Nem todas as caras e bocas são fotografadas. Os registros são insuficientes para tantas novidades e, por isso, volta toda a sua atenção para o recém-nascido. Aguça a memória e olha-o com olhos curiosos. Não quer perder nenhum detalhe. Deseja entendê-lo melhor, descobrir como sente o mundo pela primeira vez. Nesse processo diário, observa e testemunha aquela aventura única e intransferível.
Separado do claustro materno e ignorante de si mesmo dá início ao longo processo de aprendizagem que o acompanhará pela vida afora. Tão pequeno e já identifica a voz, o cheiro e o vazio que se estabelece entre o desejo e a satisfação não tão imediata. Escuta o próprio choro, alto e forte, toda a vez que despido o suspendem nu e o mergulham num abismo que encontra a água morna do banho. Relaxado em lembranças primitivas, cada vez mais distantes, flutua amparado pelo braço materno. Desfruta e aquieta-se.
E o tempo anda, nos afazeres repetitivos do dia. Cresce a consciência de ruptura só amenizada pelo aconchego do seio que garante a simbiose. A cada troca de fralda e a última mamada da noite, o dia do bebê estrutura-se. Devagarzinho, torna-se mais maduro e a mãe mais confiante. Se pudesse filmar, como num reality show, veria mais adiante cenas hilárias e emocionantes desse tempo que avança inexorável para o dia seguinte.
Para os adultos que o cercam esse poderia ser o tempo apropriado para aproveitar o isolamento, a cumplicidade e a escuta do silêncio interior. Perder a conexão agressiva com mundo lá fora; abrir mão dos compromissos ditos inadiáveis; deixar um pouco de lado a agonia e a insanidade. Mesmo que não possamos mais depois do abismo, mergulhar nas águas mornas do regaço materno
Gilka Coimbra - Palavras. É disso que somos feitos – de palavras. Palavras nos identificam e nos diferenciam, conduzem-nos e dispersam, levam-nos à paz e ao sofrimento, nem sempre tão explícita. Palavras são verdadeiras e enganosas, traiçoeiras e amorosas. Dialogam e discutem, ferem e sensibilizam. A palavra quer contato, porque quer ser arte. Gilka Pierry Coimbra é profissional da educação, tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas e sites literários e alguns artigos acadêmicos em periódicos universitários.
Autora da COLUNA SCRIBOMANIA, atualizada quinzenalmente às segundas-feiras.
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Gilka!
Lindo texto! Como sempre carregado de muita sensibilidade e verdade. Registrar passo a passo o primeiro sorisso, o primeiro banho, a primeira mamada, enfim… Que bom se esses momentos se perpetuassem em nossa memória para sempre.
Parabéns e obrigada por me ajudar a lembrar.
Margarete
Gilka querida!
Assim como no rosto de Rodrigo a doçura está estampada em teu texto. Tamanha sensibilidade perpassa a lente na tentativa de capturar o sublime mistério do portal da vida. Através de teu olhar comunicas a beleza de se observar bebês. Se me autorizas usarei teu texto em minhas palestras sobre bebês. Penso significativa tua experiência como vovó. Pode ser, amiga. Dadá
mais do que nunca, depois de ler este “depoimento lindo”, eu também quero ser avó.
bjs, parabéns pela sensibilidade
eliana lugon