Lembro-me perfeitamente daquela brisa agradável. E a bandeira, que se destacava na imensidão azul, como se bailasse no alto do mastro, sombreando uma pequena porção do solo.
“Buenos dia, Hermano!”, disse meu amigo castelhano com um tom amigável.
“Olá!”, responde, voltando à lucidez.
“Estavas admirando tu bandera? Yo prefiro el azul e blanco!”
“Tu e teu patriotismo. Gostaria de saber o que é realmente amar uma pátria, mas este sentimento não chegou a mim. Amo apenas minha pequena república, coberta de façanhas e tradições: a República Rio-Grandense” , disse com paixão, fitando as cores da bandeira, sempre dançante no topo.
Continuei a cavalgar pelas coxilhas dos pampas. Meu corpo jovem e indomável só tinha um rumo: explorar minha querência. Meu amigo castelhano, fiel companheiro, tirava-me a solidão das campereadas, tornando-as prazerosas. E meu cavalo crioulo cortava os ventos, que me acariciavam a face nua.
Findava o dia do mês de julho de um ano do qual não me recordo. Aquela noite fixou-se em minha memória. Ainda sinto um frio subir-me a espinha ao lembrar. Meu amigo castelhano dera a idéia de dormirmos nas Ruínas de São Miguel e eu, jovem e ingênuo, aceitara a sugestão. Tudo parecia normal na noite em que o Minuano assobiava seu canto gélido.
Como de costume, acordei para ir ao “banheiro”. Mas ao voltar à companhia de meu sonolento amigo, senti que não estávamos sozinhos naquela neblina úmida que pairava sobre nós. Cauteloso, deitei-me sobre uma marquise em ruínas do andar superior da antiga igreja.
Enquanto observava o ambiente em volta, percebi algo se movimentando em minha direção. Como estava no chão, dificilmente notaria minha presença. Longos instantes após a primeira observação, já percebia o vestido branco e os longos cabelos femininos soltos no ar. Era uma imagem fantasmagórica, e se tornou aterrorizante quando percebera minha presença e passara a fitar-me.
O pavor não me permitia o uso da fala. Logo, não pude chamar o argentino. Instantes depois, a coragem havia vencido o pavor e empunhei a adaga. A figura feminina continuava fitando minha posição, parada. Numa façanha inexplicável até hoje, transpus todas as barreiras que o medo pode erguer e fui ao encontro daquilo que me afrontara. Mas para impressionar até o mais racional dos homens, a tal figura desaparecera.
Naquela época, jovem devoto ao Negrinho do Pastoreio, cogitei ter visto Nossa Senhora. Mas apesar do medo experimentado, da santa não poderia tratar-se. Voltei para casa, sentindo saudades daqueles dias passados nos pampas e meu amigo portenho voltou para sua terra.
Ainda hoje, com a geada da vida caída sobre meus cabelos, lembro-me daqueles dias e me arrepio ao lembrar o vulto feminino daquela noite.
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