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categoria: ADOLESCENDO

A FUGA

Eu não estou triste. O que seria estranho para qualquer um, pois qualquer um ficaria pelo menos triste se seus únicos amigos morressem num acidente de ônibus. Não sei nem se posso considerá-los meus amigos. Estou sozinho nesta ponte, assistindo o sol se pôr, e nem um pouco triste.

Tu deves estar achando que sou insensível, louco ou depressivo por natureza. Talvez eu seja mesmo, mas não me importo. Tenho a explicação, e se te interessares, conto. Sou muito precoce em tudo. Amadureci mais rapidamente do que os meus amigos. Tudo o que eles faziam parecia banal, idiota, infantil. Por serem meninos, eram mais infantis ainda. Nada que os deixava felizes tinha o mesmo efeito em mim.

Aos dezesseis anos, ao invés de ter uma vida inteira pela frente, eu sou um velho conformado e indiferente. Não tenho mais o ar ingênuo e curioso de outrora. Já experimentei todos os prazeres e todas as dores possíveis, e estou ciente de que não me resta mais nada. Tudo o que eu podia fazer, e até o que eu não podia, eu fiz. A única coisa que ainda não experimentei foi a morte.
Já tentei, é verdade. Mas eu era jovem, e os jovens têm mania de achar que qualquer amor não correspondido, qualquer vazio, desses inexplicáveis, significa o fim. Lembro-me muito bem, embora pareça ter sido há muitos anos. Eu estava numa fase de aproveitar a vida loucamente. Ia a muitas festas por semana, bebia mais do que devia e depois vomitava tudo. E foi nessa época turbulenta que eu conheci a Amanda. Eu tinha treze anos; ela, quase dezesseis. Era muito diferente das meninas com quem eu frequentemente passava as noites de sexta-feira. Tentei me aproximar, mas ela simplesmente me ignorou. Eu era tão importante para ela quanto uma formiga.

Resolvi que o mundo não era lugar para mim. Comecei a fumar, parei de sair, me afastei das pessoas e, depois de muito tempo, quando o nada dentro de mim ficou insuportável, cortei os pulsos. Continuei vivo, mas minha família, desesperada, me fez ir a um psiquiatra. Sobraram poucos amigos, com quem só saía por conveniência. Não podia falar com eles sobre as minhas preocupações, pois eles eram muito imaturos. Agora estão mortos, e acabo de lembrar que não estou triste por isso. No fim, cheguei à conclusão de que suicídio é uma fuga. E quando há solução, fugir é covardia. Então, continuei aqui.

Por pouco tempo, espero. O que sobrou de mim é menos que uma formiga: um corpo vazio que não se importa com nada. Não saio, não converso com ninguém, não rio, não faço nada. Não vejo por que continuar. Desta vez não é uma fase, e não vai passar. Não há solução, não é covardia. A água lá embaixo está serena. Subo na beirada da ponte e vacilo, mas estou decidido. Um passo para frente. Caio. Muito frio. Ignoro o instinto de sobrevivência. Dor física por dentro. Foi a melhor escolha?

Muito escuro, depois o nada. Tão rápido. Acabou.

Mariane Castiglio - Desenhista, escritora, guitarrista, dançarina, nadadora, estudante — Mariane, 14 anos, quer ser tudo ao mesmo tempo (e ainda quer que sobre um pouco para ser adolescente). A respeito de si mesma, a única coisa da qual tem certeza absoluta é sua paixão pela arte.
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Comentários

3 comentários para “A FUGA”

  1. MARIANE!!!

    Muito lindo! Senti a dor da solidão e do desamparo como se fossem minhas. Não queria estar na pele desse teu personagem. Ainda bem que é apenas um personagem.

    PARABÉNS!!!!!

    Beijos
    Margarete
    (professora e colega no amor pela escrita)

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | June 3, 2009, 8:23
  2. Eu odeio te dizer sempre “tá lindo nani, tenho inveja de ti” haha
    Mas é que eu não tenho outra coisa pra dizer.. todos os teus textos são ótimos, e muita gente que tem o dopro, o triplo da tua idade não consegue escrever do jeito que tu consegue, e tu só tem 14 anos p.p imagine quando crescer? haha
    Não pára nunca de escrever, porque vai muito longe, Nani.

    Posted by Isabella | June 5, 2009, 11:36
  3. Adorei, Mari! Super bem escrito! Eu não digo? Tu és uma artista!
    xxx beijos xxx
    Márcia Seibel

    Posted by Márcia Seibel | June 9, 2009, 9:48

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