A leitura de “era uma vez um verão”, na Zero, de domingo passado, levou-me para o chalé de madeira com um avarandado ao redor, onde seis crianças brincavam até tarde da noite, enquanto os pais jogavam “buraco” e a vó guardava as roupas lavadas e secas no arame dos fundos da casa. Entre eles, lá estava eu ainda menina.
Vínhamos de trem de Alegrete para passar as férias, no litoral gaúcho, com os primos da capital, que só encontrávamos no verão. A casa alugada pela família tinha o controle e a supervisão da Vó Maria, que reunia filhos, noras, genros e netos para a temporada de veraneio.
Os dias eram radiantes e as noites, mesmo com pouca iluminação nas ruas, eram pura tranquilidade e segurança. Dormíamos com as portas abertas para “encanar” o vento que soprava do mar e passeava nos quartos por cima de nós com cheiro de maresia. Lá pela madrugada, algum adulto levantava para fechar a porta que segurava o vento lá fora até o amanhecer.
Cedinho, a ida para a praia transformava-se numa investida coletiva. As meninas eram encarregadas de contar as toalhas e os roupões felpudos, que nos aquecia na saída da água e impedia resfriados; os meninos ajudavam os homens com os guarda-sois e as cestas repletas de merendas preparadas pela vó Maria e a babá de uma prima menor que nem sempre nos acompanhava. Nossas mães pouca coisa carregavam no meio de tantos ajudantes. Vinham conversando, despreocupadas com aquele ar de mulher feita – donas do mundo –, todas juntas, amarrando nossa excursão. Os pais, vez ou outra conferiam se ninguém havia ficado pelo caminho e, se tudo em ordem, lá ia nossa caravana barulhenta, diariamente, rumo às areias soltinhas e ao mar.
As manhãs transcorriam sem tempo em meio às brincadeiras. Corrida até a beira para ver quem ganhava, dando luz aos menores; castelos enfeitados com a areia molhada pela água que surgia do buraco escavado pelo meu pai. Ele era mais alto que os tios e, portanto, tinha o braço maior, aquele que faria o poço mais fundo em busca da água. Quando o braço voltava trazia escorrendo entre os dedos a areia fininha pingando que contornava, feito renda, as torres do meu castelo. Os guris, ou jogavam bola entre eles, ou se enterravam até o pescoço para depois em desabalada carreira jogarem-se às ondas. Logo atrás deles nossos gritos – cuidado, cuidado hoje tem mãe d’água – ao que um ou outro estancava medroso de queimaduras, enquanto nos ríamos do desconfiado da vez.
Tio Luís encontrou um retratista de Porto Alegre. Andava fazendo dinheiro na orla – dizia ele –, e o contratou para fotografar a família toda. Entre tantas, uma foto especial, só das crianças. Como um trenzinho, um atrás do outro de maior a menor lá estávamos nós. Ainda tenho a foto e me surpreendo quando lembro a data – final dos anos cinquenta… Parece que foi ontem.
Quando tio Gringo pescava tínhamos fritado de peixe-rei e vovó descansava da cozinha. Sentada conosco na sombra da varanda contava da família que veio do norte da Itália. De todas as histórias a que mais nos agradava ouvir era a do irmão mais velho que fugiu de trem com uma mocinha de Taquara para Santa Maria, mesmo estando noivo de outra. Entre o escândalo da época e o amor do irmão e da cunhada, vovó mal escondia um sorriso brejeiro no canto da boca.
– Meio dia em casa, pedia sempre. Antes do almoço tínhamos um ritual que nunca foi desrespeitado: banho frio no chuveiro do pátio, para não sujar a casa e, depois, em fila, pela cozinha aguardava-nos um pequeno cálice de vinho do Porto com uma gema crua dentro. – Não pensa, não pensa, engole rápido – repetia vovó. Mas sempre tinha um de nós que, vez ou outra resolvia pensar… era horrível, mas todos cresceram sem traumas, fortes e sadios como ela prometeu. Não sei se pela gema crua com o vinho do Porto, ou se pela infância feliz dos verões em família.
Ao fechar o jornal daquele domingo me perdi da menina do era uma vez e virei a avó à espera dos netos em minha própria casa de veraneio – que pena que hoje o tempo tem pressa e os ventos que rondam nossas temporadas são outros.
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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LINDO, Gilka!!!
Ao ler teu texto também viajei no tempo, lembrando dos meus veraneios em Tramandaí. Esse texto tem todo o conteúdo e a qualidade para ser publicado na ZH, pena que são sempre os mesmos que conseguem isso.
PARABÉNS!!
Margarete
GILKA!
A grande maioria da nossa geração tomava banho no Tênis, e outros no
Porto dos Aguateiros e na Ponte.
Estou entre as últimas opções.
Fui conhecer mar com mais de vinte anos…e depois quando íamos para CIDREIRA, com minha esposa e filhos.Tenho saudades daquela época!…As manhãs eram azuis bordadas de algodão,as tardes
eram longas de sono,cadeiras e sombras.Até o vento soprava lento
para para educar a intensidade da brisa…Gde abço-EV
Ah! veraneios que não voltam mais!
Tinham mais cheiro de mar, mais imensidão nas areias e, nelas, mais
castelos! Tinha as dunas de onde
meus irmãos rolavam como croquetes!
Banho da manhã, a sesta,o lanche da
tarde e, depois, mais banho de mar!Como tudo era tão intenso em Capão
da Canoa(Hotel Riograndense) e, mais tarde, em Tramandaí onde meus pais compraram apartamento. Tantos
cuidados e controles, pois éramos
muitos-família grande- vinda de São
Luiz Gonzaga!
Gilka, toda essa conversa porque
amei teu texto que me reportou aos
veraneios da minha infância e juventude! Concordo com a Margarete, ele merece ir para jornal local!
Parabéns!!!
Maria.
Querida Mana, lindo teu conto. Me fez recordar bons tempos de crianças felizes que fomos. Tua descrição foi perfeita, até a história do cálice de vinho com gema crua. Lembrei de um detalhe: para não sentir o gosto ruim, eu fechava os olhos, pode? rsrsrsrsr.
Beijos
Mano.
Gilkinha, quanto desprendimento e quanta generosidade ao nos relatar os acontecimentos da tua infância, a vó Maria, o tio Agobar e tudo que contribuiu para a tua formação, tantas alegrias. Ficamos aguardando mais histórias da vida real rsrsrs. bju,bju