// você está lendo...

categoria: SCRIBOMANIA

SENTIMENTALIDADES II

Nem todas as caras e bocas são fotografadas. Os registros são insuficientes para tantas novidades e, por isso, volta toda a sua atenção para o recém-nascido. Aguça a memória e olha-o com olhos curiosos. Não quer perder nenhum detalhe. Deseja entendê-lo melhor, descobrir como sente o mundo pela primeira vez. Nesse processo diário, observa e testemunha aquela aventura única e intransferível.

 

Separado do claustro materno e ignorante de si mesmoinício ao longo processo de aprendizagem que o acompanhará pela vida afora. Tão pequeno e identifica a voz, o cheiro e o vazio que se estabelece entre o desejo e a satisfação não tão imediata. Escuta o próprio choro, alto e forte, toda a vez que despido o suspendem nu e o mergulham num abismo que encontra a água morna do banho. Relaxado em lembranças primitivas, cada vez mais distantes, flutua amparado pelo braço materno. Desfruta e aquieta-se.

 

E o tempo anda, nos afazeres repetitivos do dia. Cresce a consciência de ruptura amenizada pelo aconchego do seio que garante a simbiose. A cada troca de fralda e a última mamada da noite, o dia do bebê estrutura-se. Devagarzinho, torna-se mais maduro e a mãe mais confiante. Se pudesse filmar, como num reality show, veria mais adiante cenas hilárias e emocionantes desse tempo que avança inexorável para o dia seguinte.

 

Para os adultos que o cercam esse poderia ser o tempo apropriado para aproveitar o isolamento, a cumplicidade e a escuta do silêncio interior. Perder a conexão agressiva com mundo fora; abrir mão dos compromissos ditos inadiáveis; deixar um pouco de lado a agonia e a insanidade. Mesmo que não possamos mais depois do abismo, mergulhar nas águas mornas do regaço materno

 

 

Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários. Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Gilka Coimbra

Comentários

3 comentários para “SENTIMENTALIDADES II”

  1. Gilka!

    Lindo texto! Como sempre carregado de muita sensibilidade e verdade. Registrar passo a passo o primeiro sorisso, o primeiro banho, a primeira mamada, enfim… Que bom se esses momentos se perpetuassem em nossa memória para sempre.

    Parabéns e obrigada por me ajudar a lembrar.

    Margarete

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | October 14, 2009, 19:29
  2. Gilka querida!
    Assim como no rosto de Rodrigo a doçura está estampada em teu texto. Tamanha sensibilidade perpassa a lente na tentativa de capturar o sublime mistério do portal da vida. Através de teu olhar comunicas a beleza de se observar bebês. Se me autorizas usarei teu texto em minhas palestras sobre bebês. Penso significativa tua experiência como vovó. Pode ser, amiga. Dadá

    Posted by Dadá | October 20, 2009, 21:44
  3. mais do que nunca, depois de ler este “depoimento lindo”, eu também quero ser avó.
    bjs, parabéns pela sensibilidade
    eliana lugon

    Posted by eliana s.lugon | October 26, 2009, 10:06

Deixe um comentário