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categoria: MURAL

SOBRE O “DESPREPARO” DOS PROFESSORES

Bonita a matéria sobre Vilson Zattera (gaúcho com deficiência visual que conquistou título de doutor na Universidade de Washington, nos EUA, página 2 de 29 e 30/05/2010. Para ler a matéria clique em: Pioneiro). Mas a redatora escolheu mal a palavra ao dizerdespreparo dos profissionais do ensino”.

 

Como Zattera não consegue ler a matéria sobre ele mesmo no Pioneiro impresso, isto faz da jornalista uma despreparada? Ou o que ela faz bem não está acessível a ele, porque isso dependeria do meio para a leitura estar em braile? É uma questão para se pensar, pois toda atividade tem suas especificidades. Não é porque a estrutura (jornal, escola, etc) nãoconta, ainda, desse fato da realidade que os profissionais são “despreparados”. É o mundo que está se adaptando às necessidades especiais, e não somente os profissionais que são despreparados.

 

Há uma diferença na maneira de dizer essas coisas para não se atingir a imagem de uma categoria profissional inteira. Ninguém diz que um jornalista é despreparado porque os cegos não conseguem ler o jornal impresso. Acredito que os jornalistas fazem seu trabalho bem, e o meio é que tem que estar adaptado aos deficientes visuais (braile ou programa eletrônico de text to speech).

 

A mesma coisa pode ser dita dos professores, que fazem seu trabalho bem, inclusive, lidando como podem com muito mais situações imprevistas do que a academia se propunha a ensiná-los. Chamar professores de “profissionais de ensino despreparados” é verbo frouxo, é palavra leviana, coisa que é fácil repetir sem saber do que se está falando na verdade. Ainda, no caso da matéria, soa no mínimo estranho dizer que os profissionais de quarenta anos atrás eram “despreparados” para ensinar para um cego. O mundo cultural e de consumo nem pensava em se tornar acessível às pessoas portadoras de necessidades especiais. Mas os professores de Vilson Zattera ensinaram-lhe bem, ao que parece, e tanto que chegou ao doutoramento.

 

Não estou dizendo que não deve ter sido difícil para ele, como também deve ter sido difícil para os professores que assumiram o desafio. Por isso que é extremamente leviano chamá-los de “despreparados”. Despreparo, de fato, talvez seja o de alguém que, trabalhando diariamente com a palavra, não sabe lhe dar o acabamento no texto para não ofender uma categoria inteira.

 

Concordo que não há uma estrutura de acessibilidade universal pronta (nem na cidade, nem nas escolas). Há alguma coisa sendo feita, e muito aindapor se fazer. Estamos no meio de um processo de adaptação que certamente ainda levará décadas. Mas o que chama atenção, de uma maneira geral na imprensa, é o fato de que é muito fácil chamar os professores de “despreparados”, até nos casos bem-sucedidos apesar das condições adversas.

 

Outro dia um colunista, do Pioneiro mesmo, conseguiu, ainda que de forma muito confusa, realizar a façanha argumentativa de atribuir à escola a responsabilidade pelos folgados que estacionam em fila dupla

 

Para retomar a comparação entre o trabalho do professor e o do jornalista e o que é o “despreparopara lidar com as necessidades especiais, vou dizer assim: não é porque o Pioneiro não faz uma parte da sua tiragem em braile que seus jornalistas são despreparados. Há que se dizer isso de outra forma. Aliás, as escolas estão se adaptando, há leis que exigem isso. Mas quando falaremos em jornais diários publicados em braile, possibilitando a todo cego alfabetizado essa possibilidade de leitura? Sabe-se que o custo disso seria muito grande. Por isso talvez os cegos tenham que esperar muito tempo até poderem ler qualquer jornal diariamente.

 

Enquanto isso não acontece, não é demais esperar que os que escrevem nos jornais pensem nos que leem. E também nos que ensinam a ler, que talvez não mereçam o estatuto de saco de pancada da imprensa. Tanto os que leem como os que escrevem devem essa competência a seus professores.

- Professor de língua portuguesa e de língua inglesa, trabalha atualmente na Rede Municipal de Ensino em Caxias do Sul. É mestrando em Teorias do Texto e do Discurso na UFRGS, universidade onde se graduou e se especializou em Estudos Linguísticos do Texto. Nas raras horas de tempo livre, quando inspirado, compõe música e escreve um pouco de tudo.
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