A: Desculpa pelo atraso. Esse centro ainda acaba comigo, que calor! Quanta gente! E ainda…
B: Tudo bem?
A: Melhor que nunca. Tô tentando achar o cara do isopor pra comprar uma água.
B: Comigo também, tudo tranquilo, caso queira saber.
A: Eu quero.
B: Mudei durante esse tempo, sabe. Como é que chamam mesmo?
A: O quê?
B: Quando as pessoas se transformam, crescem…
A: Amadurecimento?
B: É, isso, eu amadureci. Sabe, eu senti tua falta. Mas eu não te culpo.
A: Eu não me arrependo de nada.
B: Tu não merecia tão pouco de mim. Queria mesmo que tu me desculpasse.
A: Não tenho do que reclamar; afinal quem sumiu, oficialmente, fui eu e não tu. Embora eu acredite que isso fosse acontecer de qualquer jeito.
B: É ridículo querer ser amigo depois de tudo, eu sei. Mas a gente sempre se deu tão bem. Eu gosto muito de ti.
A: Sabe, às vezes eu lembro de umas conversas que a gente tinha… a gente ria de todo o mundo e falava tão mal de qualquer sentimento. A gente se divertia.
B: Quem diria… eu, agora, namorando…
A: E lembra de como tu conheceu ela? Que ironia, meu deus.
B: Tu tá bonita, sabia? Da última vez que te vi tava bem diferente.
A: Ah, na praia?
B: Tava engraçada, toda vermelha.
A: E o teu amigo? Faz tempo que não falo com ele.
B: Tá tranquilo. Tava namorando também, mas já não tá mais.
A: Eu acho engraçado, sabe? Tanta coisa aconteceu nesses últimos tempos… eu pensava muito em ti as vezes.
B: A gente é diferente, eu continuo acreditando nisso.
A: Cadê o cara do isopor? Tô com sede.
B: A gente é feio. Talvez por isso a gente tenha sido tão feliz.
A: Só queria que tu deixasse de ser tão acomodado com as coisas. Eu pensava que era por causa da idade, mas não. Tu já não tinha mais dezessete anos. Que dirá agora.
B: Eu…
A: Queria que tu te desse conta dessa merda da tua capacidade, seja pro que socialmente é condenado, e investisse nisso, não só fingisse. Sempre te falei que teu problema era não ir atrás de algo importante pra ti. E eu vi tudo passar, eu vi tu deixar tudo passar. Daí, enchi o saco.
B: Agora tô estudando. Faço até trabalho.
A: Eu senti tua falta…
B: Lembra aquele teste vocacional que a gente fez na internet? A racional e o artista.
A: Verdade, eu lembro disso. Que patético.
B: E lembra da primeira vez que a gente se beijou? Foi aqui no centro até.
A: Hm, lembro. Que falta de classe da minha parte. Cair naquela tua lábia besta de cutucar meu ombro…
B: Funcionou.
A: Fato.
B: Sempre gostei de ficar contigo, conversar contigo; até teus trocadilhos infames que às vezes nem tu entendia…
A: Os teus não eram lá essas coisas também.
B: Que merda.
A: Tem uma coisa, sim.
B: Ãhn?
A: Tem uma coisa que eu me arrependo, sim. Queria ter, sei lá, insistido mais. Eu queria ta lá vendo tu mudar, queria tá lá pra, provavelmente, fazer alguma piada sem graça.
B: E aquela noite que, depois de tudo, a gente ficou a madrugada inteira contando piadas de ponto?
A: Bando de bêbados. Acho que vou desistir do cara do isopor. Que calor. Tu não tá com sede, não?
B: Tô bem.
A: Eu lembro de quando a gente se conheceu. Me mandou à merda logo de cara.
B: Tu respondeu…
A: Depois ficou reclamando que a caixa do Tolstói tava muito cara na livraria. Eu devo ter pensado “que intelectual do caralho” ou algo parecido.
B: Eu era metido mesmo.
A: Eu ainda sou.
B: Não quero tentar recomeçar essa coisa, seja lá que nome tem. Eu só quero que tu aceite de novo minhas compulsões, minha música fudida, minha completa falta de qualquer porquê.
A: E eu lá alguma vez gostei das explicações?
B: Por que a gente não dá certo junto?
A: Deixa de ser babaca. Sempre te disse, se a gente desse certo não ia ter graça.
B: Tu sabe que não vai mais ter outras pessoas. Elas vão existir, vão ir, voltar, é verdade. Mas o que que elas vão ter com a gente?
A: É o risco que se corre.
B: Isso não te incomoda?
A: Esse calor me incomoda. Cadê o cara do isopor, cacete?
B: Tu não muda mesmo.
A: Eu ainda tenho aquilo tudo escrito, cada palavra, cada ódio, cada discrepância nossa em relação a, quem diria?, nós mesmo. Eu tenho aversão ao teu cheiro na minha pele e eu não aguento mais fingir que não me acostumei.
B: Não sei quem é pior. Mas vai ver um dia a gente vai tá casado, longe no mundão.
A: Ou vai ver a gente se convença que a obviedade das nossas opiniões acabe de vez com alguns sonhos, talvez até loucuras. Tu não entende?
B: Eu entendo até demais. E eu queria não entender, pra de repente conseguir deixar pra lá.
A: Tudo que eu repudio… Eu não funciono assim. Eu não quero um sim, um não, eu não quero um bom dia feliz, estabilidade. Eu quero tudo aquilo lá. Aquilo que ninguém sabe que existe.
B: Infelizmente eu quero isso também. Eu te amo.
A: Finalmente! Água! Tem troco, moço? Quanto tá?
Mariana Melleu - "Não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do coração, e lhe havia permitido entender por que os homens têm medo da morte."
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Derrubaste aquela parede vermelha com a mesma sabedoria de um vetereno mestre-de-obras.
Olá Mariana!
Gostaria de saber se vc fez esse texto se referindo a canção DON’T LET ME BE MISUNDERSTOOD…. nossa tem tudo haver comigo o dialogo escrito com meu ex….
Muito boa escritora.
Agradeço a atenção.
Parabéns