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categoria: MURAL

CINCO CENAS, TRÊS POEMAS

Cena 1: Chegou cedo em casa para curtir um sofá como última etapa do dia. Gostava de ficar ali, com o controle remoto como companhia, procurando este ou aquele canal da TV que pudesse despertar algum interesse momentâneo. Sem culpa, sem vontade de articular outra coisa que não fossem os dedos da mão, acomodou-se no sofá verde, pernas esticadas, costas eretas, a posição certa para assistir seja ao que fosse.

 

Cena 2: Chegou cedo em casa para curtir a companhia da filha, de volta ao lar depois de tanto tempo. Sentaram-se no sofá verde, lado a lado, conversando sobre tantas coisas que não tinham ainda sido ditas, nem no msn, nem no telefone a cobrar. Precisavam agora deste tempo juntas, sem culpa, sem vontade de articular outra coisa que não fossem os braços, nos abraços, na ternura de mãe com filha.

 

Cena 3: Chegaram juntas em casa e sentaram, como de costume, no velho sofá, ligando a TV para curtirem juntas algum programa inesperado sobre arte ou moda, ou mesmo para verem a novela das nove que há muito não viam assim, juntas, sem culpa de se deixarem levar pela trama de sempre, pelos mesmos atores e atrizes, pela história tão conhecida e reconhecida.

 

Cena 4: Estavam vendo qualquer coisa, para não perder o hábito de ficar com a TV ligada quando, sem mais nem menos, o bairro todo ficou negro, na mais completa escuridão, a casa num silêncio incômodo. Esperaram no sofá verde. Nada, nem um som, nenhuma luz. Buscaram  velas e ficaram ali, uma com a outra, apenas vultos, mãe e filha, a noite silenciosa de outros tempos.

 

Cena final: A noite silenciosa convidava ao jogo de palavras. O livro de Arnaldo Antunes no sofá, a mãe leu para a filha que pedia: mais uma, mais uma…

Pouco a pouco, esqueceram-se da luz que não vinha, do silêncio fora e, uma com a outra, buscaram um jeito de ser feliz, de ser criança, do prazer das descobertas, das primeiras frases, das rimas, dos versos, dos risos, dos abraços

 

O raio não é uma palavra bonita,

O raio grita

Às vezes é mudo

E rima com tudo

O raio é amigo da chuva

Cai do céu como uma luva!

 

A luz da vela

Treme ao vento

O vento escabela

A árvore do jardim

A noite sem luz

È uma noite sem fim.

 

Os galhos lá fora parecem espionar

Pela janela da sala de estar!

 

Outubro, 2009

Ivone Rizzo Bins - Artista plástica e arte-educadora, formada pela UFRGS. Trabalha no ateliê Prima Idea, leciona artes no Colégio João XXIII. Participou de exposições individuais, coletivas e salões. Ilustrou, por dois anos, o caderno Mulher da extinta Folha da Tarde de Porto Alegre e foi Supervisora do Espaço Educativo da 4a, da 5a e da 6a. Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Site: ARTE, POESIA E CAFÉ
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Comentários

3 comentários para “CINCO CENAS, TRÊS POEMAS”

  1. Parabéns Ivone! Adorei as tuas cenas de vida.

    Estamos tão acostumados a nos deixar levar que quando surge a oportunidade de apenas curtir sem compromisso, ficamos com medo de estarmos fazendo algo errado.

    A ausência de luz e, como consequência, da TV e do controle remota nos obriga a olhar para o outro e para nós mesmos.

    Gostei demais de te ler.

    Margarete

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | December 1, 2009, 18:15
  2. Ivone! Lindo texto, parabéns!!!
    Tua sensibilidade como sempre me encanta. Gostei muito do jogo entre as cenas: mãe e filha; a TV e o sofá; a falta de luz e os momentos de vida que constroem nossos relacionamentos.
    Não deixa de escrever…
    bju Gilka

    Posted by Gilka | December 2, 2009, 17:02
  3. Sinto orgulho de ti, minha filha;quanta sensibilidade, quanta ternura!
    Bjs
    Msrlene

    Posted by marlene | December 2, 2009, 22:41

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