Desci as escadas do prédio, sem pressa. Tinha acordado uma hora mais cedo para ir à faculdade. Transpassei a bolsa pelo corpo, já que carregá-la em um só ombro não me deixava confortável. Abri o fecho externo para guardar a chave de casa. Provavelmente, a pessoa que ler isso vai querer saber meu nome. Lamento, não saberá. O que você precisa saber são minhas características. Desde muito cedo, acredito que, desde o jardim de infância, fui conhecida por ser muito calada, introspectiva, e por que não dizer, antissocial. É de conhecimento comum que toda a ação tem uma reação. O que não era de conhecimento comum é que minhas características eram a reação.
Virei-me e, um segundo depois, meus olhos vidraram na figura escura e quase irreconhecível que se postou a menos de dois metros da entrada do meu prédio. Um bêbado, emanando um desagradável cheiro de álcool em toda a extensão do que um dia deveria ter sido sua roupa. O simples cheiro me despertou a memória. Minhas pernas fraquejaram, os olhos teimando em liberar pequenas lágrimas e meu coração já não seguia seu ritmo.
Eu tinha sete anos, e estava andando de mãos dadas com minha mãe, que caminhava cada vez mais apressadamente, quase corria. Não podíamos nos atrasar. Infelizmente, foi o que aconteceu. Meu pai já havia chegado em casa, pois a porta estava escancarada e quase todas as luzes da casa estavam acesas. Ele carregava algo na mão direita, que, da calçada, eu não conseguia ver nitidamente. Não precisava ver para saber. Bastava cheirar. Caso o fizesse, minhas narinas absorveriam aquele cheiro de álcool. Ele levantou da cadeira, ainda com a garrafa na mão. Apontou para nós, e eu, covarde como sou, escondi-me atrás da mãe. Instantaneamente, ela me deixou no quarto com apenas uma fresta aberta na porta. Ele a xingou e agrediu. Gritou tão alto que meus ouvidos doeram. Chorei. Eu era impotente, inútil. O que poderia fazer? Pensei apenas em uma resposta: não cometer o mesmo erro que ela cometera.
Foi como um balde de água fria. Só percebi que estava parada quando um homem alto, seguido de outros dois moradores, empurraram-me, abrindo passagem. Eu ouvi as risadas abafadas. Irritada, ajeitei a roupa amarrotada. Definitivamente eu não ia, nem poderia, cometer o mesmo erro que minha mãe. Ter uma relação com alguém causa mais perdas do que ganhos. Só me traria mais prejuízo, dor e sofrimento. É algo sem o mínimo sentido. Eu estaria depositando toda minha confiança em uma pessoa tão humana quanto eu, que tem como tendência natural importar-se só com ela mesma.
Mas, ainda restava aquilo. Aquele buraco no meu peito que só fazia crescer. Um sentimento de… solidão. Talvez falta de não ter arriscado, de amigos, colegas, irmãos, de calor humano, de apostar em quem eu gostaria de ser. Falta de ser quem eu quero ser.
Talvez meu maior erro tenha sido não apostar em mim. Apostei na solidão.
Victória Dutra - 16 anos, aluna da segunda série do Ensino Médio do Colégio João XXIII
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Victória Dutra
PARABÉNS VICTÓRIA!
Lindo texto! Eu já sabia duas coisas sobre ti: primeira, que és muito sensível, e, segunda, que escreves muito bem. Agora, ao ler teu conto, só tive a confirmação.
Espero pode ler outros textos teus.
Beijos
Margarete
(prof e colega no amor a escrita)