A tecnologia só é tecnologia para quem nasceu antes dela ter sido inventada.
Alan Kay
(Pioneiro da computação pessoal)
O medo do novo é algo natural quando se analisa, mesmo que superficialmente, a história da humanidade. No passado, quando alguns visionários começaram a alardear que a Terra era redonda ou que ela, ao contrário do que se acreditava, não era o centro do universo, foi um verdadeiro Deus nos acuda. Muitos foram os debates e, infelizmente, muitos foram os condenados, não só ao silêncio, mas também à morte.
Em tempos mais recentes, e guardando as devidas proporções, observamos movimentos semelhantes. O surgimento da TV iria fazer com que o rádio deixasse de existir. Os equipamentos de VIDEOCASSETE fechariam as portas dos cinemas. Enfim, novas ideias, e, no caso dos exemplos anteriores, novas tecnologias, sempre assustam um pouco, fazendo-nos crer, por breves instantes, que “o fim dos tempos está próximo”.
No final de 2009, uma outra polêmica, envolvendo um novo dispositivo, dominou muitos segmentos da imprensa, assim como vários sites da internet. Estou me referindo ao lançamento, pela Amazon, do Kindle, um aparelho para leitura de livros. Logo que ele foi lançado no mercado, a pergunta que mais apareceu em todas as mídias era se o livro em papel estaria fadado ao desaparecimento. E aqui, repetindo situações de outros tempos, várias vozes se levantaram: desde aquelas dispostas a exaltar a novidade até as que passaram a ver nesse aparelho mais um candidato a cavaleiro do apocalipse.
O grupo mais entusiasmado por essa nova tecnologia acredita que a facilidade para acessar, manusear e transportar várias obras ao mesmo tempo decretaria não só a extinção dos livros em papel, mas também o fim das bibliotecas. Afinal, quem vai querer em sua casa objetos (no caso livros) que acumulem muito pó e, consequentemente, tenham de ser limpos um por um? No entanto, como em qualquer debate, sempre existe o outro lado e aqui também vamos encontrar aqueles que defendem com unhas e dentes o domínio do papel sobre qualquer tecnologia inovadora. Não adianta argumentar que nesses novos equipamentos se poderá ler no escuro porque a tela é luminosa, havendo espaço para apontamentos e observações, ou, ainda, que ele é tão leve e fino que será possível ler um livro de mil páginas sem o perigo de se desenvolver uma tendinite. Nada disso importa. Para esse grupo, igualmente entusiasmado, a grande satisfação – ou será fetiche? – está em sentir a textura e o odor do papel em suas mãos enquanto se desfruta do prazer de uma boa leitura.
Realmente, muito ainda se irá discutir até que esses dispositivos estejam ao alcance de todos. No entanto, me parece que essa é mais uma novidade difícil de ignorar. De minha parte, acredito que assim como o rádio, a TV, o cinema e o DVD continuam a coexistir pacificamente, o mesmo irá ocorrer com o livro em papel e o eletrônico. E do mesmo modo que aceito que o livro eletrônico não vai eliminar o livro em papel, também estou convencida que esses dois meios, se trabalharem em conjunto, e não um contra o outro, poderão atrair mais pessoas para a prática salutar da leitura.
É como disse o autor português José Eduardo Agualusa: o que importa não é o recipiente, mas a substância. Portanto, me parece que, no momento, o mais acertado é permanecer com a mente aberta, aceitando o que nos parece positivo e deixando em suspenso, sem querer eliminar de imediato, aquilo que hoje nos assusta. E, assim, todos seremos vencedores por que, como já afirmei reiteradas vezes, o importante – o essencial – é ler.
Margarete Hülsendeger - Professora de Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. Autora da COLUNA QUEDA LIVRE, atualizada quinzenalmente aos domingos.
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