, deveres sentimentais? Eu começo a acreditar que realmente eu sou diferente de tudo? E tudo é tão rápido que, talvez, eu possa dizer que valeu a pena antes mesmo de ter começado. Eu aposto no bom senso alheio? Ou eu vou embora, sumo, tchau? Eu me sinto culpada por alguém depender tanto assim de mim, eu me sinto metade vadia e metade ciente. Mas estar ciente é algo tão vazio. Eu perdi já aquele tesão pelos segundos juntos e mal olho na cara daquele que poderia ser Aquele a quem todo mundo espera.

E eu?

Eu espero passar a excitação ou tento simplesmente aprender a gostar da companhia? Eu tento reatar comigo mesma o que um dia a gente teve, ouço aquela música do acervo brega que me faz querer morrer. Ou eu apenas olho pra trás, nostálgica e hipócrita assim mesmo, e penso na quão absurda perda de tempo foi ter concorda em viver ilusões. E daí eu quero fazer, e faço, qualquer coisa que me torne menos humana, que faça eu perder o sentido. Ou eu tento de qualquer maneira, desesperadamente de qualquer maneira, que o mundo concorde com as minhas ideias. Eu lembro, e lembro, e lembro. Eu lembro das brigas que resultaram em sexo, das brigas que resultaram em lágrimas, das brigas que resultaram em mais brigas, das brigas que não resultaram em absolutamente nada. Eu arranjo outro vício, espelho, álcool, mutilação, dinheiro, só pra me desvencilhar da minha própria mente. E, depois, o que eu deveria fazer com isso? Reler cartas antigas, tentar apagar as lembranças que talvez nem lembranças sejam mais? Eu carrego o que tiver que carregar, sozinha, ou eu me acabo pensando nas tantas madrugadas ouvindo Mingus? E odiando, odiando, odiando, porque tudo o que eu sei fazer é odiar. E talvez eu ainda acorde todo o dia, orgulhosa, pateticamente forte, fingindo que eu sou assim, fingindo que eu consegui esclarecer a vida. Ou talvez eu tente acreditar que, na próxima parada, vai estar lá aquele que poderia ser Aquele a quem todo mundo espera. Eu vou ter a impressão de conhecer essa pessoa há anos. Os ritmos certos, a mesmas ideias inadmissíveis…

Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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